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Existe nas ciências uma tendência quase “natural” de se privilegiar os documentos escritos como objetos de pesquisa e fonte para consulta e produção de conhecimento. A linguagem escrita, desde a criação e a adoção maciça da imprensa, representa a ferramenta formal para difusão, criação e validação do conhecimento. Grande parte da história tradicional é construída a partir de registros escritos, sugerindo que o saber esteja de alguma forma concluído, completo e estocado.

A adoção da escrita como ferramenta técnica para a difusão de conhecimento, sugere que os leitores tenham acesso a saberes registrados sobre a forma de documentos, fornecendo certa autonomia em relação aos sujeitos que o produziram. A partir dessa leitura de códigos é que o conhecimento pode ser comparado, criticado, discutido e transformado, sendo apenas os especialistas — aqueles que conhecem os códigos da escrita — os sujeitos da ação. O conhecimento perde um pouco de sua universalidade e de sua consequente utilidade no cotidiano das pessoas e comunidades, para se tornar objeto de exames, cujo principal objetivo será o de alterar os registros já existentes em um ciclo constante de interpretações e críticas.

Le Goff (1984) já havia sustentado que a sociedade letrada utiliza-se dos documentos escritos para expressar seus valores e para transmitir às gerações futuras parte de seu saber. O conteúdo dos documentos escritos que se referem ao passado é, sempre, um produto da sociedade; das relações de poder existentes no momento de sua criação e, por esse motivo, referem-se a uma perspectiva do mundo privado, que, por meio da cristalização em documentos escritos, podem se tornar de acesso relativamente público para as gerações posteriores.

O documento é uma coisa que fica, que dura. Resulta do esforço das sociedades históricas para impor ao futuro determinada imagem de si próprias. O uso do documento escrito pela sociedade possibilitou a expropriação privada do conhecimento público. O saber público, o saber comunitário, ao ser codificado na escrita, tornou-se um saber hermético, que passa a constituir uma ciência dominada só por uns poucos iniciados (LE GOFF, 1984, p. 23).

O documento escrito é um objeto de estudo apenas descoberto pela pessoa alfabetizada e, por essa razão, representa um conhecimento individualizado. Desvendar os códigos que compõem a escrita representa um ritual que se opera no âmbito da dimensão privada e, por se constituir como forma de obtenção de conhecimento, possibilita também

64 formas de apropriação, dominação e poder. Os indivíduos aptos a decifrar os códigos da escrita possuem um instrumento para exercer a dominação.

Entende-se que o movimento transdisciplinar propõe uma abertura da ciência para novas questões, dentre elas a social, a ética e a política e, por isso, apresentar o documento escrito como forma monolítica de obtenção de conhecimento é, sem dúvida, uma das críticas estabelecidas pela nova postura de se fazer ciência.

Concorda-se com Hissa (2002), quando critica a academia em sua forma tradicional de atuação, na qual a produção de conhecimento tende a priorizar personagens, tendências e fontes. Essa forma de conduzir a produção do conhecimento acaba por ser disseminada na sociedade civil, pautada por esses valores. Na opinião do autor, tais padrões de comportamento limitam a atuação do conhecimento. A possibilidade de interação com outros métodos, outras abordagens, outros personagens e, por que não, outras formas de se registrar o conhecimento, são indispensáveis como inspiração na construção do saber científico.

Assim, a criação, seja ela de qualquer natureza, é compreendida como uma atitude que, carregada de valores, é “leitura sobre leitura” e tem o mesmo significado de crítica. A ciência também depende da imaginação, necessita de histórias anteriores de criação, de imagens de naturezas diversas que mobilizem o pensamento e a ação. A criação é, enfim, a arte de sempre reinventar (HISSA, 2002, p. 60).

Diante desse cenário e, com a intenção de apresentar alternativas para a construção do saber socioespacial crítico, sustenta-se o argumento de que existem outras formas de registro do conhecimento, que são completamente legítimas como fontes de pesquisa, e como objetos de análise dentro das ciências sociais, dentre as quais se destaca a oralidade em sua manifestação mais conhecida, denominada “História Oral”.

Não se sabe ao certo quando se deu a origem da História Oral como instrumento de perpetuação do saber, mas os relatos orais desde os tempos remotos, representam para a humanidade a forma mais comum de conservação do saber. Muito antes de registrar em códigos seu conhecimento, o indivíduo usa a oralidade como instrumento de relacionamento e comunicação. Relatar, através de depoimentos, os fatos acontecidos no passado é, por definição, o que se conhece por História Oral.

Muitos pesquisadores acreditam que a História Oral seja a técnica mais eficaz para se registrar o conhecimento que ainda não foi cristalizado através de documentação escrita e, evitaria que tais informações deixassem de existir. Seria, portanto uma forma de captar o

65 que não pode ser escrito, um modo de dar voz àqueles que não possuem os códigos de leitura, enfim, uma forma de inclusão de personagens na produção de documentos.

... através dos séculos, o relato oral constituíra sempre a maior fonte humana de conservação e difusão do saber, o que equivale a dizer, fora a maior fonte de dados para as ciências em geral. Em todas as épocas, a educação humana (ao mesmo tempo formação de hábitos e transmissão de conhecimentos, ambos muito interligados) se baseara na narrativa, que encerra uma primeira transposição: a da experiência indizível que se procura traduzir em vocábulos (QUEIROZ, 1988, p. 16).

As ciências tradicionais, ligadas diretamente às ideias positivistas de racionalidade e objetividade, foram sempre reticentes em relação ao emprego da História Oral como instrumento de pesquisa, porque a principal tarefa do pesquisador seria descobrir as leis sociais que dirigem uma sociedade. Os relatos orais eram vistos apenas como motivadores para as hipóteses iniciais, sem, contudo, obterem legitimidade para testá-las. Essa restrição, segundo Pereira (1994), viria de uma carga dupla de subjetividade, que incidiria sobre esse tipo de informação. A inviabilidade de se utilizar relatos orais para os positivistas se explicaria no fato de que, tanto o pesquisador, quanto o informante, forneceriam grande carga de percepções pessoais ao conteúdo dos depoimentos orais, distorcendo a realidade a ser analisada.

A preocupação em relação à participação subjetiva do pesquisador e do informante nos relatos orais é, certamente, legítima, e precisa de total atenção, entretanto, todo material utilizado dentro de uma pesquisa científica tem como filtro o pesquisador, e nem por isso, é descartado. Acredita-se, portanto, que a utilização ou não de relatos orais não pode ser inviabilizada apenas por argumentos que trabalhem na perspectiva de uma abordagem subjetiva. Além disso, a subjetividade por detrás dos depoimentos orais, principalmente por parte do informante, é também subsídio a ser utilizado na pesquisa, uma vez que reflete uma forma específica de comportamento adotado pelo sujeito, e pode traduzir alguma intenção subliminar, que deve ser investigada.

Nas entrevistas obtidas em forma de História Oral é possível registrar situações e modos de vida, não só de um ponto de vista individual, mas de um grupo ou de uma sociedade em geral, na qual o indivíduo esteja imerso. Essa técnica de obtenção de dados permite que o pesquisador se aproxime da realidade e do cotidiano de seu entrevistado, como atitude indispensável para se desvendar um emaranhado de desdobramentos possíveis da vida social, facilitando a compreensão do passado e revisitando experiências vividas por outros.

66 Mesmo creditando à História Oral o status de elemento legítimo a ser investigado, o documento obtido dessa forma não deve ser confundido com a verdade definitiva sobre determinado assunto. O que interessa em um depoimento oral não é a narrativa verídica e precisa dos fatos, ou mesmo uma descrição detalhada de acontecimentos e personagens, mas, sim, as relações que o indivíduo entrevistado tece com o seu entorno, seja nos aspectos sociais, temporais ou espaciais.

Acredita-se que os relatos orais possam elucidar vários elementos disponíveis na realidade social e que, por isso, despertem o interesse das ciências sociais críticas. Ao considerar-se os objetivos específicos dessa pesquisa, os relatos orais podem trazer à luz aspectos muitas vezes ignorados nos depoimentos, e que se referem às noções de espaço e de temporalidade disponível nos testemunhos.

Releva-se o seguinte raciocínio:

O predomínio de uma visão fisicalista do espaço permeou a tal ponto a análise da espacialidade humana que tende a distorcer nosso vocabulário. Assim, enquanto adjetivos como “social”, “político”, “econômico” e até “histórico” costumam sugerir, salvo especificação em contrário, um vínculo com a ação e a motivação humanas, o termo “espacial” evoca, tipicamente, uma imagem física ou geométrica, algo externo ao contexto social e à ação social, uma parte do “meio ambiente”, parte do cenário da sociedade — seu continente ingenuamente dado —, não uma estrutura formadora criada pela sociedade (SOJA, 1993, p. 101).

Ao analisar o argumento de Soja, percebe-se que muitas vezes a noção do espaço, para o senso comum, não ultrapassa os aspectos físicos, que são apenas um dos diversos componentes de uma investigação do espaço social. Além disso, a percepção histórica contida nos relatos orais tende a privilegiar uma abordagem cronológica, na qual a maior preocupação dos pesquisadores e informantes é apenas localizar tal acontecimento em uma “linha do tempo”, sobre uma perspectiva temporal evolutiva, quase sempre negligenciando as diversas temporalidades existentes simultaneamente dentro do momento narrado.

Harvey (2001) reforça a afirmação de Soja ao assumir que as dimensões tempo e espaço são aspectos indissociáveis e definem a maneira como podemos nos relacionar com o mundo que nos cerca

Sob a superfície de idéias do senso comum e aparentemente “naturais” acerca do tempo e do espaço, ocultam-se territórios de ambigüidade, de contradição e de luta. Os conflitos surgem não apenas de apreciações subjetivas admitidamente diversas, mas porque diferentes qualidades materiais objetivas do tempo e do espaço são consideradas relevantes para a vida social em diferentes situações. Importantes batalhas também ocorrem nos domínios da teoria, bem como da prática, científica, social e estética. O modo como representamos o espaço e o

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tempo na teoria importa, visto afetar a maneira como nós e os outros interpretamos e depois agimos com relação ao mundo (HARVEY, 2001, p. 190).

Assim, baseado nos conhecimentos até aqui desenvolvidos, e acreditando que a inovação é condição indispensável para a produção do conhecimento na análise dos relatos orais, valer-se-á de uma nova perspectiva de abordagem que se ousou chamar de “Geografia Oral”.

Partindo do princípio de que os relatos orais representam uma técnica mais democrática para a obtenção de informações relevantes sobre um dado objeto, e, entendendo que tais relatos podem trazer dados importantes sobre uma perspectiva geoistórica da pesquisa, serão avaliados os depoimentos recolhidos em campo, considerando esses novos olhares.

Os registros orais serão analisados de modo a se perceber posturas e características em relação ao espaço geográfico que possam colaborar para a definição de uma análise socioespacial individual, mas que culminem em uma definição coletiva desta variável. Espera-se que a produção e análise dos dados obtidos através das técnicas orais permitam incluir informações sobre os aspectos geoistóricos vividos individualmente pelos entrevistados. A partir das informações obtidas com esse artifício serão apresentadas as que podem ser validadas e as que foram descartadas, considerando o cruzamento desse material com outros documentos que fizeram parte do acervo coletado em campo, e nos textos utilizados em laboratório.

Trata-se de um exercício prático de tratamento das informações de campo, essencial para a definição de uma nova abordagem na metodologia de pesquisa, além de possibilitar inferências sobre a geoistória da Região do Gado do rio São Francisco, que é o cenário principal desta pesquisa.

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PARTE 2

GEOISTÓRIA DO SÃO FRANCISCO: EXERCÍCIO