Pois bem, alcançamos agora o pensamento de Gianni Vattimo – que, de certa forma, considera-se herdeiro de Lyotard – e, uma vez colocados os pressupostos da senda lyotardiana nos quais Vattimo está assaz trilhado, cabe-nos indagar onde ele está posicionado com relação ao discurso do filósofo francês sobre a pós-modernidade e quais são os
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acréscimos, modificações e contribuições que ele faz a este pensador e a esta condição em que nos situamos epocalmente.
Sabe-se que, depois de Lyotard, a discussão sobre esta temática encaminhava-se praticamente para o seu fim. Tanto o filósofo francês quanto J. Habermas76 teriam dado por
resolvida a sua polêmica ao passo que ia se avizinhando a década de 90. Vattimo, aparentemente na contramão, retoma e recolhe destes autores suas ideias, continuando o debate e impulsionando-o mais além, em particular, a partir de seu trabalho La fine della modernità (1985), que conferiu mais forma e vigor à discussão, enquanto parecia, com isso, começar a desligar-se da ideia original de seu criador.
Ainda acompanhando Lyotard, Vattimo também faz a leitura de que a pós- modernidade implica uma pluralidade que não seja dominável do ponto de vista central, mas que esta exige outro tipo de legitimação, por isso, ele retoma e assume o vocábulo “metarrelato” (metaracconto; metanarrazione) e sua tese que compreende a pós-modernidade como a época em que estes deixam de ter valor77.
Os “grandes relatos”, aqueles que não se limitavam a legitimar, em sentido narrativo uma série de fatos e comportamentos, mas que na modernidade e sob o impulso de uma filosofia cientificista buscaram uma legitimação “absoluta” numa estrutura metafísica do curso histórico, perderam a credibilidade78.
Mais uma vez a exemplo de Lyotard, Vattimo também percebe, identifica algum avanço na atenção posta sobre a questão da pós-modernidade. É possível acrescentar, ainda,
76 Fazemos tal afirmação a partir da leitura do texto Etica dell´interpretazione no qual Vattimo discute com
ambos os filósofos e expõe sua visão sobre esta matéria. Em especial, tal reflexão pode ser encontrada no primeiro capítulo deste ensaio que recebe o título Postmodernità e fine della storia (pp. 13-26). Não nos deteremos em confrontar as teses de Lyotard e Habermas, mas reenviamos, ainda, ao ensaio de Richard Rorty (1991) em que ele põe em relação estes dois filósofos e as abordagens do pós-modernos e do metarrelato. Contudo, nos atrevemos a dizer brevemente que Habermas entende a pós-modernidade como um esgotamento do modelo da modernidade, como o ocaso de ideias e práticas sociais de tipo linear. Ou seja, não renuncia à modernidade, mas a entende como um projeto inacabado (mas não falido). Por sua vez, Lyotard, como temos buscado expor, argumenta contra a falta de credibilidade destas concepções universalistas. Portanto. Ele sustém que a modernidade não é um projeto inconcluso ou esquecido, senão que, mais propriamente, destruído, liquidado (veja-se em RORTY, Richard. Habermas and Lyotard on postmodernity. In.: Essays on Heidegger and
others. New York: Cambridge University Press, 1991, pp. 164-176).
77 A título de curiosidade e sem pretender exaurir com mais uma definição, é interessante notar que, durante um
debate entre Gianni Vattimo e René Girard, este último equivale, ainda, estas “grandes narrativas” à “ideologia” (Cf. GIRARD, René; VATTIMO, Gianni. Verità o fede debole? dialogo su cristianesimo e relativismo. Massa: Transeuropa, 2006, p. 41). Sintetiza, a nosso ver, numa palavra, aquilo que temos delineado a partir do percurso reflexivo que fizeram os autores ora expostos – Lyotard e Vattimo.
78 “I “grandi racconti”, quelli che non si limitavano a legittimara in senso narrativo una serie di fatti e
comportamenti, mas che nella modernità e sotto la spinta di una filosofia scientista hanno cercato una legittimazione “assoluta” in una struttura metafisica del corso storico, hanno perduto credibilità” (VATTIMO, Gianni. Etica dell´interpretazione. Torino: Rosenberg & Selier, 1989 (Ermeneutica, v. 5), p. 14. Tradução nossa).
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que um certo reconhecimento de que a pós-modernidade todavia continua como um tipo de relato, mas, desta vez, aparece o seu caráter enfraquecido e, por isso, é mais “preferível” em relação ao relato “forte” da modernidade. O relato pós-moderno, para Vattimo, carrega algo de niilista e precisamente aí reside sua legitimação. Se se continua a sustentar a consideração de que a pós-modernidade é um relato, evita-se a queda numa mera e simples defesa de uma pluralidade irredutível de razões locais, o que, por seu turno, poderia derivar num insustentável relativismo.
No entanto, seria necessário imputar a Lyotard uma possível “falta de consciência” de que seu percurso reflexivo crítico às metanarrativas e a não mais aceitação da vigência de sua validez terminou por criar um novo tipo de metarrelato em que o próprio relato do fim dos metarrelatos se transformou, por seu turno, numa outra metanarrativa, refutando a si própria pela mesma tese que antes a certificava79. Uma vez que, para Lyotard, a
dissolução dos metarrelatos é definitiva, não seria esta asseveração também um metarrelato?80
Vattimo observa a lacuna deixada por Lyotard e propõe esta mesma indagação que citamos acima, mas colocada sob outra forma: “O que significa afirmar que os ‘metarrelatos’ foram invalidados senão voltar a propor, por sua vez, um ‘metarrelato’?”81. Sobre esta radicalização
da pretensão de legitimação Vattimo assume que
é verdade, como disse Lyotard, que a pós-modernidade é o fim dos metarrelatos, das grandes interpretações globais (ilustração, idealismo, positivismo, marxismo) da história humana, mas se este “fim” dos metarrelatos não deve aparecer (como parece que acaba por acontecer com o próprio Lyotard) com o descobrimento que uma verdadeira estrutura do ser, que excluiria os metarrelatos, deverá se apresentar, por sua vez, ao contrário, como o resultado de um assunto do qual oferece uma leitura precisa82.
79 Da extração das leituras e cotejamentos feitos entre a compreensão lyotardiana e vattimiana sobre o pós-
moderno, inferimos que Lyotard não alcança as conclusões niilistas a que Vattimo chega e que depois as vincula à sua noção de pós-modernidade. Lyotard parece apenas atingir a decisão de que os relatos de emancipação não nos valem mais, produzindo certa medida de desconfiança geral para com o pensamento racional, positivista. Por isso, para ele, a solução seria, como vimos, uma espécie de “habilitação” dos relatos locais, regionais – os pequenos relatos. Todavia, estes não deixam de ser racionais, embora não mais carregados de aspecto totalizante, e tampouco seguros e confiantes daquele caráter emancipatório. De certo modo e por algum caminho percorrido, seria possível fazer uma leitura de Lyotard na qual se enxergaria também um nível de cumprimento daquele “enfraquecimento” (indebolimento) que Vattimo chegará a postular. No entanto, é preciso divisar que este
indebolimento percebido a partir de certa leitura em Lyotard não carrega – ao menos não nos aparece – a
conotação ontológica expressa no pensamento vattimiano.
80 Cf. RÖMER, Margot. La transestética postmoderna. Caracas: Fundación Banco Mercantil; Universidad
Católica Andrés Bello, 2003, p. 66 (“la disolución de los metarrelatos es definitiva, pero, ¿no es esa aseveración, dice Vattimo, tambíén un metarrelato?”).
81 “Che cosa significa affermare che i “metaracconti” sono stati invalidati, se non proporre a própria volta un
“metarraconto”? (VATTIMO, Gianni. Etica dell´interpretazione, p. 15. Tradução nossa).
82 VATTIMO, Gianni. Nihilismo y emancipación: ética, política, derecho [2003]. Trad. esp. Carmen Revilla,
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Vemos que progressivamente Vattimo nos conduz pelos caminhos que suas reflexões vão abrindo e mostrando que a pós-modernidade, do modo por ele entendido, é interdependente da modernidade e que dela se distancia, ao mesmo tempo, sem deixá-la de lado, sem abandoná-la. Portanto, reforçamos, não há ideia de uma superação, senão que esta relação e aproximação da modernidade é por ele verificada como “recuperação-revisão- convalescência-distorção”83:o que equivale à Verwindung. Nesta altura percebemos dar-se
certo o distanciamento da postura de Vattimo daquela postulação realizada por Lyotard, onde Vattimo explicitamente assume seu próprio caminho e estilo de pensamento com relação a esta matéria.
Os conceitos-guia que aqui nos servem não podem ser nem aquele do fim dos “metarrelatos” de Lyotard – por demais “catastrófico” ao nos apresentar a modernidade como já abandonada toda ela às nossas costas –; nem aquele da comunidade ilimitada da comunicação – que retoma simplesmente o projeto da subjetividade emancipatória moderna. (...). Podem, em vez disso, nos guiar os conceitos heideggerianos – mas já radicados em Nietzsche – de An-denken e de
Verwindung84.
Finalmente, qual seria a saída – se houver alguma – vislumbrada por Vattimo? Ora, para ele, a pós-modernidade deve ser concebida como o momento da história do ser em que se desfazem as estruturas fortes, com isso, o ser vive o seu declinar. De tal forma que, se reconhecermos que também a teorização acerca do pós-moderno apresenta-se como mais um relato, provavelmente não deveríamos simplesmente dizer que não existem mais os metarrelatos da modernidade (não mais o idealismo, não mais o marxismo, não mais o iluminismo), mas devemos e podemos colocar a pergunta sobre como tal fato ocorreu, isto é, como esses metarrelatos chegaram a perder sua autoridade. É o que trataremos de buscar responder e expor nas linhas a seguir.