Não é possível entender como funciona o plano de consistência ou composição sem entender o papel do plano de organização ou de desenvolvimento. Funcionam como duas formas de conceber o plano. O plano de organização não é dado, ele pode
apenas ser deduzido a partir daquilo que ele nos dá. O plano pode ser considerado tanto de desenvolvimento quanto de organização, ele é estrutura e gênese: “(...) plano estrutural das organizações formadas com seus desenvolvimentos, plano genético dos desenvolvimentos evolutivos com suas organizações.” (DELEUZE e GUATTARI, 2012, vol.4, pp. 56-57). Desse modo, ele desenvolve as formas e a formação dos sujeitos, é uma estrutura, um significante oculto necessário à formação dos sujeitos. Ele é um plano de transcendência, pois é dado somente como um desenho mental, apesar disso, ele não pode existir sozinho, ele opera em conjunto com o plano de consistência. Assim, também outros planos, como o plano de vida, de escrita, de pintura podem ser inferidos a partir das formas que desenvolve e dos sujeitos que forma:
Assim como na música, o princípio de organização ou de desenvolvimento não aparece por si mesmo em relação direta com aquilo que se desenvolve ou se organiza: há um princípio composicional transcendente que não é sonoro, que não é ‘audível’ por si mesmo ou para si mesmo. (DELEUZE e GUATTARI, 2012, vol.4, p. 57)
Como frisamos antes, em conjunto com esse plano de organização, há outra concepção de plano, o plano de composição. Em tal plano não há mais formas, sujeitos ou formação de sujeitos, estrutura ou gênese. Para esse plano há somente relações de movimento e repouso, velocidade e lentidão entre elementos ainda não formados, moléculas e partículas, hecceidades, afectos, individuações sem sujeitos, agenciamentos coletivos, não há subjetividade. É um plano de imanência e univocidade, ele é natural e imanente: “A este plano, que só conhece longitudes e latitudes, velocidades e hecceidades, damos o nome de plano de consistência ou de composição (por oposição ao plano de organização e de desenvolvimento).” (DELEUZE e GUATTARI, 2012, vol.4, p. 58)
Diferente do plano de organização que forma um desenho mental, o plano de composição poderia ser considerado de não-consistência, já que não remete mais a um desenho mental e sim a um desenho abstrato. Através desse plano tudo passa, suas dimensões não param de crescer, é um plano de povoamento, de proliferação, de contágio.
Voltando nossa atenção à narrativa, podemos observar, seguindo a trilha do narrador e as tentativas de sua composição musical, que tal criação ocorreu apenas quando ele se deixou levar pelo plano de composição, pelas hecceidades, pelos agenciamentos coletivos, pelos afetos e encontros. No início da narrativa ele lida com a
frustração de uma obra não concluída, ela não foi terminada porque existia apenas um plano de organização, mas não havia um plano de consistência:
No enganoso ardor que punha na defesa dessas artes do século, afirmando que abriam infinitas perspectivas aos compositores, buscava provavelmente um alívio ao complexo de culpa ante a obra abandonada e uma justificação para meu ingresso numa empresa comercial... (CARPENTIER, 2009, p. 21- 22)
À medida que a narrativa avança e que o narrador é tomado pelos encontros e agenciamentos ele consegue realizar a sua obra musical, pois agora ele se vale de um plano de composição:
Agora longe das salas de concertos, de manifestos, do interminável aborrecimento das polêmicas de arte, invento música com uma facilidade que me assombra, como se as idéias, descidas do cérebro, enchessem minha mão, atropelando-se para sair através do grafite do lápis. Sei que devo desconfiar do que se cria sem alguma dor. Em meio à chuva que cai sem trégua, escrevo com jubilosa impaciência, como que impulsionado por um broto de energia interior, reduzindo minha escritura, em muitos casos, a uma espécie de taquigrafia que só eu poderia decifrar. (CARPENTIER, 2009, p. 238)
Deleuze e Guattari advertem-nos que a proliferação não tem relação com evolução, forma ou filiação de formas, já que as formas são constantemente diluídas, também não se trata de uma regressão, pois regressão daria uma falsa impressão de princípio: “É, ao contrário, uma involução, onde a forma não para de ser dissolvida para liberar tempos e velocidades.” (DELEUZE e GUATTARI, 2012, p. 58, vol. 4)
O plano de composição é fixo, no entanto, fixo não significa que ele seja imóvel, fixo quer dizer o estado absoluto do movimento e do repouso, onde se desenha as velocidades e as lentidões. Como exemplo, Deleuze e Guattari citam os músicos modernos, os quais consideram que o plano de organização dominou a música clássica ocidental, enquanto a música moderna deixa vir à tona um plano de composição, um plano sonoro imanente, que abriga apenas velocidades e lentidões: “Foi sem dúvida John Cage o primeiro a desenvolver mais perfeitamente esse plano fixo sonoro que afirma um processo contra qualquer estrutura e gênese, um tempo flutuante contra um tempo pulsado...” (DELEUZE e GUATTARI, 2012, p. 59, vol. 4)
O plano de composição interessa-nos de forma especial, já que o presente trabalho propõe uma análise filosófica de uma obra literária, não é somente a música que utiliza o plano de composição, toda obra de arte utiliza um plano de organização e um plano de composição.
Segundo Deleuze e Guattari, Nathalie Sarraute distingue dois planos de escrita, um plano transcendente, o qual organiza, desenvolve gêneros, temas, motivos, que evolui os personagens, os sentimentos e um plano de composição, o qual libera partículas de uma matéria anônima, faz com que elas se comuniquem e só retém entre essas partículas relações de movimentos e lentidões, de afectos flutuantes, assim percebemos o plano à medida que ele nos faz enxergar o imperceptível.
É importante frisar que os planos de composição podem fracassar, já que eles trabalham com velocidades e lentidões, proliferações, involuções, entretanto, o fracasso nunca é ruim, o fracasso faz parte do plano, seja do plano de vida, de música, de escrita:
Então, o plano, de vida, plano de escrita, plano de música, etc.; só pode fracassar, pois é impossível ser-lhe fiel; mas os fracassos fazem parte do plano, pois ele cresce e decresce com as dimensões daquilo que ele desenvolve a cada vez (planitude com n dimensões). (DELEUZE e GUATTARI, 2012, p. 60, vol. 4)
Também devemos atentar para o fato de que a oposição entre os planos de organização e de composição é apenas uma hipótese abstrata, já que não paramos de passar de um ao outro, em graus insensíveis e de forma inconsciente, às vezes, apenas posteriormente percebemos que passamos de um a outro plano.
Lembremos que o plano de organização cobre o que chamamos anteriormente de estratificação, ou seja, as formas, os sujeitos, que imperam sobre nosso corpo, os estratos que compõem o organismo, já o plano de composição implica uma desestratificação de toda a Natureza, mesmo que por meios artificiais, instaurando movimentos de desterritorialização, dessubjetivação. O plano de composição é o corpo sem órgãos e o plano de organização quer ‘tapar as linhas de fuga’, impedir as desterritorializações e as desestratificações:
De modo que o plano de organização não para de trabalhar sobre o plano de consistência , tentando sempre tapar as linhas de fuga, parar ou interromper os movimentos de desterritorialização, lastreá-los, reestratificá-los, reconstituir formas e sujeitos em profundidade. (DELEUZE e GUATTARI, 2012, vol.4, p. 63)