Cidades orgânicas são aquelas cujas formas-espaços diacronicamente consolidadas caracterizam-se pela irregularidade, diversidade, sinuosidade e profusão de elementos componentes. O jogo de permeabilidades (ruas e espaços abertos) e barreiras (blocos, lotes e edificações) associado, em grande medida, às características geográficas do lugar, produz
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Das nove cidades, a sétima posição é ocupada por Aracuaju – SE e a nona por Teresina – PI. As informações foram obtidas no sítio da INFRAERO, no item Movimento Aeroportuário (estrangeiros), para o mês de julho de 2006 (Cf.: < www.infraero.gov.br >).
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Utilizemos a clássica demolição do conjunto habitacional de Pruitt-Igoe, em Saint Louis, nos Estados Unidos, em 1972. O evento é usualmente reportado como o marco do fim do movimento moderno e começo da pós- modernidade. As qualidades espaciais eram mínimas e o caráter deletério associado ao desenho moderno dificultava o convívio.
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uma cidade dinâmica quanto à geometria, de significativo apelo cênico e que dificilmente pode ser apreendida de imediato.
Implica espaços que aguçam a percepção e promovem variedade de visuais, paisagens e rotas – especialmente se vinculadas a conjuntos edificados remanescentes e ambiências urbanas de interesse histórico, arquitetônico ou patrimonial (Figura 3.20), ou quando a natureza exuberante define com vigor a identidade urbana (Figura 3.21). O fascínio imediato no modo de composição das partes do todo, resultando numa experiência de fruição plástica derivada da fluidez formal de arruamentos e quarteirões.
A característica-chave para a investigação de cidades orgânicas reside no limiar entre a beleza e a sublimação (Figura 3.22). Adjetivações que remetem à percepção,
agradabilidade e hedonismo, reportando a uma preocupação simbólica e expressiva, e sobremaneira estética.
Figura 3.20 – Coimbra – Portugal, situada em morros ao largo do Rio Mondego, foi a primeira capital portuguesa, escolhida por D. Afonso Henriques logo após a expulsão dos mouros e o seu coroamento como primeiro rei do
Estado Nação português. A cidade é dominada pelas ladeiras conectando as partes mais elevadas à cidade baixa, por ruelas estreitas e tortuosas, ladeadas por um conjunto arquitetural exemplar. De especial destaque a
Sé Velha, erguida para comemorar o triunfo sobre os muçulmanos – plano intermediário da imagem – e a Universidade de Coimbra, cuja torre do Campanário domina a vista urbana ao fundo e se tornou marco visual do
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Para KARIMI (1997, p. 06.1) a questão aqui nunca avançou além do fascínio das qualidades estéticas e da atratividade arquitetônica. A beleza dos lugares, dependente do seu jogo de irregularidades, é de tal maneira proeminente que outras abordagens minguam por não aguçarem o interesse dos pesquisadores. É a situação, por exemplo, argumentada por SITTE (1945, p. 56): “sem exceção, é o sítio irregular que apresenta as mais interessantes e geralmente superiores possibilidades, pois o arquiteto é impelido [...] a ultrapassar o mero desenho mecânico das linhas retas”.
MORRIS (2001, p. 22) afirma que o crescimento orgânico produziu paisagens de pitoresca variedade, cujo melhor expoente talvez seja a forma urbana medieval. Apesar do serpenteio e de sua estrutura viária aparentemente ilógica, esses traçados se ajustam claramente a um padrão natural, melhor correspondendo ao espaço geográfico de assentamento.
Figura 3.21 – Vista do Rio a partir do Pão de Açúcar: as paisagens cariocas historicamente despertam o arrebatamento nos viajantes. A impressão de cidade mais bonita do mundo advém de uma combinação peculiar entre o sítio de implantação da cidade e o conjunto de acidentes geográficos que tornam a região do entorno da
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A visão das qualidades morfológicas associadas à estética de SITTE encontra paralelo com, por exemplo, a indústria crescente do turismo que explora o gozo do urbano. As cidades e as imagens correspondentes que delas temos são o ponto de partida para uma fruição contemplativa que se vale da qualidade estética para vender pretensas ambiências peculiares que, de uma forma ou outra, contrapõem-se à monotonia e regulação de locais extremamente planejados.
Figura 3.22 – A cidade sublime: diz-se que o estado de sublimação, em estética, contempla a dimensão sensorial e espiritual; é o ato do distanciamento do espiritual, amor, coração em relação ao sensorial, racional, que no belo
– definido por Kant como aquilo que agrada universalmente sem conceito – estão mais aproximados. O arrebatamento sensorial superpõe-se à dimensão intelectiva (GOROVITZ, 1999, p. 39). Veneza é sublime.
Embora o discurso do arquiteto e urbanista traga consigo a opção por verbetes de clara acepção positiva quando remetendo a alguma espécie de planejamento, é, curiosamente, a situação contrária a de maior chamamento para leigos. Qual a razão de certos
planejamentos atraírem mais que outros? Cansamo-nos da regulação e da linha reta do século XX, desdizendo a onda do pensamento moderno mundial que via na retidão o exaltar
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da racionalidade humana? Retomamos as inspirações morfológicas, como as de SITTE, ao interpretar a diversidade dos espaços – de medievais a seiscentistas – como os que
realmente deveriam ser explorados para resultar em composições urbanas esmeradas? As cidades orgânicas, então, situam-se na convergência de discurso e trazem consigo a antinomia do planejado que se deseja e do orgânico para contemplação. Demais disso, a visão das cidades como organismos vivos não é conceito tão antigo quanto talvez se
imagine. É ranço ainda do pensamento eclético e dos avanços concatenados com a biologia e as ciências a partir da Revolução Científica dos séculos precedentes, culminando com a biologia moderna.
Para KOSTOF (2001, p. 52), “o paralelo entre os órgãos humanos e os elementos da forma urbana a partir das semelhanças funcionais satisfaz uma necessidade simples: o caráter primário da vida urbana” (KOSTOF, 2001, p. 52). Fala-se, portanto, das cidades como entidades que são estruturas naturais no sentido de diversas partes funcionando em
cadência e produzindo a permanência da vitalidade nos lugares. A qualidade dos espaços, a procura pelo bem estar, o desejo pela boa convivência seriam atavicamente condicionados ao modo como a estrutura está organizada e dali seria possível extrair e identificar
parâmetros legitimando a referência a órgãos em um corpo vivo sincronicamente operado. Do avesso, teríamos que se as cidades são organismos, estariam sim sujeitas a toda sorte de problemas, a incluir, outrossim, nascimento e morte. Passíveis a todos os estágios intermediários de doença e declínio, ou euforia e satisfação. A adjetivação avalizaria metáforas contemporâneas sobre as transformações nos espaços urbanos, incorporando a decadência progressiva das estruturas físicas devido a problemas de tráfego, poluição, violência, instabilidades políticas e econômicas, etc.
A figura de linguagem respalda-se nos pensamentos novecentistas seguindo os princípios higienistas, de eugenia e saneamento debruçados sobre cidades que se adensavam a largas passadas. Sendo oriunda de uma abordagem biológica, seria natural que as cidades tivessem sido também investigadas por médicos a enxergarem as rápidas e selvagens transformações urbanas como a grande causa dos problemas urbanos de então, incluindo as epidemias das mais diversas doenças. O adensamento privava os espaços do sol; era preciso alargar as ruas e demolir zonas insalubres, vacinar e varrer as epidemias contínuas: Oswaldo Cruz, no Brasil, tornou-se o emblema de época.
Para países com uma indústria consolidada pela Revolução Industrial, como a Inglaterra, as visões tenebrosas das ruas estreitas e amontoadas de trabalhadores vivendo em condições
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vis impregnavam o olhar que progressivamente enxergava a forma-espaço como o propulsor de tantas doenças e problemas urbanos. A conseqüência foram inúmeras intervenções urbanísticas ao redor do mundo que buscavam eliminar certas áreas
infectadas – bem respondendo a desejos do capitalismo dominante por espaços nobres nas cidades, eliminados os barracos e cortiços dos centros – e que promoveram, num outro extremo, o surgimento da proposta das cidades jardins, no intuito de resgatar as qualidades urbanas a partir de uma integração entre as ambiências rural e citadina.
O movimento iniciado por Ebenezer Howard se tornou tão significativo que hoje, com o advento da sustentabilidade e o discurso em prol do desenvolvimento sustentável, as
premissas apregoadas são parâmetro para a elaboração de propostas comprometidas como o respeito ao meio ambiente – natural e urbano – resgatando a qualidade de vida para os espaços socialmente utilizados.
Para países que experimentaram um desenvolvimento industrial tardio, como o Brasil, as investidas higienistas concentraram-se nos centros urbanos em expansão – como o Rio de Janeiro, Salvador e Recife – aos moldes das intervenções produzidas pelo escritório do Engenheiro Saturnino de Brito. O foco não eram apenas as futuras áreas de expansão para a garantia de um bom crescimento e sim os centros antigos e as estruturas coloniais
adensadas por ruelas estreitas, tomadas por vilas densamente povoadas e pouco iluminadas pelo sol.
Os planos urbanos de Pereira Passos, do início do século XX, e Agache, produzido entre 1926 e 1930, estabeleceram a ruptura em certos bairros centrais e a disposição de grandes eixos sobre a malha predominantemente irregular do Rio de Janeiro: o discurso do
saneamento e beleza cristalizava-se em ambos. O primeiro foi encampado como uma questão nacional, pois a capital demandava reestruturações imediatas para o pleno desempenho das funções cívicas, administrativas e econômicas; a idéia sustentou-se no tripé saneamento, abertura de ruas e embelezamento, expressando nítidos princípios higienistas para arejar, ventilar e iluminar melhor as edificações. O segundo, encomendado em 1926 ao arquiteto francês Alfred Agache, propôs reformas profundas: destituía-se a malha urbana colonial submetida a uma expansão rápida e desordenada pela imposição de perspectivas majestosas e o estabelecimento de diversos eixos monumentais que tomavam partido dos panoramas emergentes.
Os princípios são recorrentes na literatura urbana de finais do século XIX e início do XX, associando o estado de dependência entre a forma-espaço urbana e a saúde física e social
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dos cidadãos. Assemelha-se – ainda que não ao processo motivador – ao que se fez em Paris do Barão de Haussmann: dezenas de quarteirões medievais demolidos para ceder espaço aos eixos em perspectivas barrocas de valorização de monumentos e exaltação das visuais urbanas. É discurso que se alinha aos argumentos de Vitruvius em De architectura sobre as boas características para a implantação da sua cidade, demandando a abertura de vias de circulação bem orientadas em relação aos ventos dominantes, de modo a afastar os maus ares que assolariam a população.
Os núcleos urbanos, por conseguinte, precisariam ser objetos constantes de avaliação para, sob qualquer sintoma, receberem o tratamento adequado saneador de porventura existentes males urbanos: como se pacientes submetidos a tratamento profilático, sob risco de morte – o que inspiraria metáforas do receio humano sobre a permanência e vitalidade. Enquanto organismos, mencionamos os centros antigos decadentes como se mortos, batizamos Veneza por “cidade moribunda” ou produzimos títulos como aquele fornecido por Jane Jacobs a sua obra maior: “Morte e vida das grandes cidades”. É fortuna inevitável. Ainda que não possam ser entidades propriamente orgânicas, talvez seja válida a licença que associe não a cidade a um ser vivo, e sim sua forma-espaço resultante a algo dinâmico e irregular, segundo certas intenções humanas. Significa dizer que os assentamentos são orgânicos não por serem um organismo vivo, como os antigos gregos acreditavam em etapas reconhecíveis de nascimento, crescimento e morte, pois não teriam mecanismos próprios de regulação independentes de outros fatores, e sim por serem produtos de
gerações de pessoas cujos ciclos de vida os mantêm em funcionamento (READER, 2004, p. 8). A forma-espaço, jamais, por si, teria a vitalidade intrínseca a um ser vivo: observemos sítios arqueológicos das civilizações pré-colombianas na América, como Macchu Picchu ou Tikal – o que remanesce é capaz de dizer por si mesmo apenas no nível das suposições. Pesquisadores como KARIMI (1997, p. 06.1) informam que estas interpretações se valem mais de um caráter metafórico, compreendendo uma ilustração de possibilidades, e não uma explicação para compreender o porquê das cidades serem desta ou daquela maneira. Para os estudos urbanos a classificação mais se refere àqueles assentamentos que
comportam a oposição dos espaços pré-concebidos ou planejados, do que a qualquer outra argumentação.
Outro aspecto de interesse perpassa a disposição quanto ao sítio de assentamento. Cidades orgânicas tendem a se situarem em locais onde o relevo é variável, com grandes aclives; para as reguladas, produtos de uma intenção globalizante, a escolha tende a cair
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sobre tabuleiros planos. A opção por um ou outro, longe de acaso, fundamenta-se em atributos sociais, culturais e bélicos de época, que se conformam como poderosos agentes de definição.
KOSTOF (2001, p. 62) afirma que muito do que se analisa sobre a evolução dos padrões orgânicos é na realidade produto do condicionante geográfico. O relevo, a divisão do solo, as características dos biomas das áreas de implantação e os arranjos de convivência social são fatores delimitantes para esta ou aquela composição, contribuindo diretamente para o estabelecimento de formas irregulares em assentamentos.
Observemos que os desenhos planejados, predominantemente, tendem e estarem locados em sítios planos, produzindo ocupações contínuas em sua grande maioria. Aqueles
orgânicos, por oposição, apresentam tendência a manchas urbanas descontínuas, efeito das interferências do terreno em sua distribuição territorial: cidades podem ser mais ou menos compactas. Comparemos graficamente a grande densidade de Goiânia, resultante do Plano de Atílio Correia Lima, e o espaçamento em Florianópolis, implantada parte no continente e parte na Ilha de Santa Catarina, repleta de morros, lagoas e dunas (Figuras 3.23 e 3.24).
Ponderemos que a cidade orgânica interpretada como efeito de uma intenção é abordagem recente. Antes, no modernismo, o padrão foi continuamente taxado como se desprovido de vontade e surgido da aleatoriedade ou acaso, o que teria implicado problemas de qualidade na estruturação urbana. Contribuiu para o discurso pejorativo as transformações causadas pela Revolução Industrial ao elegerem os traçados tortuosos e irregulares como uma das causas da crise urbana experimentada.
Parece a interpretação objeto da influência do Renascimento no pensamento
contemporâneo ao negar a produção medieval e dela extrair as características antagônicas de oposição à racionalidade em emergência: definiu-se a Idade Média como das Trevas, desconstruindo também a forma-espaço respectiva.
As cidades medievais, irregulares, curvas e adensadas, tornaram-se foco de negativa clara para as novas composições espaciais que surgiam, constituídas pelas perspectivas cônicas nascentes e disposição de monumentos urbanos para a valorização de feitos e vitórias.
As cidades muçulmanas receberam impressão enviesada igual, como se um jogo labiríntico ou artefato de pouca habilidade. De modo idêntico foram classificadas as cidades coloniais portuguesas implantadas na América: a adaptação ao sítio significou, por séculos, uma suposta incompetência lusitana em implantar núcleos coloniais planejados, produzidos como
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primor racional urbano. Argumentava-se que a falta de regularidade resultava da ausência de conhecimento técnico para a feitura de novos assentamentos. Confirma-se o que alega KOSTOF (2001, p. 69): “antes da era modera, era difícil encontrar evidências que a cidade orgânica era apreciada como uma escolha racional”.
Figura 3.23 – Representação linear da cidade de Goiânia – GO. Escala Aproximada: 1:150000.
Redirecionando o discurso vale prosseguir além do juízo de gosto estético para a interpretação das cidades orgânicas como produtos da transformação da forma-espaço constituída ao longo do tempo, por sobreposição de intenções progressivas e contínuas. Observe-se, contudo, que nenhuma classificação de cidades pode ser estanque, tendo em vista dificilmente serem exclusivamente de crescimento orgânico ou inteiramente reguladas: a predominância são as variações compositivas.
KARIMI (1997, p. 06.1-2) argumenta que existem três elementos determinantes que auxiliam a compreensão dos limites ambíguos entre cidades orgânicas e aquelas planejadas: (1) o
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leiaute inicial; (2) a duração do processo de crescimento natural; e (3) o grau de desenvolvimento.
Figura 3.24 – Representação linear da cidade de Florianópolis – SC. Escala Desconhecida.
Para as cidades brasileiras, os três itens são dúbios. O que seria o leiaute inicial de uma cidade? Como estabelecer em qual momento cronológico o princípio é dado por certo? A exemplo, grande parte das cidades de origem colonial portuguesa nasceram efetivamente – isto é, não como intenção em planta – em um retângulo contendo a praça, a Igreja e a Casa de Câmara e Cadeia. Os cruzeiros das marcas usualmente indicavam os limites urbanos,
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mas a partir deles não havia um esquadrinhamento anterior de ruas para caracterizar uma estrutura urbana pré-configurada.
A segunda questão seria estabelecer o processo de crescimento natural. Atualmente grande parte das cidades tem um crescimento contínuo que também envolve atitudes derivadas de interesses e vontades políticas, implicando casos evidentes de regularidade e planejamento. Simultaneamente, contudo, várias outras áreas urbanas crescem segundo outros fatores que não políticas de ordenamento territorial urbano, especialmente em subúrbios e periferias distantes de um centro tendente à ordenação.
Além disso, é extremamente difícil contemporaneamente pensar em núcleos urbanos em termos de uniformidade. Grande parte das cidades do mundo, e nestas especialmente as brasileiras, mesmo quando apresentam certo grau de planejamento e regulação, são grandes colchas de retalhos compostas de variadas grelhas sem uma articulação efetiva interpartes. Crescem progressivamente e se tornam um conjunto de partes quase que independentes.Como, então classificar este caleidoscópio de heterogeneidade? Não há resposta precisa.
Consideremos, em caso extremo, uma cidade como São Paulo (Figura 3.25).
Figura 3.25 – Representação linear de parte do município de São Paulo – SP. A zona norte da capital paulista está hachurada. Escala Aproximada: 1:150000.
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Moradores da Zona Norte resolvem toda a sua vida cotidiana ali mesmo: moram, trabalham e se divertem em lugares desta mesma zona, sem sequer se deslocarem para outros bairros ou áreas urbanas. Muitos têm uma visão de uma São Paulo que é restrita ao que
experimentam no dia a dia, ainda que apenas parte do todo. O mesmo para o Rio, Salvador e outros grandes aglomerados urbanos no país.
Figura 3.26 – Representação linear de parte da cidade de Belém – PA. No entorno das áreas em tabuleiro planejado existem regiões periféricas com estruturação mais parecida com aquelas de crescimento orgânico ou irregular. Observe-se também que nas áreas em grelha há uma grande quantidade de pequenos segmentos que
correspondem aos acessos às vilas, padrão grandemente comum na capital paraense, criado para preencher os miolos dos grandes quarteirões. Escala Aproximada: 1:150000.
Do conjunto de informações, chegamos à distinção entre cidades orgânicas e planejadas residente no modo como os agentes que produziram o espaço enxergaram o assentamento urbano propriamente dito. As primeiras incorporam um planejamento extremamente local
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onde a forma-espaço construída é o resultado da soma de iniciativas individuais, cada uma a um tempo e guiada pelo propósito particular de atender a certa demanda precisa. Para as planejadas, o processo de regulação ou do fazer o assentamento é um campo de ação mais amplo: a interferência tende a ser global e não local, e a cidade é compreendida como um todo contínuo.
Ocorre que se pensarmos segundo a lógica acima poderíamos afirmar que a grande maioria dos núcleos urbanos são orgânicos, pois quase todos originam-se em processos contínuos de crescimento e agregação de partes ao todo urbano, usualmente compreendido em frações. Não foram tantas assim as experiências planejadas de todo e, mesmo estas, com o passar do tempo, receberam acréscimos sem vinculação direta ao planejamento prévio (Figuras 3.26 e 3.27).
Figura 3.27 – Representação linear de parte da cidade de João Pessoa – PB. Observe-se que no entorno da área de fundação, à esquerda da Lagoa (Parque Sólon de Lucena – centro da imagem), foram acrescidos diversos padrões de malha que não apresentam clara articulação interpartes. Escala Aproximada: 1:150000.
Muitas cidades se desenvolveram gradualmente a partir de vilas, com o crescimento derivado de uma boa localização, posição de liderança na rede urbana e recursos abundantes. Em contraste, cidades preconcebidas são assentamentos impostos em
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situações de reconstrução do pós-guerra ou para o estabelecimento de colônias ou postos militares avançados, ou ainda atender a interesse políticos.
Mesmo estes processos graduais que levaram à conformação de certas cidades nunca são inteiramente eventuais: “de alguma forma, a feitura das cidades envolve um ato de desejo de alguém ou de uma coletividade” (KOSTOF, 2001, p. 33). Nenhuma cidade, por mais
aleatória que possa nos parecer, pode ser dita como sem “planejamento”. “Por trás das mais
estranhas sinuosidades das vias e emparedamentos dos espaços públicos, reside uma ordem devida à ocupação anterior, associada às feições da terra, às convenções sociais estabelecidas, à relação entre os direitos individuais e às vontades comuns” (KOSTOF, 2001, p. 52).
A irregularidade dos assentamentos orgânicos não deve ser vista como indicativo de caos, desordem ou bagunça. E sim arcabouço para a criação de um sistema de crescimento urbano extremamente flexível, que mais facilmente responde às demandas sociais e