O desafio de antecipar-se às mudanças exige uma certa sensibilidade à captação de informações relevantes acerca das forças propulsoras que rodeiam o ambiente de negócio das organizações. Nesse sentido, Gomes e Braga (2004) alertam que possuir uma grande quantidade
de informações ou de dados não é mais suficiente, sendo imprescindível selecionar e analisar essa profusão de informações, transformando-a em inteligência, de modo a favorecer respostas as organizações na adaptação ao ambiente no qual estão inseridas. É nesse contexto que a inteligência competitiva está pautada, uma vez que apresenta o propósito de desafiar as organizações a utilizarem informação de forma a alavancar a inteligência empresarial, contribuindo para uma tomada de decisão eficaz.
De acordo com Canongia e Milani (2000), a Inteligência Competitiva (IC) é um instrumento utilizado para melhorar a competitividade através do fornecimento de “informações analisadas” para tomada de decisão, com base em um programa sistemático de coleta e análise de informação sobre as atividades e as tendências gerais dos negócios. Para Miller (2002), inteligência competitiva é um conjunto de ações cujo foco é na concentração das perspectivas atuais e potenciais, quanto a pontos fortes, fracos, e nas atividades de organizações que tenham produtos e serviços similares dentro de uma economia.
Dessa forma, a inteligência competitiva surge como uma ferramenta que visa direcionar as organizações frente ao ambiente de negócios, buscando agregar valor as informações como forma de minimizar as incertezas inerentes ao processo de tomada de decisão. Nesse sentido, Alvim (2000) elenca alguns dos aspectos inerentes a um processo de inteligência competitiva:
• Antecipar as mudanças de mercado;
• Identificar atitudes atuais e futuras da concorrência; • Descobrir novos e potenciais concorrentes;
• Aprender com o sucesso e o fracasso dos outros; • Aumentar a extensão e a qualidade dos negócios;
• Aprender sobre novas tecnologias, de produtos, processos e gestão, que afetam seu negócio;
• Aprender sobre mudanças políticas, legislativas e regulatórias que podem afetar seu negócio;
• Obter uma resposta mais rápida e efetiva aos movimentos identificados.
Além da contemplação desses aspectos, um processo de inteligência competitiva para ser bem sucedido deve ser elaborado através de passos que direcionem a organização para adoção de atividades em torno de objetivos compartilhados. Gomes e Braga (2004) propõem a adoção de alguns passos a serem seguidos antes da implantação do início de um processo de inteligência
competitiva: (1) definição clara da missão, (2) elaboração de um inventário com informações relativas às pessoas e a organização, (3) realização de um marketing interno e (4) providência de incentivos para seus colaboradores. Para esses autores, a IC assume papel estratégico importante no processo de obtenção de um conhecimento contínuo a respeito da natureza, política, economia, tecnologia entre outras variáveis que compõem o ambiente de negócios.
Na visão de Costa (2000, p. 3), “a gestão do conhecimento e o sistema de inteligência competitiva, associados a tecnologia da informação – TI, são elementos essenciais à gestão estratégica das organizações.” Ambos os conceitos reconhecem a validade dos ativos intangíveis como principal fonte agregadora de competitividade às organizações, prescrevendo aspectos específicos com o objetivo de facilitar a orientação e aprendizagem daqueles que as utilizam. Stollenwerk (2000) apresenta de forma esquemática a correspondência entre gestão do conhecimento e a inteligência competitiva, referenciadas conforme a cadeia de valor da informação existente nas organizações (figura 4).
Figura 4: Correspondência entre Gestão do Conhecimento e Inteligência Competitiva Fonte: Stollenwerk (2000)
Embora haja pontos de convergência entre esses dois conceitos, alguns autores preocupam- se em esclarecer quais seriam os limites que os separam, apontando as suas principais diferenças. Segundo Canongia et al. (2004), enquanto a gestão do conhecimento promove a codificação e a circulação do conhecimento internamente, a inteligência competitiva preocupa-se em fornece
Dados Informação Conhecimento Gestão do Conhecimento Inteligência Empresarial Excelência Empresarial Vantagens Competitivas Sustentáveis Objetivos Estratégicos Alcançados Vantagens Competitivas Sustentáveis Dados Inteligência Empresarial Informações sobre o Ambiente Externo Planejamento Estratégico e Processos Chave de Decisão Processos de Inovação Processos de Produção/Opera- ção e Processos de Gestão
meios para a aquisição de conhecimento sobre o ambiente externo. Para Gomes e Braga (2004) a diferença entre GC e IC está no fato de a segunda constituir-se em uma metodologia que faz parte da primeira.
A ABRAIC (2009) estabelece a diferença ao afirmar que a GC está relacionada com a gerenciamento do conhecimento acumulado dos funcionários visando tranformá-los em ativos da empresa através da criação de condições para que o conhecimento seja criado, socializado, externalizado dentro da empresa, transformando-o de tácito em explícito; a IC, por sua vez, está mais voltada para a produção do conhecimento referente ao ambiente externo da empresa. Carvalho (2000) relaciona IC e GC a utilização de seus sistemas, afirmando que os SIC e os SGC muitas vezes funcionam como compartilhadores de informação, conhecimento e inteligência; estando o primeiro fortemente voltado à tomada de decisão, e o segundo em gerenciar, processar e gerar conhecimento interno à organização. Para o autor, a existência de um SGC além de facilitar o fluxo e a criação de conhecimento permite que a inteligência consiga ser gerada mais facilmente; o SIC, por outro lado, é facilitado pela existência de um SGC.
Stollenwerk (2000, p.14) afirma que “projetos bem sucedidos de sistemas de IC têm adotado os princípios e modelos de gestão do conhecimento, pela necessidade de integrar processos paralelos e distintos para captação e análise de dados e informações sobre o ambiente externo.” De acordo com Silva (2007), os temas andam juntos e têm como função melhorar a maneira de analisar, classificar, organizar e apresentar eficientemente o conhecimento para que seus destinatários tenham condições de tomar decisões que venham a resultar em benefício organizacional.
A partir dessas considerações, afirma-se que a gestão do conhecimento e a inteligência competitiva estão intrinsecamente relacionadas, apresentando abordagens complementares. Se por um lado a IC preocupa-se em adquirir informações a respeito do comportamento dos concorrentes para alavancar a tomada de decisão, a GC busca incentivar um comportamento organizacional propício a criação e difusão de conhecimentos imprescindíveis as necessidades organizacionais. Ambos os temas convergem para criação, facilitação e utilização de informações e conhecimentos como forma de inter-relacionar as diversas esferas organizacionais em torno a alavancagem de vantagens competitivas.