de bens, segundo a situação do domicílio
e o sexo do responsável. Brasil. 2004
Tipo de bem Domicílios de resp. homem Domicílios de resp. mulher Sit. Rural Sit.
Urbana
Total Sit. Rural Sit. Urbana
Total
Celular 17,4 26,5 20,5 13,0 23,5 17,7
Telefone fixo 4,4 28,4 12,6 3,8 33,5 16,9
Fogão de 2 ou mais bocas 91,2 95,6 92,7 91,4 95,6 93,3
Fogão de 1 boca 6,2 3,5 5,3 6,3 3,4 5,0 Filtro de água 40,7 46,5 42,7 41,6 44,5 42,9 Rádio 81,3 81,7 81,5 76,3 79,1 77,6 TV em cores 56,5 78,3 63,9 55,2 78,3 65,4 TV p/b 7,9 7,4 7,7 8,2 8,0 8,1 Geladeira 2 portas 2,7 7,0 4,2 1,8 5,8 3,6 Geladeira 1 porta 53,7 71,3 59,7 53,6 73,5 62,4 Freezer 19,1 13,7 17,2 13,4 12,0 12,8
Máquina de lavar roupa 7,7 15,4 10,3 4,8 13,3 8,6
Microcomputador 1,3 6,7 3,2 0,6 4,4 2,3
Acesso à Internet 0,3 4,3 1,7 0,1 2,9 1,3
Total de domic. part. Perm. 4.855.874 2.511.825 7.367.699 405.926 322.264 728.190
8. A guisa de conclusões
O ascenso do movimento de mulheres, nas últimas décadas, questionando os velhos estereótipos sobre o papel feminino, abriu novas possibilidades e opor- tunidades na sociedade para o surgimento de atividades fora do lar realizadas pelas mulheres. Isto foi favorecido pelo acesso à educação, que tanto provocou a incorporação de um maior contingente de mulheres no mercado de trabalho,
8 como também aumentou sua participação política na sociedade. O trabalho
doméstico ainda é realizado predominantemente por mulheres e define o eter- no lugar e o status inferior da mulher na sociedade. essa discriminação remete ao tema da invisibilidade do trabalho feminino, que é o mais antigo levantado pelo discurso feminista, no debate sobre a nova cidadania. É preciso deixar claro que esta questão não é exclusiva das trabalhadoras rurais, mas refere-se à vida feminina como um todo.
dessa forma, na análise do trabalho feminino rural a ideologia patriar- cal do reconhecimento da supremacia masculina sobre o feminino permanece como uma marca profunda dessa sociedade. a inferioridade feminina é mais visível na análise das relações sociais do mundo rural: o impacto da moder- nização da agricultura sobre a mão-de-obra feminina, a proletarização da fa- mília rural e a intensificação do lugar da mulher na produção de alimentos e no seio da família no meio rural mantêm o trabalho da mulher, no plano simbólico, ainda caracterizado como trabalho complementar, ajuda da mulher. a pretensa “naturalidade” da divisão sexual do trabalho, onde cabem às mu- lheres os afazeres domésticos, denunciado pelo movimento de mulheres com tanto impacto no espaço urbano, aparentemente ainda é tímido no campo. no mundo rural estas relações não foram ainda contaminadas pelo novo papel fe- minino, com o mesmo impacto do que acontece no meio urbano.
no entanto, com o grande crescimento da mobilização das mulheres – e esta foi uma das mais importantes revoluções dos costumes do século XX, essa
8 As mulheres pobres, com baixos níveis de renda, sempre trabalharam nas esferas priva- da e pública. Seja como escravas, no eito, ou na cidade, como vendedoras ambulantes, amas-de-leite, escravas de ganho, isto no século XIX, seja como as atuais domésticas/ diaristas. As mulheres pobres foram e são presenças marcantes no mundo do trabalho ao longo de nossa história.
luta irradiou-se para o meio rural. É significativo o avanço da organização das trabalhadoras rurais nos últimos anos na sociedade brasileira, que têm exigido terra e reconhecimento profissional: “Do lar, não, trabalhadoras rurais” (CUT, 1991), lema que traduz muito bem a denúncia da invisibilidade do trabalho feminino e a luta pelos direitos da cidadania e de classe.
a falácia da “naturalidade” da divisão sexual do trabalho foi evidencia- da neste trabalho pelo número de pessoas do sexo feminino que se declaram trabalhadoras sem remuneração e expressa de maneira contundente a proble- mática da inferioridade feminina. O trabalho da mulher é visto como uma extensão do seu papel de mãe/esposa/dona-de-casa que se superpõe à ativi- dade agropecuária – principalmente na horta e no quintal. estas atividades são majoritariamente exercidas pelas mulheres e marcam a diferenciação no mundo rural dos sexos feminino e masculino. a variável jornada de trabalho é o melhor indicador para expressar este estereótipo feminino – de provedora das necessidades da família – com a declaração das trabalhadoras rurais de reduzido número de horas semanais trabalhadas. assim, a tradição de ocul- tamento do trabalho feminino tinha que se refletir no mundo rural, numa diluição deste na cooperação familiar e no desconhecimento dos seus direitos sociais mais elementares.
Há uma presença maior de trabalhadoras (es) pretas (o) e pardas (o) no contingente dos ocupados rurais do que a participação destas (es) na demo- grafia nacional. Provavelmente, o mundo rural engloba um grande contingen- te de pobres e isso se reflete num maior peso da população parda/preta no setor agropecuário. Sobretudo é a população parda feminina e masculina que faz a diferença, esta dá o tom da pele dos ocupados rurais.
a estrutura da ocupação agropecuária sofreu mudanças na década; o de- semprego e a concentração fundiária provocaram uma queda da participação feminina no campo, e seguramente explicam o êxodo feminino do mundo rural. da mesma forma que no restante da sociedade, as trabalhadoras rurais envelheceram e são mesmo mais velhas que seus companheiros de trabalho; esse envelhecimento foi provavelmente acentuado pelo êxodo rural feminino.
Mulheres e homens no exercício das atividades agropecuárias são pouco instruídos; mas, diferentemente do meio urbano, no mundo rural as mulheres, apesar do aumento de sua escolaridade, ainda são menos instruídas que os ho-
mens; como as trabalhadoras são mais velhas do que os homens, esta diferença de escolaridade também deve ser explicada por esta razão.
O trabalho feminino na agropecuária é majoritariamente não remune- rado; para as poucas que auferem rendas monetárias, estas ainda são bem in- feriores às percebidas pelos homens. Independentemente da forma como se mensura a renda agropecuária, a precariedade da condição feminina salta aos olhos: assim como em 1993 e 1998, em 2004 79% das trabalhadoras rurais não auferiam rendas monetárias, enquanto que essa proporção era de 26% para os homens; é elevada essa participação masculina, mas bastante inferior à taxa de participação das mulheres, que permanece no patamar de quatro quintos. as trabalhadoras com melhor remuneração são as ocupadas na pecuária, pos-
sivelmente devido ao fato de que esta é uma das poucas atividades em que se registra a existência, ainda que reduzida, de empregadoras no meio rural.
Tanto na lavoura como na pecuária, o trabalho não remunerado da mu- lher destaca-se como um trabalho coadjuvante, extensão do papel da mulher no âmbito da família. diversa é a característica do trabalho não remunerado das mulheres ocupadas nas culturas de aves e pequenos animais e horticultu- ra/floricultura. nessas atividades as mulheres se destacam como provedoras da alimentação familiar, uma vez que predomina o trabalho na produção para autoconsumo.
do ponto de vista do acesso aos bens materiais e condições de vida da po- pulação ocupada com atividades agropecuárias, nitidamente esta população vive em piores condições que os ocupados com atividades urbanas. a cidade oferece melhor acesso a energia elétrica e saneamento. Isso, sem dúvida, faz diferença entre a vida no campo e na cidade. de forma interessante, obser- va-se que os domicílios são majoritariamente de propriedade do responsável pelo domicílio, são de casas de alvenaria, recobertas com telha, com banhei- ro ou sanitário, apesar destes serem em sua maioria fossas rudimentares. a água consumida é em grande parte canalizada nos domicílios urbanos, mas os rurais têm um suprimento precário, reforçando os aspectos da pobreza rural. as diferenças de condições de vida e a posse de bens não separam os papeis femininos e masculinos, a precariedade da vida material parece ser ainda uma condição do mundo rural.