O velho italiano Onofre, do romance Os Subterrâneos da Liberdade, antes de detonar os explosivos que o mataria, destruindo consigo o maquinário gráfico do PCB paulistano, gritou: “E viva il comunismo e la libertà!”295. A polícia havia descoberto o aparelho onde estava a gráfica clandestina do partido e, segundo Amado, para evitar que a própria polícia tirasse proveito “utilizando-a para imprimir material falso, para espalhá-lo nos meios operários, criando confusão”296, o comunista Orestes preferiu a morte e a destruição da gráfica.
O velho Onofre era amigo de Azeredo, pai de Mariana, ambos fundadores do Partido Comunista no estado de São Paulo e oriundos do movimento anarquista. Os amigos eram militantes devotados à causa comunista, e enxergavam em Mariana, o “próprio desenvolvimento de sua classe, o amadurecimento político, a sua marcha para diante”297.
O anarquismo, nos romances de Amado, é posto como movimento político superado. Os personagens amadianos que eram anarquistas, sempre são apresentados como imigrantes e pessoas idosas, que abandonaram o anarquismo em favor do Partido Comunista. A imagem que temos desses personagens, são de sujeitos convencidos de que a militância sustentada na espontaneidade e no individualismo não agregava forças/poderes ao proletariado e, por assim, aderiram à agremiação do proletário com seu caráter disciplinador e coletivo. O ex-militante anarquista amadiano é sempre posto como um comunista devotado à causa e bastante responsável com suas atividades; é colocado com bom exemplo.
Amado, ao contrário dos comunistas da década de 1920, não coloca os anarquistas como inimigos da classe, pois estes não existem mais ou não atuam no cenário político298. Parece que estes, de forma homogênea, aderiram ao Partido Comunista. A imagem do grande inimigo da classe no início do século XX e as várias divergências existentes são suprimidas, busca-se a construção do esquecimento, ocultando, assim, o significado do pensamento anarquista no início do movimento operário no Brasil. Parece que para os comunistas, através da Literatura amadiana, o verdadeiro movimento operário no Brasil só surge após a fundação do Partido Comunista.
295 AMADO, Jorge. Os Subterrâneos da Liberdade: Os ásperos tempos. Rio de Janeiro: Record, 1978, p. 364. 296 Idem, p. 360.
297 Idem, p. 262.
298 Curiosamente a única referência de alguém “anarquista” na década de 1930 é Plínio Salgado que, “em 1931
está mascarado de anarquista, fala em Prestes” (O Cavaleiro da Esperança, 1987, p. 251), posteriormente, um adesista do fascismo, que fundou a AIB.
Mas, a possível adesão em bloco dos antigos inimigos, não significa a extinção dos inimigos de classe. A partir do final da década de 1920, emerge no Brasil o
trotskismo. Os reflexos das disputas e, posteriormente, das depurações internas ocorridas na URSS têm conseqüências tardias no movimento comunista brasileiro. A princípio, trotskista seria um adjetivo usado constantemente para os elementos expulsos através do processo de bolchevização/obreirismo ocorrido no PCB. A maioria dos execrados era considerada da ala dos “intelectuais”, aqueles que não aderiram por completo à moral operária, indivíduos denominados como “pequeno-burgueses”.
Nos romances de Amado, os trotskistas não atuam em organizações ou partidos próprios; eles estão dentro do próprio PCB, tentando destruí-lo, ou, atuando pelas margens, atacando o Partido do proletariado. Os trotskistas amadianos não dirigem sindicatos e muito menos são trabalhadores de fábrica, eles são profissionais liberais de origem pequeno burguesa.
Como exemplo de trotskista, Amado nos apresenta, em Os Subterrâneos da
Liberdade, o personagem Saqüila, um jornalista que compunha a direção do Partido Comunista em São Paulo e foi expulso devido à sua traição por apoiar o grupo de Armando Sales numa tentativa de golpe de estado após a instauração do Estado Novo. Em uma reunião do Partido, o dirigente operário, Ruivo, expõe a seguinte lição de moral ao jornalista que desejava apoiar o governador paulista.
- Há muito tempo que não ouço tanto absurdo junto: o justo é o putsch e não a luta de massas, o certo é ir na balada da burguesia e não colocar a direção da luta na mão da classe operária, substituir os mineiros e os gaúchos por Flores Cunha, os operários de São Paulo por Armando Sales e assim por diante. Você, Saqüila, é um homem que leu Marx, Engels, O Capital completo, obras de Lenin e Stalin [...] É o mal de vocês, intelectuais metidos num gabinete a devorar marxismo, distante das massas. Em vez de se alimentarem de teoria para melhor agir na prática, vocês indigestam e depois só fazem besteira ...299
Saqüila não segue a orientação do dirigente operário. Por assim, ele será expulso do Partido e denominado de “traidor, um inimigo, um agente da polícia”300. O Partido é sempre posto como um agente justo, pois seguia a tradição do Partido Bolchevique Russo que desmascarou Trotsky e os velhos membros do Partido durante os processos de
299 Idem, p. 201. 300 Idem, p. 285.
Moscou301. Agentes da burguesia e da polícia repressora, assim são tratados os inimigos dentro da classe. Mesmo que Saqüila, durante o romance, não assumisse ser seguidor de Trotsky, ele é posto como tal, por ser colaborador das forças reacionárias.
Existe nos romances militantes de Amado um medo significativo dos
trotskistas. Eles são sujeitos de bom convencimento, que conseguem atrair indivíduos de boa índole, envenenando, assim, o Partido. Para o escritor, como para os dirigentes do PCB da época, os discípulos de Trotsky são os reais traidores da classe trabalhadora, pois reivindicam o marxismo, mas o deturpam; participaram do Partido Bolchevique e da homérica Revolução Russa, mas, naqueles anos de ascensão do fascismo, atacavam o Partido e os caminhos
trilhados pela Revolução. As citações de Amado, quanto aos trotskistas, colocam-nos como elementos perdidos, agentes do capital, de impossível regeneração política, diferente do anarquista, de origem não marxista, que antes de se aliar à burguesia aderiu ao único partido do proletariado, o PCB.
O cabo Juvêncio, personagem de Seara Vermelha, que participara do movimento armado em Natal, durante o princípio de sua militância no Partido, teve contato com o texto “ABC do comunismo”; mas, durante o início da leitura do mesmo, seu companheiro lhe salvou, evitando o envenenamento, rasgando o livro que seria de orientação trotskista. Com tal atitude, seu companheiro alegou: “-Pra não envenenar outro companheiro...”. Na seqüência, falou “sobre Trotsky e o mal que ele fizera à revolução. Como os trotskistas sabotavam o esforço do Partido e traíam a classe trabalhadora” e, para concluir, afirmou: “-Trotskista e policial é a mesma coisa”302.
O próprio Luiz Carlos Prestes afirmou ter sido envenenado/enganado pelos
traidores quando lançou o manifesto do LAR, alegando que alguns intelectuais brasileiros de idéias trotskistas o influenciaram e, por isso, o texto apresentava “posições esquerdistas, sectárias e inclusive tipicamente trotskistas”. Mas, após a sua aproximação do Secretariado Latino Americano da Internacional Comunista, ele conseguiu livrar-se “de influências estranhas e converter-se em soldado do único movimento revolucionário conseqüente, do movimento operário e comunista”303, o PCB.
301 Idem, p. 286.
302 AMADO, Jorge. Seara Vermelha. São Paulo: Livraria Martins Editora, s/d, p. 228.
303 PRESTES, Luiz Carlos. “Como Cheguei ao Comunismo”. In: Cultura Vozes. Petrópolis: n° 2. Março-