Os fenômenos comunicacionais estão em constante modificação dentro do ciberespaço, pois novos ambientes virtuais surgem frequentemente, alterando muitos dos hábitos dos internautas. A cada nova geração, o comportamento dentro da rede também se altera, pois à medida que a cibercultura vai sendo assimilada, ela se torna uma cultura forte, determinando modelos de atuação. Segundo Rossini (apud HABEYCHE, 2008), as tecnologias contemporâneas
(...) têm servido para definir o modo de ser juvenil, tanto no plano individual quanto no social (...) pela incorporação dos computadores e da internet, ou pela afinidade com a linguagem destes jovens que são ágeis e velozes, proporcionando assim um consumo massivo por esse público. Prioritariamente, nossa preocupação esteve em olhar o ciberespaço e seu relacionamento com o cibernativo como um fenômeno comunicacional, apesar de beber de outras ciências que auxiliaram nesta leitura. Não nos coube o julgamento, o juízo de valor, mas uma compreensão equilibrada diante de um tema tão polêmico.
A questão suscitada sobre como atividades comunicacionais estão se configurando nesse processo de envolver o usuário cibernativo, ou seja, quais espaços virtuais têm sido configurados para este usuário foi respondida depois de uma varredura no ciberespaço, que nos permitiu listar e analisar os principais ambientes, nos quais participam e cooperam os
cibernativos. Tais ambientes foram divididos em: espaços virtuais com conteúdos
configurados para os cibernativos, espaços virtuais com conteúdos não-configurados para os
cibernativos e espaços virtuais com conteúdos produzidos para os cibernativos.
A segunda questão concernente aos usos que este novo usuário tem feito do ciberespaço, quais sites têm acessado, de quais eles participam e com quais eles colaboram partiu do resultado da primeira, do entendimento dos tipos de relacionamento possíveis dentro das mídias interativas e da compreensão dos tipos de autonomia comunicacional.
A descrição e análise de cada um dos espaços virtuais encontrados nos fizeram concluir que todos estão, obviamente, hospedados no ciberespaço, sendo renovados e alimentados a cada momento, pois o paradigma do tempo e espaço é desconstruído na rede.
Sobre os espaços com estruturas significantes adequadas ao usuário de nova feição, preparados por adultos para o cibernativo, encontramos um único exemplo entre os mecanismos de busca, o Google infantil chamado KidRex. Neste desenvolve-se apenas uma autonomia de pensamento, presente em qualquer ambiente, e autonomia de expressão, já que
o cibernativo pode participar do conteúdo do site através de desenhos, mas a interação é bem pequena, visto que o KidRex responde apenas o que o internauta busca.
Nos ambientes chamados de redes sociais, o relacionamento e a autonomia são do mesmo tipo, porém de maneira mais profunda. As oportunidades e possibilidades de interação e participação são mais variadas, pois o que caracteriza estas redes é, exatamente, a constante comunicação ou a possibilidade de contato entre pessoas do país e até do mundo inteiro. O relacionamento participativo prevê que o cidadão atue através da conexão, sem mediação de empresas ou instituições, em seus grupos de interesse, a partir de suas afinidades. Nas redes para crianças e adolescentes, percebemos que se trabalha em torno de suas necessidades no tocante, principalmente, ao mundo imaginário e lúdico.
Nos espaços não formatados para o usuário de nova feição, o conteúdo foi pensado para o indivíduo de idade adulta, apesar disso, o cibernativo se faz presente participando e cooperando. Desta situação, os exemplos são vários, nos quais encontramos todos os tipos de autonomia e de relacionamento.
Para os mecanismos de busca, não há participação do usuário nem abertura para expressar sua autonomia comunicacional. Enquanto, nas redes sociais, assim como acontece nos espaços com conteúdos configurados, os cibernativos encontram maneiras de participar, mesmo que seja burlando as regras, pois estes sites são restritos para pessoas com mais de 18 anos, afirmando a inadequação do seu conteúdo. Apesar disso, eles estão presentes de alguma maneira, deixando marcas de sua participação através da autonomia expressiva. A freqüência com que os produtores de webshow a utilizam é uma evidente demonstração desta participação, criando interesses próprios e compartilhando-os.
Nos sites gerenciadores de conteúdo, a liberdade de participação e expressão é maior, enfatizando a liberação do pólo emissor e da palavra característica da cibercultura. É possibilitado ao internauta dar uma aparência própria ao seu site e despejar ali os conteúdos de seu gosto. Eles, porém, obedecem àquilo que é oferecido, restringem-se então à criação de
blogs próprios ou à participação em blogs criados por adultos. Da mesma maneira, acontece
no microblog Twitter, o qual tem por princípio a expressão daquilo que está acontecendo consigo e no mundo.
No caso dos sites de compartilhamento de vídeo é onde encontramos a autopoiese e o relacionamento cooperativo. A lógica da colaboração com conteúdo é um princípio básico para a manutenção destes sites, depende exclusivamente da autonomia produtiva e desejo de cooperar do internauta.
compartilhados nestes sites que encontramos o webshow, considerado aqui um expoente da produção autônoma deste público. Tais produções não se limitam a uma postagem; existe toda uma construção de um mundo virtual em torno desta, através da criação de um site próprio para a divulgação, participação do internauta e discussão sobre o programa.
Estabelece-se, assim, a dinâmica autopoiética de criação de si dentro da rede de comunicação na cibercultura. Esta dinâmica produz a si mesma, visto que a própria cibercultura é um processo autopoiético, e é produzida pelo indivíduo cibernativo autonomamente, pois a rede é constituída à maneira de cada um.
Na produção do webshow, principalmente, é possível perceber uma noção de subjetividade do indivíduo, pois procura valorizar fatos do cotidiano deles, seus anseios, questionamentos, necessidades, sempre com um teor humorístico, em tom de brincadeira. Esta noção está presente na construção de conteúdos, linguagem e comportamento dos
cibernativos nos vídeos a partir dos quadros e de toda a estrutura montada no gerenciador
FreeWebs, que mantém a divulgação, compartilhamento, discussão em torno do produto audiovisual, utilizando principalmente os espaços que não são configurados para eles: emails, Twitter, canal de Youtube, Vimeo, Orkut, Formspring, bate-papo do Messenger, chat, fotolog,
blogs, Club Penguim.
Este caso representa para nós um vestígio do surgimento de uma cultura do usuário de nova feição, pois ela se constrói a partir da autonomia e liberdade de produzir vídeos com conteúdos próprios e de compartilhá-los na rede, expondo seu teor lúdico e humorístico, como uma eterna brincadeira.
Embora Jenkins (1998) traga um estudo holandês que desmente esta autenticidade no humor das crianças e brincadeiras na sua cultura, afirmando que tais brincadeiras são cada vez mais produto da orientação educativa e cultural dos pais, o que notamos é que no webshow existem indícios desta autonomia comunicacional e liberdade criativa em relação aos pais e adultos, na medida em que as criações e toda a produção acontecem de maneira independente deles.
Como Buckingham (2007) sugere, as crianças e adolescentes cibernativos podem falar por si, afinal é nesta fase que as operações lógicas começam a ser transpostas do plano da manipulação concreta para o das idéias expressas em linguagem qualquer, pois sua autonomia se confirma na idéia de um leitor imersivo, experto e previdente, com atividade mental elaborativa, de experimentação e caráter antecipador.
O webshow pode ser esse canal, essa voz, através da qual as crianças se expressam disseminando os símbolos de sua linguagem lúdica, oral, corporal, gestual, artística, plástica,
visual, musical, midiática e de outras capacidades expressivas autênticas que constituam a base da sua formação cultural.
Por último, trazendo à luz a indagação principal que guiou esta pesquisa: está se instaurando na Internet uma cultura dos cibernativos a partir de sua autonomia de produção (ou autopoiese)?, respondemos que os indícios são fortes, pois o exercício da autonomia comunicacional de produção ou a autopoiese estão presentes no espaço virtual com conteúdo produzido pelo cibernativo, onde acontece uma reconfiguração das práticas midiáticas deste ambiente. Tal inovação e capacidade criativa de simbolização, segundo Laraia (2007) estaria atrelada a uma nova cultura. Ao passo que, seu alastramento estaria na capacidade de disseminação, socialização, uso e autonomia expressiva presentes também nos diversos espaços estudados.
A função simbólica presente desde a fase pré-operatória se aperfeiçoa e parece se conectar com a propriedade simbólica da cultura, pois todo comportamento humano se origina no uso de símbolos, apoiada numa era digital que fornece a base para um cibercultura, na qual os cibernativos têm participado, expressando-se e cooperado, produzindo.
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