Não faz sentido falar de cultura sem considerar o instrumento linguístico conforme já exposto anteriormente. Essa vem a ser descrita por meio de uma língua. Afirma-se, então, que existe um binômio língua-cultura e existem fortes relações que regulam esses dois elementos que se influenciam mutuamente. A interação entre indivíduos de diferentes origens não se dá de qualquer modo: são levados em consideração diversos fatores que variam em cada sociedade como as regras sociais, a hierarquia entre pessoas jovens e mais velhas etc.
A relação entre língua e cultura é indiscutível. Kramsch (1998) considera que diferentes línguas oferecem diversas formas de perceber e expressar o mundo ao redor do sujeito. Visto que ambas estão interligadas, não é difícil perceber que não se pode ensinar língua sem abordar cultura.
Alguns estudiosos como Oliveira Santos (2004), entre outros, têm utilizado o termo língua-cultura com o sentido de produto histórico-social que varia em função do tempo, do
23 Entende-se ‘acontecimentos’ como fatos, circunstâncias, situações de uso.
espaço e das diferentes classes sociais, constituído por indivíduos para indivíduos e indissociável de cultura.
Mezzadri (2003) e Balboni (1999) destacam que um processo de ensino-aprendizagem para a interação do aprendente com a comunidade falante da língua-alvo com a finalidade de desenvolver habilidades culturais, e também interculturais, pode ser um interessante caminho para a formação do aluno. A língua, nesse processo, não se caracteriza única e exclusivamente por estruturas morfossintáticas. Ela é muito mais do que isso, é o canal de expressão que o falante utiliza em variados ambientes de sua vida, seja na academia, no trabalho ou na vida social.
Quanto mais o aprendente conhece a língua-cultura, mais ele reduz a possibilidade de conflitos e melhora a interação com os nativos. Em outras palavras, nesse processo de apropriação25 de um novo idioma, o desenvolvimento do aluno quanto ao conhecimento da comunidade linguística do idioma estudado o ajuda na interação com falantes nativos de maneira a facilitar a sua inserção em outra comunidade que não é a sua de origem, evitando situações inconvenientes e de engano.
O conhecimento cultural não se dá única e exclusivamente por meio de um ensino formal. É uma construção que vai além da sala de aula. O aprendente pode ter iniciado o conhecimento da nova língua na sala de aula ou de outro modo. Os materiais didáticos e o curso de idiomas são ‘laboratórios’ em que o sujeito inicia seus estudos e busca simular possíveis interações em outro mundo que é a língua-cultura estrangeira.
Vale ressaltar que os materiais didáticos possuem forte influência na vida dos aprendentes por serem referência no processo de aprendizagem de uma nova língua. Eles não apresentam inesgotáveis possibilidades de interação, mas possuem uma gama de informações recolhidas ao decorrer de um determinado período por meio de ensino a diferentes grupos.
Byram e Fleming (2001) afirmam que um conhecimento progressivo das pessoas que falam o idioma estudado é intrínseco na aprendizagem e sem a dimensão cultural, a comunicação entre sujeito e nativo fica dificultada. Inclusive as palavras e expressões básicas que podem ser parcial ou aproximada, e os falantes e ouvintes podem não conseguir se expressar adequadamente ou dificultar o entendimento do seu interlocutor. A dimensão cultural, nessa perspectiva, é entendida como a ambientalização do aprendente no processo de ensino-aprendizagem de uma nova língua. Na ausência desta ambientalização, o aluno corre o
risco de usar de modo inadequado um discurso que não faz parte da comunidade onde a língua-alvo é usada. A interação sem o conhecimento cultural entre aprendentes e falantes do idioma pode ter como produto choques ou confrontos desnecessários e podem alimentar a estereotipização dos povos falantes da língua estudada.
A cultura do aluno é importante no processo de ensino-aprendizagem de língua estrangeira. Essa integração entre as diferentes culturas tem sido estudada26 no campo da didática das línguas para uma melhor inserção do sujeito na nova língua-cultura e, também, para a interação entre os nativos e o aluno estrangeiro.
Não se ensina a cultura da língua estrangeira para aculturar27 o aprendente, mas para facilitar a inserção dele no âmbito da nova língua que ele está conhecendo na medida em que esse conhecimento melhora o entendimento quanto ao uso do idioma, assim, como o entendimento de fatores de cunho sociocultural dos falantes nativos (KRAMSCH, 1996, 1993, 1998). Nesse âmbito, não se ensina o cultural, mas facilita-se o acesso ao cultural por meio da exposição do aprendente a essa nova realidade (TILIO, 2006).
Quanto aos manuais para o ensino de língua, foco deste trabalho, o EAL vem contando – há décadas – com o auxílio de textos, vocabulários, gramáticas e outros materiais para a apropriação do novo idioma. Verifica-se em materiais didático-pedagógicos e em currículos de cursos de idiomas que o cultural ainda é um capítulo à parte no ensino. A respeito dessa situação, Kramsch (1993) destaca que a cultura é colocada como um condutor neutro nesse processo e, muitas vezes, é entendida como um capítulo anexo aos conteúdos utilizados para a aprendizagem de uma língua. Eis um dos grandes problemas que se pode considerar, pois o cultural não é um conteúdo na apropriação de uma nova língua. É de fato um processo que não se encerra com o fim do curso de idiomas ou quando o aprendente consegue uma certificação internacional, por exemplo. O cultural é incomensurável, por isso, entendê-lo como um anexo nos materiais didáticos é inadequado para levar o aprendente a viver um outro idioma.
A separação entre língua e cultura, segundo Byram (1999), é facilmente verificável em LDs para o ensino de línguas, onde os capítulos ou unidades didáticas dividem os conteúdos,
26 Kramsch (1996, 1993, 1998), Oliveira Santos (2004), Byram e Fleming (2001).
27 Aculturação é entendida como “a adoção de alguma característica proveniente de outra cultura. Essa palavra vem de ad-culturação, que significa adesão a algo de alguma [outra] cultura.” (ALBÓ, 2005, p. 41). Já a transculturação é um processo de profunda transformação que provoca uma mudança de uma identidade cultural a outra, mesmo quando na prática cotidiana persistem ainda certas características que indicam as origens culturais que já foram rejeitadas (IDEM).
ao invés de desenvolver uma integração28 entre os diferentes enfoques, tanto conteúdos nocionais-funcionais, quanto aspectos da cultura da língua-alvo. Esta situação pode levar o cidadão envolvido no processo de ensino-aprendizagem a tratar a cultura como um conteúdo suplementar ou opcional que toma apenas alguns minutos do trabalho em sala de aula.
Um ponto fundamental para tratar o cultural no processo de EAL (segunda, estrangeira ou materna), de acordo com Alvarez (2002), é o fato de retirar a língua do vazio, de uma plataforma linguística – ou estruturalista – e dar-lhe ‘vida’, com destaque para o respeito pela identidade e pelos valores do povo falante da língua. Ainda segundo a autora, um ensino que considere o cultural como elemento importante aproxima pessoas de diferentes comunidades linguísticas, colaborando com a redução – ou até eliminação – de estereótipos, desmistificando diferenças de costumes e reduzindo choques culturais e, ao mesmo tempo, ajudando o aprendente a ter uma atitude reflexiva sobre sua própria cultura e a fortalecer seus laços com ela. Por meio de atividades ou de modelos diversos de hábitos, comportamentos ou outras simulações se podem mostrar diferentes aspectos da língua-cultura alvo.
Byram (1999) afirma que a finalidade do ensino da cultura está muito além de replicar o processo de socialização vivido por nativos da cultura da língua-alvo, uma vez que implica desenvolver o entendimento cultural e intercultural.
Por fim, quando se pensa em um ensino de línguas em uma abordagem intercultural, de antemão, se pensa em ações que integrem as culturas de partida [do aprendente] e de chegada [da língua-alvo].