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Del III Andre saker

8.1 Likestilling i marin sektor

A multiculturalidade faz referência à coexistência dentro de um mesmo espaço de pessoas de diferentes culturas, já que isto implica diferentes formas de viver a vida e de ver o mundo (Banks, 1999). O termo cultura faz referência ao fenómeno humano em geral, como um todo complexo, consequência da interrelação de diferentes campos: o psicológico, o sociológico, o religioso, o político (Camilleri, 1989). Podemos recordar que, etimologicamente, a palavra “cultura” provém do latim colere, que significa cultivar em sentido agrícola. Tal acepção tem levado àquilo que, no âmbito antropológico, se distingue entre o natural e o biológico, daquilo que tem sido construído pelo homem, que é específico da espécie humana e à qual se dá o nome de cultura. Ao buscar uma definição concisa do termo cultura, no sentido antropológico, são várias as correntes que se distinguem não só pelo alcance que dão ao conceito de cultura, mas também pela sua orientação teórica no que respeita a este tema.

Mas o que queremos dizer, quando falamos de cultura? E o que supõe ser membro de uma cultura? Sócrates, num dos seus diálogos, terá afirmado: “Não sou ateniense nem

grego, mas um cidadão do mundo” (Vieira, 1999, p. 123). Esta afirmação levou muitos

defensores do universalismo cultural a recolher um sem número de definições de cultura. Assim, para definir cultura é importante partir da análise cuidadosa do significado e da interpretação do contexto em que o trabalho se situa. Desta forma, a cultura pode ser entendida por meio de categorias sociológicas, históricas, de comportamentos, através do aspecto normativo, funcional, mental e estrutural, bem como através do aspecto simbólico. Do ponto de vista sociológico, a cultura é entendida como sendo a organização da sociedade, da economia ou da religião. Historicamente, a cultura é compreendida como conhecimentos (tradição) que são passados de geração em geração (Geertz, 1978). Na perspectiva comportamental é definida como maneira de viver em que os seres humanos aprendem compartilhando uns com os outros (Kuper, 2001). Do ponto de vista normativo, a cultura é percebida através de valores de vida (Kroeber, 1993). No entendimento funcional, ela é compreendida como as diferentes maneiras que os seres humanos desenvolvem para resolução dos problemas que surgem decorrentes da vida social (Clanet, 1990).

Compreendida como comportamentos, símbolos, modelos oficiais de imagens e inter- relações destas, a cultura é uma estrutura. Simbolicamente, o conceito de cultura é sustentado por conjunto de significados construídos e compartilhados em sociedade. Compreende-se, assim, que a cultura é motivo de estudos de diversos saberes que buscam compreender as diferentes maneiras de organização social e suas manifestações culturais.

Segundo Fleuri (2001), diante das diversas orientações teóricas, têm-se o desafio de repensar e construir um conceito de cultura mais coeso que proceda da lógica dos sujeitos que nela estão inseridos. Uma das justificativas desta necessidade aparece a partir do entendimento que o humano tem capacidades inatas de respostas abrangentes. Assim as acções deste são complexas e criativas, necessitando de sistemas de controlo extra corporais, orientando seus modos de procedimentos. As sociedades, sobretudo as mais desenvolvidas tecnologicamente, são compostas, cada vez mais, por pessoas de diversas origens culturais. Nesses contextos, a cultura já não deve ser definida enquanto conjunto de características, mais ou menos imutáveis, atribuídas a grupos de pessoas. As diversas etnias têm evidentemente características culturais próprias que as

identificam e distinguem, mas as pessoas das diferentes culturas interagem diariamente entre si com base em elementos culturais que lhes são comuns.

A perspectiva tradicional de cultura ou corrente evolucionista desvaloriza esses denominadores interculturais comuns, que desafiam e promovem mudanças culturais e sociais. Além disso, este conceito de cultura pode servir de argumento para manter separadas e discriminadas as pessoas pertencentes a minorias étnicas. Neste contexto a cultura deve ser entendida como uma elaboração colectiva, em transformação constante, em que a cultura dos imigrantes e das minorias são aspectos específicos a ter em conta nas mudanças das sociedades e dos indivíduos, apoiando-se nos princípios e elementos comuns às diversas culturas que interagem numa sociedade, dando origem a novos elementos culturais, sem os determinismos baseados na tradição e na autoridade.

A revisão do conceito de cultura tem sido uma busca constante e importante no sentido de redefinir o conceito em termos mais dinâmicos num movimento que complementa aquele, já apontado, de reflexão sobre os processos de conhecimento que colocam os indivíduos em contacto uns com os outros e com o devir histórico (Kroeber, 1993). Actualmente entende-se que, através de um movimento de mudança de paradigmas com respeito às concepções de cultura, os teóricos estão superando conceitos definidos, estáticos, de carácter ordenado e como sistemas. Percebe-se a partir deste movimento que a cultura passa a ser compreendida de maneira mais dinâmica, reflexiva, com referência aos processos de conhecimento sobre os seres humanos que vivem em colectividade, levando-se em conta os processos históricos destes. As abordagens que questionam os modelos de cultura abstractas, ordenadas e fixas apresentam propostas para a análise do fenómeno cultural a partir da individualidade, da subjectividade e da historicidade (Thomaz, 1995).

A cultura pode ser entendida como um código simbólico de determinada sociedade, podendo desvendar-se para outras pessoas que não estão inseridas no mesmo contexto pertencente a este grupo. A cultura é o resultado da capacidade e necessidade que os humanos têm de aprender. Para sua existência, o ser humano depende de “uma espécie de aprendizado: atingir conceitos, a apreensão e aplicação de sistemas específicos de significados simbólicos (Geertz, 1978, p. 61). Geertz é um autor cuja obra contribuiu significativamente para repensar o conceito de cultura, que explica ser semiótico.

Acredita que o ser humano é um animal amarrado a teias de significados que ele próprio teceu. Assume a cultura “como sendo essas teias e a sua análise; portanto, não como uma ciência experimental em busca de lei, mas como uma ciência interpretativa, à procura do significado” (Geertz, 1978, p.15). Assim as culturas são produzidas, percebidas e interpretadas. O agir do ser humano é visto como acção simbólica. Isso permite entender o significado de cultura como elemento público. Sem compreender esse significado público não se pode entendê-la e nem descrevê-la. Neste sentido, a abordagem semiótica da cultura consiste em que para compreender minimamente o humano é necessário conhecer sua cultura. Assim, o objectivo da ciência interpretativa é dispor do que os outros deram como resposta. Incluído, desta maneira, o ouvir ao outro. Portanto o mais relevante e característico de uma cultura é o conjunto de categorias simbólicas, o conjunto de significações, valores e normas amplamente compartilhadas pelos membros de um determinado grupo social e o eu em definitivo é o resultado da interacção social. Esta nossa posição está em sintonia com Camilleri (1989), que define o conceito de cultura como:

(…) a configuração mais ou menos intensamente ligada pela lógica tomada por um modelo, de significações persistentes e compartilhadas, adquiridas por pertença ao grupo, que a levam a interpretar os estímulos do ambiente e assim mesmo segundo atitudes, representações e comportamentos comuns valorizados, e que ademais tendem a projectar-se nas produções e comportamentos, e em consequência, incitam a assegurar sua reprodução através do tempo. (Camilleri, 1989, p. 25).

Para este autor, qualquer indivíduo vive dentro de um conjunto simbólico que se forma e evoluciona ao longo da sua existência, e donde as significações individuais articulam- se com as colectivas, encontrando-se entre aqueles as provenientes da cultura. Sustem, também, que nem todas as significações colectivas são culturais. Assim, guiados por Camilleri e sua definição de cultura que não deixa de ser eminentemente funcional e compreensiva, diferenciando, depois do explícito, aquilo que é especificamente cultural daquilo que podem ser modas passageiras. Desde esta definição sobressai o consenso maioritário dos significados que constituem a cultura e seu carácter sistémico:

(…) todo o indivíduo vive dentro de um conjunto simbólico que se forma e evoluciona ao longo da sua existência, em que as significações individuais se articulam com as colectivas, entre aquelas que se encontram as provenientes da cultura. Nem todas as significações colectivas são culturais, senão só aquelas de maior duração e consenso no grupo” (Camilleri, 1989, p. 12).

Desta mesma função instrumental da cultura se centra o tema de estudo da presente tese. Mas para acabar de conceptualizar este termo, Bullivant (1989), importante teórico em questões interculturais, dimensiona este conceito desde uma óptica funcional e realista, ensaiando uma definição sobre cultura nos termos:

Essencialmente cultura é uma forma de instrumento de sobrevivência, sempre em evolução, baseado na mudança adaptativa e que permite aos grupos sociais enfrentar-se aos problemas da vida num contexto particular (Bullivant, 1989, p. 43).

Distingue as seguintes funções primordiais (Bullivant, 1989, p. 43-44): Em primeiro lugar a “Cultura expressiva”: faz referência a tudo aquilo que é tradição, costumes, estilos de vida, e em geral aspectos como: arte, literatura, crenças, folclore. Globalmente poderia igualar a acepção de cultura antropológica, no sentido de buscar uma salvaguarda da tradição ou herança cultural, que ajuda a definir a identidade colectiva.

Em segundo lugar a “Cultura instrumental”: é o programa do grupo para poder sobreviver e adaptar-se ao seu ambiente (Bullivant, 1989, p. 28-36). Podia-se dizer que tal acepção baseia-se na mesma linha seguida por Geertz (1978), que põe ênfase na função de sobrevivência e adaptação do grupo ao meio, a cultura como instrumento para sobreviver.

Entendemos por cultura desde uma função instrumental/adaptativa, que nas palavras de Geertz (1978, p. 54-57) se converte num componente constitutivo do próprio homem, diferenciando-o da espécie animal e que se constitui em mecanismos de controle da actividade humana. Ademais a cultura deve dar resposta e servir de instrumento não somente no âmbito físico e social senão, também, no metafísico1, valores superiores que imanam do homem na sua necessidade de dar sentido global à sua existência (Jordán, 1996). A cultura é, no dizer de David Mourão-Ferreira, “o tecido vivo da língua, das paixões, das ideias e hábitos, que constituem o âmago da vida corrente” (1989, p. 15). Nesta definição está implícito o reconhecimento de que a vida do homem transcorre em dois cenários: o natural ou habitat e o social. As sociedades, embora apresentem as mesmas características gerais, possuem cada uma delas um estilo de vida próprio, um comportamento colectivo particular que as individualiza e caracteriza. Ora este conjunto de elementos caracterizadores de uma sociedade, é a sua cultura.

1

. Aqui se incluiriam crenças religiosas de todo o tipo, que influem nas manifestações sociais do homem, tanto na arte, como no trabalho, relações sociais.