4.5 Discussion
5.5.1 Limitations
Outro aspecto interessante do curso de Ciências é o turno em que ele era oferecido: sempre noturno, antes e depois das habilitações. A FUNREI sempre prezou por oferecer todos os seus cursos à noite e fez disso uma de suas marcas, ressaltando que, dessa forma, o trabalhador teria a oportunidade de se qualificar. Mesmo com a criação, a partir de 1989, de alguns bacharelados que funcionavam em tempo integral, todos os cursos eram ofertados no turno noturno, sobretudo as licenciaturas – e essa característica se mantém ainda hoje.
O fato de os cursos de licenciatura da FUNREI serem noturnos rendeu bons frutos ao curso de Ciências, advindos de um programa do Governo Federal, criado na gestão do presidente Itamar Franco e sob a responsabilidade do Ministério da Educação e do Desporto (MEC), coordenado pelo ministro Murílio Hingel. O Programa de Graduação, ou PROGRAD, foi criado em 1994 pela Comissão de Graduação do MEC e tinha por finalidade auxiliar projetos e ações que visassem à melhoria da qualidade do ensino de graduação nas universidades públicas do país (BRASIL, 1994), proporcionando a possibilidade de se criar condições para o aprimoramento do curso por meio de recursos financeiros.
Quando foi proposto, o PROGRAD intencionava atingir todos os cursos de graduação das universidades públicas do país. Contudo, foi constatado que três áreas principais requeriam maior atenção, pelas suas necessidades mais prementes: os cursos em implementação, os cursos de licenciatura e os cursos noturnos. O curso de Ciências era um curso de licenciatura, noturno e, dependendo da interpretação, poderia ser considerado também um curso em implementação, já que estava instalado em uma fundação recém-criada e que carecia de volumosos investimentos para ampliar sua abrangência e ganhar contornos de instituição pública federal de ensino.
O resultado disso foi que, sempre que era feita a chamada para o cadastramento dos cursos no PROGRAD, o curso de Ciências se colocava como prioritário e, consequentemente, recebia uma das maiores parcelas de recursos advindos do programa, especialmente por
oferecer cursos no turno da noite e ser uma licenciatura da área científica. Além disso, em dois anos seguidos, a Licenciatura atingiu o primeiro lugar das prioridades, na região sudeste, entre os cursos semelhantes.
Em sua maioria, os recursos foram aplicados na construção e consolidação de laboratórios de ensino em Física e em Química, ciências que necessitam de tais espaços bem equipados. Em se tratando de alcance, efetividade e resultados obtidos, os laboratórios implantados e consolidados do curso de Ciências atendiam à necessidade dos alunos e da licenciatura. À época, o curso de Ciências sequer dispunha de laboratórios para as aulas. As verbas oriundas do PROGRAD possibilitaram a construção dessas instalações, tão necessárias à melhoria das habilitações em Física e Química. O professor José Mauro da Silva Santos relatou-nos que ministrou a aula inaugural do laboratório de Química, marcando o início das atividades laboratoriais da Licenciatura Curta em Ciências. Entretanto, nada foi mencionado por nenhum dos nossos entrevistados, ou encontramos quaisquer vestígios sobre a criação de um laboratório de ensino de Matemática, uma vez que a prioridade era construir laboratórios para as ciências experimentais.
Outra iniciativa proposta pelo PROGRAD foi a ampliação do acervo bibliográfico dos cursos. Mas a esperada ampliação não chegou com o programa. A antiga FDB, majoritariamente, abrigou cursos voltados às Ciências Humanas – Letras, Filosofia, Pedagogia e Psicologia (este último de grande relevância, portanto já consolidado, como nos contaram os professores Raposo e José Mauro, o que dá a entender que havia livros desta área em maior quantidade). Ademais, tratava-se de uma instituição ligada aos salesianos. Consequentemente, sua biblioteca era direcionada às áreas de Ciências Humanas, Ciências Sociais51 e Religião. Por
sua vez, a Licenciatura em Ciências era o único curso de outra área da FDB, e dispunha de um conjunto mínimo de obras para poder funcionar.
Esse quadro veio a melhorar com transformação da FDB em FUNREI, a partir de 1987, quando a instituição passou a ter maiores recursos, provenientes de vários programas para adquirir obras em maior quantidade e variedade. A cada programa de ampliação de acervo bibliográfico, as coordenações preparavam uma lista de obras, que eram adquiridas na medida do possível. Em 1998, especialmente, a biblioteca da FUNREI foi ampliada, impulsionada por um dos programas do MEC com essa finalidade. Nesse momento, vale destacar a aquisição de obras nas áreas científicas, em português e em inglês, já se pensando em organizar um acervo voltado também para a pós-graduação. Tanto a escassez do começo quanto a quantidade
razoável de obras que foram progressivamente adquiridas, na época do curso de Ciências, também para a área de Matemática, são mencionadas no excerto da entrevista do professor Toledo: Os poucos livros que havia na biblioteca do campus Dom Bosco, onde funcionava o curso de Ciências, atendiam às necessidades do curso na área de Matemática enquanto as disciplinas eram elementares. Aos poucos foram chegando novas bibliografias, foram sendo comprados novos livros para a biblioteca.
A biblioteca atendia à demanda de alunos e professores com textos célebres e que eram utilizados em universidades de grande expressão no Brasil. Não obstante, ao que tudo indica, não se recorria muito aos títulos da área educacional. A incipiência dos estudos voltados à Educação em Ciências e Matemática, naquele momento, pode ter repercutido nas referências feitas por nossos entrevistados aos autores que fundamentavam as ações pedagógicas do curso. No que diz respeito à formação de professores de Matemática, nossos colaboradores mencionam, em geral, autores cujas obras focalizam os conteúdos matemáticos, e não a Educação Matemática. O professor Toledo cita o nome de Gelson Iezzi e sua coleção “Fundamentos de Matemática Elementar”52; já o professor Claret faz referência ao livro de
Bezerra53; Fernando Coelho menciona alguns outros autores, como Guidorizzi e Paulo Boulos,
estes últimos utilizados nos últimos anos de funcionamento do curso.
Sabendo da dificuldade em adquirir livros especializados de cada área, principalmente devido ao custo, podemos dizer que, de um modo geral, houve sempre uma grande mobilização pela melhoria constante do acervo bibliográfico do curso de Ciências. Se, por um lado, a quantidade de textos disponíveis não contemplava todos os alunos, houve sempre um esforço por diversificar as opções e expandir os assuntos, ainda que sempre, nas avaliações do curso por parte do MEC, a ampliação do acervo bibliográfico fosse citada como ponto a ser melhorado.
Além de beneficiar-se com programas que visavam à melhoria do ensino superior, a FUNREI iniciava os passos para consolidar projetos em parceria com outras instituições. O mais famoso, talvez, seja o convênio formado entre a instituição mineira e a Universidade de Ciências Aplicadas de Munique, na Alemanha. Os estudantes iam a essa universidade para realizar atividades de ordem técnica e voltavam para terminar a graduação, e geralmente conseguiam boas inserções no mercado de trabalho – prova do sucesso do programa é que existe, ainda hoje, nos mesmos moldes, um programa de cooperação da UFSJ com
52 Referência geral para a coleção: “IEZZI, Gelson. Fundamentos de matemática elementar. São Paulo: Atual,
1979”. A coleção possui onze volumes na atual versão de 2013.
universidades alemãs. No curso de Ciências, essa cooperação se deu, em um primeiro momento, com o Programa Integrado de Ensino de Ciências e Matemática (PIECIM)54 da Universidade
Federal de Viçosa, entre 1988 e 1990.
O PIECIM tinha como objetivo melhorar o ensino de Ciências e Matemática em todos os níveis de ensino. Considerado um programa de grande abrangência na região, firmou convênio com a Licenciatura Curta em Ciências da FUNREI por meio de diversas atividades a distância (boletim, divulgação de técnicas) e presenciais (intervenções, curso de férias, seminários, palestras e experimentos). Infelizmente, o programa não durou muito tempo no curso da instituição. Segundo o professor Marco Túlio Raposo, o período em que isso ocorreu foi de 1988 a 1990.
Desde seu momento de criação até 2001, pelo que pudemos perceber na análise dos depoimentos coletados, a FUNREI não conseguiu manter muitas relações efetivas com outras instituições a título de colaboração mútua. Das que havia, certamente as mais relevantes se deram na complementação da formação dos docentes que trabalhavam nas três instituições anteriores ou na contratação de pessoal novo para compor o quadro de professores, numa relação que beneficiou sobremaneira a FUNREI. O professor José Mauro, por exemplo, conta o seguinte: Orientei alunos como mestre, trabalhando em parceria com a UFMG, com o grupo com que eu trabalhei no mestrado. Continuamos mantendo contato e nós fizemos um projeto de parceria, enquanto os nossos laboratórios ainda eram humildes. Eu ficava dois, três dias no laboratório colhendo dados e voltava para São João. Coloquei muito aluno de iniciação científica nisso. Quando eu ia para Belo Horizonte, eles iam comigo a tiracolo. Marco Túlio55
fez isso com Física também. Lembro dele trabalhando desse jeito.