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O conceito de nacionalismo também apresenta suas peculiaridades e se caracteriza por dificuldades semelhantes àquelas encontradas na conceituação de nação. Não há uma definição consensual, correntes distintas analisam o nacionalismo como um sentimento nacional, outras como uma ideologia política ou ainda relacionando nacionalismo aos movimentos nacionalistas, dentre outras acepções. Apresentaremos a seguir um panorama da definição para em seguida apresentarmos nosso entendimento acerca do nacionalismo.

O dicionário da língua inglesa Merriam Webster8 considera o primeiro uso

conhecido do termo nacionalismo no ano de 1844. Entretanto, há o uso do termo em 1798 pela primeira vez, não reaparecendo até a década de 1830 conforme demonstra Bertier de Sauvigny (apud CONNOR, 1994, p. 98). Além disso, o termo permanece ausente da lexicografia da fins do século XIX e seu uso só se difundiu no século XX, portanto um termo ainda novo no vernáculo.

A dificuldade em se definir nacionalismo decorre do fato de o conceito não existir por si só, faz parte de uma cadeia de conceitos correlatos que tampouco podem ser facilmente definidos, como espírito cívico, patriotismo, populismo, imperialismo, etnocentrismo, xenofobia, dentre outros. A relação principal, entretanto, ocorre exatamente entre os termos nação e nacionalismo, em que nação representa uma realidade enquanto que o nacionalismo representa uma ideologia. Esta relação pode ser percebida das mais diversas formas, e diferentes definições podem surgir a partir desta relação existente (BALIBAR, 2005, p. 164).

Um dos principais pensadores do nacionalismo, Ernest Gellner, inicia sua obra seminal Nations and Nationalism (1983), apresentando a definição de nação, e expõe o seguinte conceito:

O nacionalismo é essencialmente um princípio político que sustenta que a política e a unidade nacional devem ser congruentes. Nacionalismo, como um sentimento, ou como um movimento, pode ser melhor definido em termos deste princípio. Sentimento nacionalista é o sentimento de raiva despertado pela violação do princípio, ou o sentimento de satisfação despertado por seu cumprimento. Um movimento nacionalista é um impulsionado por um sentimento deste tipo (GELLNER, 1983, p. 1, tradução nossa).

O significado de unidade nacional é explanado por Gellner, que se refere a um sinônimo de grupo étnico, ou um grupo étnico que os nacionalistas acreditam que exista. Assim, “o nacionalismo é uma teoria de legitimidade política, o que requer que os limites étnicos se sobreponham aos limites políticos” (GELLNER, 1983, p. 1, tradução nossa).

O entendimento de Eriksen sobre o conceito de Gellner é claro, para ele,

O nacionalismo, da forma como o termo é usado por Gellner e outros cientistas sociais contemporâneos, explícita ou implicitamente se refere a uma ligação peculiar entre etnicidade e do Estado. Nacionalismos são, de acordo com este ponto de vista, ideologias étnicas que sustentam que seu grupo deve dominar um estado. Um Estado-nação é, portanto, um estado dominado por um grupo étnico, cujos sinais de identidade (como língua ou religião) são frequentemente incorporados em seu simbolismo oficial e legislação. Há uma unidade para a integração e assimilação dos cidadãos, apesar de Gellner admite que as nações podem conter pessoas “não-fundíveis9” (ERIKSEN, 2002, p. 98, tradução nossa).

Outro importante estudioso do nacionalismo, Benedict Anderson, em sua definição de nação já mencionada aqui, caracteriza a nação como uma comunidade imaginada. Por imaginada o autor não se refere a inventada, mas sim que as pessoas que se definem de uma determinada nação nunca conhecerão ou encontrarão a grande maioria dos membros desta mesma nação, ainda que para cada um dos membros desta nação exista a imagem de comunhão entre eles (ANDERSON, 2006, p. 6-7).

Diferentemente de Gellner que salienta os aspectos eminentemente políticos do nacionalismo, Anderson busca compreender a força10 e persistência da

identidade nacional e sentimento. Ainda assim, existem algumas congruências no pensamento de ambos. Ambos entendem a nação como um constructo ideológico no intuito de forjar a relação entre grupos culturais auto-definidos e o estado, e com isso conseguem criar comunidades abstratas de uma ordem distinta dos estados dinásticos calcados em relações de parentesco existentes na pré-modernidade (ERIKSEN, 2002, p. 98-99).

A questão étnica não é tema de discussão central de Gellner e Anderson, mas há uma proximidade evidente entre questões étnicas e nacionais. Existe o componente cultural que é capaz de interferir nas relações entre estado, nação e comunidades étnicas. O sentimento nacionalista mencionado está embebido em elementos culturais e não podem ser separados dos estudos de nacionalismo.

Neste sentido de definição de nacionalismo é possível fazer uma relação entre Gellner e Connor. Ambos adotam postulados weberianos em suas teorias sobre o nacionalismo, ambos consideram a legitimidade como questão central em suas obras, e o surgimento de nações para ambos é um fenômeno moderno.

Existem ainda semelhanças metodológicas, mas o que está implícito no pensamento de Gellner é explícito em Connor. Como bem analisa Daniele Conversi:

A teoria abrangente de Gellner caminha em um vácuo conceitual. Nação, etnia, língua e cultura são turvos perante sua explanação cristalina e fascinante do surgimento das nações e nacionalismo. Apesar de algumas definições claras e memoráveis, uma leitura cuidadosa do trabalho Gellner revela que o núcleo de suas explicações é a cultura como um princípio de organização: a cultura altamente formalizada e padronizada necessita do estado e é necessária para este. Apesar do fato de que está por trás muito da definição do Gellner da nação, etnia é apenas vagamente tratada como tal. A nação é antes o produto final de forças de época de mudança social. A cultura é central para este processo (CONVERSI, 2004, p. 7, tradução nossa).

Já Anthony Smith entende a ideia de nação e nacionalismo de forma correlata ao pensamento de Walker Connor. Smith reconhece a diversidade de definições existentes para o nacionalismo, mas percebe um tema central comum aos conceitos de nacionalismo, o papel do nacionalismo como ideologia que coloca a nação como elemento central de seus estudos e busca promover seu bem-estar. Para alcançar tal objetivo Smith apresenta três pontos centrais, autonomia nacional, unidade nacional e identidade nacional, e para os nacionalistas, uma nação é incapaz de sobreviver sem uma parcela destes três elementos (SMITH, 2010, p. 9).

Diante do exposto, Anthony Smith propõe o seguinte conceito de nacionalismo:

O nacionalismo pode ser definido como um movimento ideológico para atingir e manter a autonomia, unidade e identidade em nome de uma população, alguns membros dos quais acreditam que ele constitui uma “nação” real ou em potencial. O nacionalismo não é simplesmente um sentimento compartilhado ou consciência, nem é para ser equiparado com o “surgimento das nações”. É um

movimento ativo de uma ideologia e simbolismo da nação (SMITH, 2009, p. 61, tradução nossa).

O elemento ideológico se faz presente na definição proposta, e por se tratar de uma ideologia, há objetivos a serem alcançados. São os elementos nucleares da ideologia da nação11 que definem as ações e os objetivos almejados.

Podemos notar no conceito o elemento político do nacionalismo, e Smith demonstra a influência da obra de Connor ao afirmar que o nacionalismo é uma doutrina acerca da nação, não do estado, apesar de que na prática uma nação livre muitas vezes necessite de um estado para proteção e forme de alimentar suas particularidades culturais, apesar desta não ser uma regra geral absoluta (SMITH, 2009, p. 61).

A relação entre movimento e ideologia apresentados no conceito não limitam o nacionalismo a movimentos em busca de independência, O termo manter, presente no conceito, demonstra que a ideologia nacionalista persiste mesmo em nacionalismos estabelecidos e consolidados. Ademais, a definição em questão pressupõe a existência de nações, mas não implica dizer que as nações existam antes do nacionalismo, o que fica evidente através da expressão nações em potencial. Isso mostra que é possível encontrar casos de nacionalismos sem nações estabelecidas (SMITH, 2010, p. 9-10).

Existe, pois, entendimentos diversos sobre o nacionalismo, cujo principal embate acerca do nacionalismo é entre visões que priorizam elementos políticos ou culturais, posição comum na Antropologia. Entendemos que o nacionalismo apresenta uma síntese de ambas as visões, em que tanto elementos políticos e

11 Os seguintes elementos constituem o ‘núcleo’ da ideologia nacionalista: a humanidade está

dividida em nações, cada uma com seu próprio caráter, história e destino, a nação é a única fonte de poder político; lealdade à nação tem precedência sobre outras lealdades, para ser livre, os seres humanos devem pertencer a uma nação; nações requerem máxima autonomia e auto-expressão; paz global e justiça só podem ser construídos sobre a base de uma pluralidade de nações livres (SMITH, 2009, p. 61, tradução nossa).

culturais estão presentes. Neste sentido, adotamos os conceitos de nacionalismo apresentados por Connor e Smith como alicerce e marco teóricos.