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É possível observar o vínculo afetivo criado entre as mensagens que o Profeta Gentileza deixou registradas em pilastras que antes eram só muros de

9 A escrita somente com letra minúscula é uma escolha da autora, decidimos por deixar como é grafado originalmente, então não acrescentaremos as letras maiúscula em início de frases ou mesmo em nomes próprios.

concreto e depois de suas inscrições, a paisagem sofreu uma intensa modificação, com cores - cores nacionais, e palavras de gentileza e prosperidade. Esse livro que se abre para a cidade e impressiona os passantes e os ensinamentos do profeta que lutaram contra o tempo, com a persistência. Além da dedicação de Gentileza ao pintá-las e repintá-las inúmeras vezes, em prol da prevalência das inscrições contra as deteriorações que naturalmente acontecem em decorrência das temperes do tempo, em que as cores vão se perdendo.

Cada um dos murais pintados não se encerra em si (GELMAN, 2009, p. 50), há retomada constante dos murais que passaram ao longo da caminhada e os que virão, possibilitando a continuidade da leitura das pilastras, passando o sentido de uma para a seguinte e assim continuamente, com uma série de repetições, às vezes parafrásticas, dos temas centrais trabalhados por Gentileza, causando um efeito de reafirmação de seus dizeres, de seus sentidos, reiterando suas ideias.

Figura 20 - Livro Urbano (pilastra 3)

Fonte: GUELMAN, Leonardo Caravana; AMARAL, Dado; KUTASSY, Marianna. Livro Urbano do Profeta Gentileza. Rio de Janeiro: Mundo das Ideias, 2011.

Transcrição Figura 20: “Este é o Profeta Gentileza que gera gentileza com amorrr e paz para um Brasil e um mundo melhor meus filhos não usem problemas usamos a natureza”

Na pilastra apresentada anteriormente, a voz do Profeta Gentileza soa como uma apresentação do narrador/autor dessa obra, desse Livro Urbano - “Este é o Profeta Gentileza”, bem como o seu intuito de “um mundo melhor”. E nesta pilastra observamos a inscrição do jargão pelo qual Gentileza se tornou tão conhecido e um acontecimento discursivo: gentileza gera gentileza, tal frase se transformou no dizer mais conhecido e mais utilizado até os dias atuais, mesmo anos após a sua morte. Esse efeito de gentileza dá-se em relação a dois

outros significantes importantes, quais sejam, “amor e paz”, ambos muito presentes nos discursos religiosos e relacionados à figura divina. O objetivo do “mundo melhor” também comparece de modo muito recorrente em outras páginas do Livro Urbano de Gentileza, o que marca um dizer às avessas de que o mundo atual está pior, o que justifica a gentileza como uma forma de luta para irradiar mais gentileza.

Figura 21 - Livro Urbano (pilastra 11)

Fonte: GUELMAN, Leonardo Caravana; AMARAL, Dado; KUTASSY, Marianna. Livro Urbano do Profeta Gentileza. Rio de Janeiro: Mundo das Ideias, 2011.

Transcrição Figura 21: “Gentileza gera gentileza amorrr oferece uma linda mençagem para o nosso querido governador senhor Leonel Brizola e para todos veriadores deputados e senadores para que todos colaborem uns os outros para que Deus nosso pai criador que e a natureza e Jesus santo irmão

espírito santo que nos condus colaborem com todos para um Brasil e um mundo melhor por Jesus disse profeta Gentileza amorrr!”

Na pilastra 11, apresentada acima, observamos a emergência do discurso político dentro do discurso religioso, em uma imbricação intensa. Nessa página do Livro Urbano, há uma descrição de alguns cargos políticos: governador, deputados, senadores. Em especial, Gentileza destaca o até então governador do Estado do Rio de Janeiro, Leonel Brizola. Podemos notar a admiração ao governador com sua referência a “uma linda mensagem para o nosso querido governador Leonel Brizola”, o que marca efeitos de um dizer infantil, quase ingênuo ao referir-se a uma figura pública muito conhecida e muito admirida popularmente. O emprego do pronome possessivo “nosso”, nos proporciona o sentido de totalidade, como se todos os cidadãos concordariam com essa opinião, que este é o governado mais querido por todos. E Gentileza faz um apelo de ajuda desses governantes para proporcionar um mundo melhor, acredita que com a ajuda desses governantes e da condução de Jesus, seja o caminho para uma sociedade mais igualitária e justa.

Marcamos o funcionamento de uma justaposição de discursos nessa pilastra: ora o dizer filia-se aos efeitos de fraternidade e amor, tão regularizados pela religião cristã e marcada pelo sentido dominante de que “Jesus santo irmão espírito santo que nos condus”, ora fazendo um giro nesse dizer e deslocando- o para o campo do executivo e legislativo, já que o sujeito conclama “governador senhor Leonel Brizola e para todos vereadores deputados e senadores para que todos colaborem uns os outros”. De amor para colaboração, de Jesus/Espírito Santo para Brizola/deputados e senadores, o sujeito bascula fazendo sua poesia ser corredeira de duas redes de memória. É possível observar o sentido de humanização que o Livro Urbano causa em meio à cidade contemporânea. O Rio de Janeiro, segunda cidade mais populosa do Brasil, é marcada intensamente pela violência eminente, o profeta Gentileza caminhou justamente no caminho contrário desse estereótipo metropolitano, na tentativa de restituir aos seus habitantes, seja pelas cinzas da grande tragédia de um circo queimado ou pelos viadutos abarrotados de carros com sujeitos individualizados. Ele

propõe o deslocamento de sentido do que seria algo inóspito, corriqueiro, para o surpreendente com seus anúncios colorindo a paisagem. Da mesma forma em que um jardim colorido trouxe novamente vida para as cinzas, ele substitui a cor cinza e triste do cenário urbano com sua estetização. O principal deles e difundido até hoje é seu tema principal: Gentileza Gera Gentileza. Porém outras formações discursivas podemos encontrar fortemente marcadas em sua obra, com por exemplo, suas críticas diretas aos principais Aparelhos Ideológicos do Estado (AIE) – Igreja e Estado (capitalismo). Esses temas fazem parte dos preceitos que ele pregava, como uma cartilha com ensinamentos básicos para se viver em sociedade, mostrando sua religiosidade e sua visão de mundo. Pois para ele, a Igreja e o Capitalismo são instrumentos de escravização, seu intuito então é libertar as pessoas desses conceitos que para ele são representações do mal do mundo, e para Gentileza sua missão na terra era trazer a cura para o mundo moderno.

Tal produção de sentidos geram a produção de memória coletiva, pois se constituem com “o gesto de produção de arquivo como memória institucionalizada funciona na/pela cidade e sofre coerção dos aparelhos Ideológicos do Estado” (VENTURINI, 2009, p. 67). E tais lugares são marcados pelos lugares de memória, onde se observa a inscrição do simbólico, com seus significados e esquecimentos.

4. (RE)ES(X)ISTÊNCIA: PALCO DE CONFRONTO

"O silêncio falava. Era de um agudo suave, constante, sem arestas, todo atravessado por sons horizontais e oblíquos. Milhares de ressonâncias que tinham a mesma altura e a mesma intensidade, a mesma ausência de pressa, noite feliz."

4. (RE)ES(X)ISTÊNCIA: PALCO DE CONFRONTO

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