Discutiremos agora a representação do negro na obra O Cortiço, por meio da análise das personagens Rita Baiana e Florinda, ambas tratadas como mulatas no romance. Iniciaremos com a análise da personagem Rita Baiana que, em contrapartida à personagem negra Bertoleza que encarnava o trabalho, representava a mulher sensual e exótica. Ela também é uma das personagens principais do romance e sua história é contada paralelamente à de João Romão e Bertoleza. Na trama, ela é a mulata que se torna amante do português Jerônimo, trabalhador “ideal”, sem vícios e com família nuclear constituída. Ele é um exemplo a ser seguido, mas é seduzido pela baiana e “abrasileira-se”.
A personagem Rita Baiana aparece pela primeira vez no romance nos comentários das lavadeiras do cortiço no capitulo III. A personagem é chamada ora pelo nome, ora de mulata. É reprovada pelas colegas devido ao seu comportamento lascivo e “vadio”. Seu gosto por festas (pagodes) e bebedeiras também não é bem visto pelas colegas e, ao final da conversa, reprovam também seu namorado, o Firmo Capoeira. A conversa entre as lavadeiras termina assim:
− Ainda assim não é má criatura... Tirante o defeito da vadiagem... − Bom coração tem ela, até demais, que não guarda um vintém para dia de amanhã. Parece que o dinheiro lhe faz comichão no corpo! (AZEVEDO, 2012, p. 46).
No capítulo VI, surge então Rita Baiana. Sua chegada ao cortiço é narrada como um acontecimento que revoluciona alegremente toda a estalagem. No romance, Rita representa a mulher brasileira, mulata, fogosa, alegre, querida por todos, ajuda a todos e conhece o Rio de Janeiro inteiro.
Rita havia parado em meio do pátio. Cercavam-na homens, mulheres e crianças; todos queriam novas dela. Não vinha em traje de domingo; trazia casaquinho branco, uma saia que lhe deixava ver o pé sem meia num chinelo de polimento com enfeites de marroquim de diversas cores. No seu farto cabelo, crespo e reluzente, puxado sobre a nuca, havia um molho de manjericão e um pedaço de baunilha espetado por um gancho. E toda ela respirava o asseio das brasileiras e um odor sensual de trevos e plantas aromáticas. Irrequieta, saracoteando o atrevido e rijo quadril baiano, respondia para a direita e para a esquerda, pondo à mostra um fio de dentes claros e brilhantes que enriqueciam a sua fisionomia com um realce fascinador. (AZEVEDO, 2012, p.62.).
No trecho acima, encontramos a imaginação do escritor branco em relação à mulher negra. Temos a sensualização da mulher brasileira negra, aquela que rebola quando anda e, ainda, possui um odor sensual de trevos e plantas aromáticas. Os cabelos crespos também são sempre citados. São dedicadas mais três páginas sobre a relação de Rita Baiana com os demais moradores. Ao final, o narrador ainda nos diz que ela é festeira e que, nas suas festas, todos são bem-vindos:
E, afinal abaixando a voz, segredou às companheiras que à noite teriam um pagodinho de violão. Podiam contar como certo! Esta última notícia causou verdadeiro júbilo no auditório. As patuscadas da Rita Baiana eram sempre as melhores da estalagem. Ninguém como o diabo da mulata para armar uma função que ia pelas tantas da madrugada, sem saber a gente como foi que a noite se passou tão depressa. Além de que “era aquela franqueza! Enquanto houvesse dinheiro ou crédito, ninguém morria com a tripa marcha ou com a goela seca! ” (AZEVEDO, 2012, p.65).
A amizade e a solidariedade estão presentes na figura da mulata.
Seguindo a narrativa, no domingo à tarde, acontece a festa promovida pela nossa personagem, com muito barulho, dança e comida. Na descrição de Rita Baiana pelo narrador, temos outra vez presente o postulado geral das teses raciais: “[...]
chegadinha de fresco da Bahia, em companhia da mãe, uma cafuza dura, capaz de arrancar as tripas ao Manduca da Praia. A cafuza morreu e o Firmo tomou conta da mulata [...]. Ele tinha “paixa” pela Rita, e ela, apesar de volúvel como toda a mestiça, (grifo meu) não podia esquecê-lo por uma vez [...]”. (AZEVEDO, 2012, p. 68). O narrador ainda afirma que Rita Baiana apanhava de Firmo de vez em quando.
A hierarquização dos negros, também está presente no trecho acima: a mãe, cafuza, dura e sem nome, a filha, mulata, de nome Rita Baiana, somente isso. O pai de Rita não é mencionado pelo narrador. Supõe-se que o pai era branco, já que ela é mulata e a mãe cafuza (mestiça de índio com negro). Essa questão de mestiçagem será aprofundada no próximo tópico.
O nome que caracteriza a personagem Rita Baiana também é passível de análise, já que faz alusão ao contingente de pessoas vindas da Bahia para o Rio de Janeiro, no final do século XIX e início do XX, em busca de melhores condições de vida. Os negros baianos que se fixaram no Rio de Janeiro formavam verdadeiras comunidades e trouxeram consigo novos hábitos, costumes e valores. Rita Baiana está diretamente ligada a essas comunidades de baianos e às mulheres baianas em
relação à sociabilidade e à autoridade exercidas por elas nas camadas populares29. Esses hábitos e costumes, estavam em desacordo com os valores introduzidos pela modernidade. Nessas comunidades, havia ajuda mútua, e, muitas vezes, era a mulher baiana quem comandava o lar e as teias de relações da família. As matriarcas negras vindas da Bahia para a Corte eram chamadas de “tias baianas” e tiveram papel relevante na manutenção e resistência negra na cidade do Rio de Janeiro, principalmente no período das mudanças estruturais da cidade30. A narrativa romanesca mostra também os conflitos sociais como a concorrência entre portugueses e brasileiros que disputavam espaços na cidade carioca. A questão da identidade nacional sendo forjada pelos populares também está presente na trama. No romance, rivalizam até mesmo a música portuguesa, no caso o fado, e a música brasileira, representada pelo chorado baiano:
[...] Abatidos pelo fadinho harmonioso e nostálgico dos desterrados, iam todos, até mesmo os brasileiros, se concentrando e caindo em tristeza; mas, de repente, o cavaquinho do Porfiro, acompanhado pelo violão do Firmo, romperam vibrantemente com um chorado baiano. Nada mais que os primeiros acordes da música crioula para que o sangue de toda aquela gente despertasse logo, como se alguém lhe fustigasse o corpo com urtigas bravas. E seguiram-se outras notas, e outras, cada vez mais ardentes e mais delirantes. Já não eram dois instrumentos que soavam, eram lúbricos gemidos e suspiros soltos em torrente, a correrem serpenteando, como cobras numa floresta incendiada; eram ais convulsos, chorados em frenesi de amor; música feita de beijos e soluços gostosos; carícia de fera, carícia de doer, fazendo estalar de gozo. E aquela música de fogo doidejava no ar como um aroma quente de plantas brasileiras, em torno das quais se nutrem, girando, moscardos sensuais e besouros venenosos, freneticamente, bêbedos do delicioso perfume que os mata de volúpia. E à viva crepitação da música baiana calaram-se as melancólicas toadas dos de além-mar. Assim à refulgente luz dos trópicos amortece a fresca e doce claridade dos céus da Europa, como se o próprio sol americano, vermelho e esbraseado, viesse, na sua luxúria de sultão, beber a lágrima medrosa da decaída rainha dos mares velhos. (AZEVEDO, 2012, p. 76).
A festa no cortiço durou horas e entrou pela madrugada...
As festas na casa de Rita Baiana representam essa extensão familiar dentro do cortiço, porém, devido à ideologia do autor e sua distância em relação às
29 Ver VELLOSO, Mônica Pimenta. As tias baianas tomam conta do pedaço – espaço e identidade
cultural no Rio de Janeiro. Estudos Históricos, Rio de Janeiro, vol. 3, nº6, 1990, p. 207-228.
personagens reais que observou, tais festas são desqualificadas e reprovadas, como veremos no final do romance.
Continuando o estudo sobre as festas de Rita Baiana, temos a ideia de sociabilidade espacial que era um costume profundamente enraizado na cultura afro- baiana. Monica Velloso (1990) diz que frequentemente a casa das “tias baianas” se convertia nesse polo aglutinador de energia, onde se dava a socialização do grupo:
Naquele tempo (1910) não havia lugar para se divertir. Não havia cinema. Havia só festa familiar. Nós os da raça (negro) já sabíamos de cor onde se reunir. Havia sempre festa, com baile e até com assunto religioso, em numerosas famílias. Lá os crioulos se reuniam, comiam, sambavam, se divertiam, namoravam e se casavam ou então se amigavam! Mas de qualquer jeito arranjavam companheira. Havia muitas casas (centros) onde os negros se reuniam. As principais, que eu me lembro eram de Perciliana, mãe do João da Bahia, da Amélia do Aragão, mãe do Donga e da tia Ciata... (BORGES, 1971 apud VELLOSO, 1990, p. 7).
Geraldo José Alves (2005), em seu artigo, também aborda a questão das festas de Rita Baiana no romance. No que diz respeito à cultura popular e os espaços de sociabilidade, o autor enfatiza que:
No cortiço as festas sempre se iniciam pela refeição, tida em comum pelos familiares e convidados vindos de fora, dentro do cômodo de cada morador (a casa). Somente depois da fase “privada” os vários grupos organizados extrapolam sua alegria embebidas nas taças de cachaça e parati para o pátio comum (a rua), onde se canta e dança, criando-se uma fogueira que é a síntese das chamas dos diversos fogos domésticos. Assim o cortiço constituía a dimensão espacializada de uma determinada cultura política especialmente popular. Nele a distinção entre o público e o privado é elaborada no contexto interno de sua própria organização quase dispensando referências aos espaços públicos externos a ele. (ALVES, 2005, p.64).
Jerônimo, atraído pela música brasileira e pelo clima da terra, vê Rita Baiana dançando e se apaixona por ela. A mulata sedutora entra em cena no romance:
E viu a Rita Baiana, que fora trocar o vestido por uma saia, surgir de ombros e braços nus, para dançar. A lua destoldara-se nesse momento, envolvendo- a na sua coma de prata, a cujo refulgir os meneios da mestiça melhor se acentuavam, cheios de uma graça irresistível, simples, primitiva, feita toda de pecado, toda de paraíso, com muito de serpente e muito de mulher. Ela saltou em meio da roda, com os braços na cintura, rebolando as ilhargas e bamboleando a cabeça, ora para a esquerda, ora para a direita, como numa sofreguidão de gozo carnal, num requebrado luxurioso que a punha ofegante; já correndo de barriga empinada; já recuando de braços estendidos, a tremer toda, como se fosse afundando num prazer grosso que nem azeite, em que se não toma pé e nunca se encontra fundo. Depois, como se voltasse à vida, soltava um gemido prolongado, estalando os dedos no ar e vergando as pernas, descendo, subindo, sem nunca parar com os quadris, e em seguida sapateava, miúdo e cerrado, freneticamente, erguendo e abaixando os
braços, que dobrava, ora um, ora outro, sobre a nuca, enquanto a carne lhe fervia toda, fibra por fibra, tirilando. Em torno o entusiasmo tocava ao delírio; um grito de aplausos explodia de vez em quando, rubro e quente como deve ser um grito saído do sangue. E as palmas insistiam, cadentes, certas, num ritmo nervoso, numa persistência de loucura. [...] Mas, ninguém como a Rita; só ela, só aquele demônio, tinha o mágico segredo daqueles movimentos de cobra amaldiçoada; aqueles requebros que não podiam ser sem o cheiro que a mulata soltava de si e sem aquela voz doce, quebrada, harmoniosa, arrogante, meiga e suplicante. (AZEVEDO, 2012, p. 77-78).
Notamos que a mulata estava em seu ambiente de forma natural, ela não seduziu Jerônimo como o narrador tenta nos mostrar, foi Jerônimo que ficou encantado com sua beleza. O narrador mostra Rita Baiana como metáfora da natureza brasileira. O exotismo da mulata também está relacionado com tal metáfora:
E Jerônimo via e escutava, sentindo ir-se-lhe toda a alma pelos olhos enamorados. Naquela mulata estava o grande mistério, a síntese das impressões que ele recebeu chegando aqui: ela era a luz ardente do meio- dia; ela era o calor vermelho das sestas da fazenda; era o aroma quente dos trevos e das baunilhas, que o atordoara nas matas brasileiras; era a palmeira virginal e esquiva que se não torce a nenhuma outra planta; era o veneno e era o açúcar gostoso; era o sapoti mais doce que o mel e era a castanha do caju, que abre feridas com o seu azeite de fogo; ela era a cobra verde e traiçoeira, a lagarta viscosa, a muriçoca doida, que esvoaçava havia muito tempo em torno do corpo dele, assanhando-lhe os desejos, acordando- lhe as fibras embambecidas pela saudade da terra, picando-lhe as artérias, para lhe cuspir dentro do sangue uma centelha daquele amor setentrional, uma nota daquela música feita de gemidos de prazer, uma larva daquela nuvem de cantáridas que zumbiam em torno da Rita Baiana e espalhavam-se pelo ar numa fosforescência afrodisíaca. Isto era o que Jerônimo sentia, mas o que o tonto não podia conceber. De todas as impressões daquele resto de domingo só lhe ficou no espírito o entorpecimento de uma desconhecida embriaguez, não de vinho, mas de mel chuchurreado no cálice de flores americanas, dessas muito alvas, cheirosas e úmidas, que ele na fazenda via debruçadas confidencialmente sobre os limosos pântanos sombrios, onde as oiticicas trescalam um aroma que entristece de saudade. E deixava-se ficar olhando. Outras raparigas dançaram, mas o português só via a mulata, mesmo quando, prostrada, fora cair nos braços do amigo. (AZEVEDO, 2012, p. 78).
E, mais adiante, o narrador ressalta novamente o cabelo crespo, característica física do negro, de Rita Baiana:
Mas Jerônimo nada mais sentia, nem ouvia, do que aquela música embalsamada de baunilha, que lhe entontecera a alma; e compreendeu perfeitamente que dentro dele aqueles cabelos crespos, brilhantes e cheirosos, da mulata, principiavam a formar um ninho de cobras negras e venenosas, que lhe iam devorar o coração. (AZEVEDO, 2012, p. 78).
Jerônimo fica doente no dia seguinte à festa e é assistido por Rita Baiana. Os dotes de cura popular da nossa personagem negra completam a sedução do português:
− Chá! Que asneira! Chá é água morna! Isso que você tem é uma resfriagem. Vou-lhe fazer uma xícara de café bem forte para você beber com um gole de parati, e me dirá se sua ou não, e fica depois fino e pronto para outra! Espera aí! (AZEVEDO, 2012, p. 81).
No romance, a questão das curas populares também está exposta e será abordada mais adiante. As curandeiras e curandeiros, no final do século XIX e início do século XX, possuíam grande importância em todas as camadas sociais. As características de Rita Baiana vão aparecendo aos poucos no romance. É limpa, asseada, toma banhos todos os dias, trabalha de lavadeira, conhece todo o Rio de Janeiro, ajuda as outras moradoras, arranjando-lhes emprego etc.
Ao longo do romance, vamos percebendo as diferenças entre a mulata Rita Baiana e a negra Bertoleza. Uma é festeira, possui relações com todo mundo, e a outra não fala com ninguém a não ser “seu dono”, João Romão.
Rita Baiana também faz reflexões sobre o casamento formal, diz que não se sujeita a maridos e não aceita apanhar deles.
Ao falar da nova preferência amorosa de Rita Baiana pelo português Jerônimo, o narrador retoma as teses das desigualdades raciais e a teoria do branqueamento, agora na figura da mestiça que sente apreço pelo europeu como representante de uma “raça superior”:
[...] mas desde que Jerônimo propendeu para ela, fascinando-a com a sua tranquila seriedade de animal bom e forte, o sangue da mestiça reclamou os seus direitos de apuração, e Rita preferiu no europeu o macho de raça superior. O cavouqueiro, pelo seu lado, cedendo às imposições mesológicas, enfarava a esposa, sua congênere, e queria a mulata, porque a mulata era o prazer, era a volúpia, era o fruto dourado e acre destes sertões americanos, onde a alma de Jerônimo aprendeu lascívias de macaco e onde seu corpo porejou o cheiro sensual dos bodes. (AZEVEDO, 2012, p. 163).
Rita Baiana reaparecerá em cena no capitulo XV, quando Jerônimo, após assassinar Firmo o amante de Rita Baiana, volta para o cortiço de madrugada, bate
na porta de Rita Baiana e lhe confessa o crime. Ela não se abala e os dois fazem amor, ela termina prometendo ir morar com ele.
Rita vai viver com Jerônimo em outro ponto da cidade, a mulata regenera Jerônimo:
Jerônimo volta a trabalhar na pedreira de São Diogo, onde trabalhava antes. Morando com a Rita Baiana, gasta muito dinheiro na decoração de sua nova casa, trabalha pouco ou quase nada ambos, vivem sua paixão. De acordo com o narrador, o português abrasileirava-se de vez. Fez-se preguiçoso, amigo das extravagâncias e dos abusos, luxurioso e ciumento; fora-se lhe de vez o espírito da economia e da ordem; perdeu a esperança de enriquecer, e deu-se todo, todo inteiro, à felicidade de possuir a mulata e ser possuída só por ela, só ela e mais ninguém. (AZEVEDO, 2012, p. 189).
A suposta falta de caráter por parte dos negros e mulatos nos é apresentada de maneira indireta pela ausência de sentimentos da mulata Rita Baiana, ao tomar conhecimento da morte do amante e, logo em seguida, entregar-se amorosamente a seu assassino. O narrador ainda termina o episódio alegando que a morte do amigo de Rita era coisa natural:
Com relação à morte de Firmo, não vinham nunca toldar-lhes o gozo da vida; quer ele, quer a amiga, achavam a coisa muito natural. “O facínora matara tanta gente: fizera tanta maldade; devia, pois acabar como acabou! Nada mais justo! Se não fosse Jerônimo seria outro! Ele assim o quis – bem feito!”. (AZEVEDO, 2012, p. 189).
Sobre o abrasileiramento de Jerônimo por meio de sua relação com Rita Baiana, concordamos com a posição do crítico Antonio Candido (1991) que faz alusão aos ritos afro-brasileiros nessa transformação:
O abrasileiramento de Jerônimo é regido quase ritualmente pela baiana, que o envolve em lendas e cantigas do Norte, dá-lhe pratos apimentados e o corpo “lavado três vezes ao dia e três vezes perfumado com ervas aromáticas”; e este abrasileiramento é expressivamente marcado pela perda do “espírito da economia e da ordem”, da “esperança do enriquecer". É que a sua paixão violenta é apresentada pelo romancista como consequência das "imposições mesológicas”, sendo Rita “o fruto dourado e acre destes sertões americanos”. (CANDIDO, 1991, p. 122).
Jerônimo e Rita Baiana continuam a viver juntos e se amando na miséria de mais um cortiço carioca. Esse é o desfecho dos dois personagens na trama.
Ao analisar a crítica sobre a personagem em estudo, atentamos para o pensamento de David Brookshaw (1983) que aponta a personagem mulata Rita Baiana como totalmente controlada pela própria sensualidade e capricho. A típica heroína naturalista, ou seja, seu comportamento é ditado por seu tipo biológico. Sua
amoralidade é enfatizada por Aluísio Azevedo várias vezes. Ela é a causa da degeneração de Jerônimo. Para Brookshaw (1983), a originalidade da caracterização da mulata n’O Cortiço é que tal caracterização simboliza o Brasil.
A voluptuosidade de Rita Baiana reflete a abundância e a sensualidade da natureza brasileira, o que não é difícil explicar se lembrarmos que para os naturalistas o ambiente governa o caráter, assim a mulata, a verdadeira nativa do Brasil, era o produto e, portanto, o reflexo, de seu ambiente natural... (BROOKSHAW, 1983, p.45).
Para o autor, esses estereótipos, construídos por Aluísio Azevedo em relação à mulata, evoluem nos anos 20 e 30 do século XX, para que a mulata se torne então o símbolo de beleza e desejo nacionais. Brookshaw (1983) ressalta a inexistência de semelhantes estereótipos para a mulher negra. Como já foi analisado aqui, no romance O Cortiço, essa mulher negra é representada por Bertoleza como passiva, resignada, feia, suja, indesejável, etc.
Desconstruindo a imagem passada pelo romance em relação ao meio que determina os comportamentos, concordamos com a opinião de Silva (2008), que diz:
É o imigrante português quem possui normas frágeis de comportamento, já que, é ele quem se abrasileira e não o contrário como Aluísio mostrou no personagem Jerônimo, é ele quem troca o vinho pela cachaça, o fado pelo pagode e a mulher branca pela negra. Deixando à mostra a sua fragilidade de sua moral, ao desejar tudo o que ele diz ser errado: a sexualidade livre, o ócio e o pagode. (Silva, 2008, p. 57).
Abordaremos agora outra mulata (jovem e sensual) do romance O Cortiço, a personagem Florinda. Ela nos é apresentada juntamente com a sua mãe Marciana, a “mulata antiga” muito séria e asseada em exagero, no capítulo III. As duas trabalham de lavadeira, como quase todas as outras mulheres do Cortiço. Florinda era mulata bonita e desejada igualmente como Rita Baiana, a diferença entre as duas era a idade:
A filha tinha quinze anos, a pele de um moreno quente, beiços sensuais, bonitos dentes, olhos luxuriosos de macaca. Toda ela estava a pedir homem, mas sustentava ainda a sua virgindade e não cedia, nem à mão de Deus Padre, aos rogos de João Romão, que a desejava apanhar a troco de