A família nuclear é vista nos relatos como a principal prejudicada pela prisão de seu componente, sendo narradas as dificuldades de várias naturezas que a ela foram impostas pela perseguição e prisão.
A família ficou marcada por esta prisão, pois na cidade (...) todos passaram a discriminar seus familiares, devido a vida militante da requerente, como se lutar por seus direitos fosse uma doença incurável...152
Quando a história é exposta pelos filhos, comumente há referências ao estigma sofrido por eles, à discriminação de colegas e conhecidos, ao processo de
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Processo nº 04269924-0 da Comissão Especial de Anistia- Wanda Sidou/ Ceará. O trecho foi escrito por seu advogado.
isolamento social a que foram submetidos, à falta de uma vida normal e à desestruturação do tecido familiar153.
Durante parte da minha adolescência, tive que conviver com o estigma de que meu pai (...) era um “subversivo”, uma pessoa “nociva à sociedade e à ordem pública...Para um jovem, ser filho de um subversivo era sofrer na própria pele a discriminação odiosa. Por vezes, era obrigado a abrir mão do lazer, na companhia de colegas para evitar preconceitos dessa natureza...154
Há também muita menção à perda do padrão de vida e às dificuldades financeiras que passaram a ter.
Minha mãe teve que procurar meios artesanais para sobreviver, como fazer bordados, bolos e pratos de culinária para vender porta a porta aos vizinhos e rua afora...155
No caso de relatos escritos pelos próprios atingidos, há ainda a afirmação de que as maiores restrições atingiram os familiares e uma espécie de mea culpa por isso: “Durante todo esse período de percalços, o maior ônus tem recaído sobre os meus familiares, a quem eu deveria dar sustento e assistência”.156
Quando os textos são escritos pelos ex-presos ou pelas esposas, o estigma vivido pela família e alguns outros tópicos são reforçados: o terror que se instalou na família pela prisão, o medo de que novas detenções ocorressem, a instabilidade permanente gerada.
O medo, o terror, a exposição, a vergonha pública, a taxação de elemento perigoso constrangia toda a família, inclusive a parentes
próximos e amigos que se afastavam do convívio do requerente e dos demais familiares por ser perigoso agitador comunista, traidor da pátria. Seus filhos foram perseguidos, vigiados e impedidos de viver normalmente, pois eram filhos de subversivos e passaram a ser
excluídos do convívio dos amigos. Devido aos fatos e perseguição psicológica, praticamente todos os filhos tiveram que sair de
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Isso pode ser visto também fora do Brasil. Analisando depoimentos sobre ex-presos e desaparecidos políticos no Chile e Argentina, pode-se notar uma recorrência em mostrar como a familiar se desestruturou em vista da perseguição e morte.
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Processo nº 04024385-0 da Comissão Especial de Anistia- Wanda Sidou/ Ceará. Embora o requerente seja a viúva, o escolhido para escrever o relato foi o filho.
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Processo nº 04024482-2 da Comissão Especial de Anistia- Wanda Sidou/ Ceará. Nesse caso também ocorreu que, embora a requerente seja a viúva, o escolhido para escrever o relato foi o filho.
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Fortaleza para outros estados, onde não fossem reconhecidos como filhos de comunista, subversivo e agitador157.
A prisão é considerada uma mancha, uma marca negativa na imagem da família digna e honrada que se tinha até então. Assim, em muitos casos, se retrata a imagem da família pós-fato, a discriminação sofrida por pais, esposas e filhos que passaram a sentir na pele o estigma de ser pai, esposa ou filho de “subversivo” e que não necessariamente acabou com a saída da prisão158.
Há nos relatos uma idéia de perpetuidade do sofrimento. Nesse sentido é comum fazer essa conexão entre a vida partida pela prisão e o ônus decorrente.
A vida financeira abalada (muitas vezes para sempre), as privações vividas, a falta de convívio com os filhos, doenças decorrentes da prisão e desse processo buscam dar mostras de que o evento não se produziu isoladamente e que, ao contrário, se eternizou, dilacerando famílias.
Recebi a triste notícia da morte do meu querido pai, cuja saúde se debilitara em razão de tudo o que se passava comigo, sequer pude dar-lhe o último adeus por não querer arriscar...159
Alguns dos narradores fazem questão de mostrar que esse processo ocorre ainda hoje e reafirmam o sofrimento dos familiares.
Quantas infelicidades viveram os familiares dos que foram martirizados nos cárceres e qual tamanha repercussão política, moral, social e psicológica para a vida dos torturados, impedidos de viver e amar submetidos a espancamentos físicos e morais, a prisões e a constrangimentos sob todas as formas de humilhações humanas160.
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Processo nº 04166039-0 da Comissão Especial de Anistia- Wanda Sidou/ Ceará. O autor, de 96 anos é o anistiado mais idoso do Ceará. Não cita a organização do qual fazia parte, mas conta que foi preso após a Intentona Comunista, sendo vizinho de cela de Olga Benário, me leva a presumir que fazia parte do PCB. Foi preso em mais duas ocasiões: em 1964 e em 1970. Foi torturado na frente do filho de 16 anos, “que carrega este trauma até os dias de hoje”.
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De acordo com Goffman (1988), a sociedade estabelece os meios de categorizar as pessoas e o total de atributos considerados como comuns e naturais para seus membros. Baseando-se nisso, se estabelecem expectativas normativas, e exigências rigorosas. Aqueles que fogem desses atributos comuns passam a ser estigmatizados pelo grupo social.
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Processo nº 04024464-4 da Comissão Especial de Anistia- Wanda Sidou/ Ceará. O autor tem 65 anos e foi militante do movimento estudantil, tendo sido preso em 1964.
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Processo nº 04269774-3 da Comissão Especial de Anistia- Wanda Sidou/ Ceará. Relato feito pela advogada.
Percebe-se que, embora centrando olhares sobre o sofrimento das famílias, há um espaço nas narrativas que dão conta de reforçar a imagem do ex-preso político, criando uma vinculação muito grande entre a honra e a memória.