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No conto, já mencionado, da obra Ficções, “Tlön, Uqbar, Orbis Tertius”, o personagem Bioy Casares lembra “que um dos heresiarcas de Uqbar declara que os espelhos e a cópula são abomináveis, porque multiplicam o número de homens” (BORGES, 1999, p. 32). No mesmo conto, outra passagem diz sobre os espelhos quando o narrador lembra de um amigo de seu pai, Herbert Ashe: “Alguma lembrança limitada e diluída de Herbert Ashe, engenheiro das ferrovias sul, persiste no hotel de Adrogué, entre as efusivas madressilvas e no fundo ilusório dos espelhos. (BORGES, p. 35)”

O espelho costuma aparecer de muitas maneiras na obra do argentino: algumas vezes como ideia, outras como metáfora, como portal, ou ainda, como superfície especular. Na obra O fazedor (1999), uma pequena narrativa intitulada “Os espelhos velados” fala diretamente sobre essas superfícies especulares. No texto, o narrador conta como conheceu o processo de duplicação promovida pelos espelhos.

Quando menino, conheci esse horror a uma duplicação ou multiplicação espectral da realidade, mas diante dos grandes espelhos. Seu infalível e contínuo funcionamento, sua perseguição de meus atos, sua pantomima cósmica eram então sobrenaturais, desde que anoitecia. Um de meus instantes rogos a Deus e a meu anjo da guarda era o de não sonhar com espelhos. Sei que os vigiava com inquietude. Algumas vezes temi que começassem a divergir da realidade; outras, ver neles meu rosto desfigurado por adversidades estranhas. Soube que esse temor está, outra vez, prodigiosamente no mundo. (BORGES. 1999, p. 182)

Logo depois, o narrador conta que conheceu uma jovem a quem lhe falou sobre os espelhos. A história termina com o relato de que a garota enlouquecera, e que em seu quarto os espelhos precisam estar velados, pois neles ela vê o reflexo do narrador roubando-lhe o seu, como uma perseguição mágica.

Nos exemplos ficcionais citados, poderíamos pensar que a atuação especular é um tanto assombrosa a ele, como acontece no trecho de “Os espelhos velados”. Ainda, pode-se dizer que o espelho atua no referido texto e em alguns outros de maneira importante para a construção ficcional.

No texto “Vinte e cinco de agosto de 1983” (BORGES, 1999b), Borges encontra consigo mesmo vinte e três anos depois. Um narrador-personagem chamado Borges encontra consigo vinte e três anos mais velho. Na conversa que se desenrola entre os dois personagens de Borges, é a ideia do duplo que aparece com bastante força, a ideia da duplicação de realidades ou de pessoas, além da discussão sobre a sua própria obra. E essa ideia acompanha uma chave importante para o entendimento desse artifício em sua ficção: ele reafirma que o duplo é um tema dado pelos espelhos. É por isso que esses dois temas, duplo e espelho, estão ligados mesmo quando tal ligação não é aparente.

Os espelhos duplicam, reproduzem, refletem ou revelam alguma imagem ou a luz que a ilumina.17 Essas características são amplamente exploradas por Borges em seus contos. Muitas vezes, seus personagens são duplicados, as ações vividas por eles, por vezes, são como que a repetição de outra ação já realizada. Em outros momentos, parece que toda a história está diante de espelhos. N’O livro de areia (BORGES, 2012), o personagem Borges se duplica novamente no conto “O outro”, ele se encontra consigo mesmo, agora mais novo.

O espelho é também um portal para Borges, pois nos dois textos em que ele encontra ele mesmo, “O outro” e “Vinte e cinco de agosto de 1983”, os personagens estão em locais diferentes e em tempos diferentes. É como se eles olhassem no espelho e atravessassem a

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outra época para observar o outro Borges que já foram, ou o Borges que serão, duplicando-se a si próprios. E nos dois exemplos, um dos motivos para que o Borges mais velho não se lembrasse do encontro está no fato de que tal acontecimento é tão perturbador que ele pode ter feito grande esforço para esquecê-lo.

Os espelhos e a duplicação causada por eles são, na ficção borgeana, um artifício utilizado para ampliar os planos narrativos, uma vez que os dois personagens são os mesmos e também são diferentes, um possui atributos que o outro ainda não conhece. A conjectura sobre quem é a imagem e quem é o homem – “o homem que se crê uma imagem, o reflexo que se crê verdadeiro” (BORGES, 1999b, p. 10) – é a prova dessa amplitude, pois um único personagem, que ao mesmo tempo é dois, questiona a presença dos muitos Borges que se encontram naquela conversa.

O espelho é um artefato que, de alguma maneira, constrói imagens. Esse objeto artificial transporta seus efeitos à ficção do autor de Outras inquisições, promovendo uma criação de elementos não-naturais que questionam a naturalidade daquilo que se quer como origem.

1.2.5. Entrelaçamento de gêneros

O conto “Exame da obra de Herbert Quain”, do volume Ficções, é um texto que faz exatamente o que é proposto no título, examina a obra do suposto autor que tem seu nome também no título.

O texto começa analisando os comentários feitos na ocasião da morte de Quain. O narrador se mostra insatisfeito com as pequenas menções que são destinadas ao falecido autor, além de não concordar com as comparações equivocadas de suas obras com as de Agatha Christie e Gertrude Stein. A partir de então, o narrador do texto começa a analisar os livros de Quain, The God of the Labyrinth, Statements, April March e a peça The Secret Mirror.

Além disso, o narrador do texto, ao final, assume que retirou ingenuamente, da citada obra Statements, um conto chamado “Ruínas circulares” e o colocou no livro O jardim de veredas que se bifurcam. O fato curioso é que o livro com este nome, de autoria de Jorge Luis Borges, é um dos livros que divide o volume Ficções, ou seja, o próprio livro onde se localiza “O exame da obra de Herbert Quain”.

O conto assume o tom de ensaio, de uma análise literária, pois, durante todo o texto, o que o narrador faz é examinar a obra de Quain. E o narrador da história ao que tudo indica é