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7. Theoretical framework

7.3 Life cycle cost

Os Montoneros apareceram em 1968/1969, proclamando-se herdeiros do Peronismo,1 quando a Argentina era sacudida por crise econômica e política. Queriam reformas sociais, exigiam a volta do proscrito Juan Domingo Perón, expulso do país com o golpe de 1955. Orientavam-se por uma mescla ideológica: nacionalismo, Teologia da Libertação, culto ao Peronismo e a luta armada de Che Guevara. O distintivo era um fuzil e uma lança de taquara (homenagem aos gaúchos primitivos) cruzados. No meio do escudo, podiam figurar as letras M (de Montoneros) ou P (Peronismo).

O estilo dos Montos era voluntarioso, agressivo, violento. Nas manifestações de rua, hostilizavam os policiais que formavam os cordões de isolamento para conter as multidões. Gritavam insultos (“éguas putas, apátridas, gorilas”) e cuspiam nos capacetes e nas fardas.2 Isso lhes foi cobrado depois, quando iniciada a perseguição que ensangüentou o país.

Mas o que mais pesou foram os atentados e os assassinatos. Logo na ação de estréia, em 1970, um comando Montonero executou o ex-presidente da República Pedro Eugenio Aramburu, um dos golpistas da Revolução Libertadora que

1 Movimento surgido em 1945, quando multidões de operários apoiaram Juan Domingo Perón.

Combinando política, sindicalismo e assistência social, o Peronismo se tornou doutrina nacional, conferindo ao Estado o papel de organizador político do povo.

havia derrubado Perón 15 anos antes. O general Aramburu estava aposentado, com 67 anos, mas tinha seu passado de atrocidades. Em 1956, ordenara o fuzilamento, no paredão, de 27 peronistas que conspiravam contra o seu governo recém- empossado. Depois, mandou profanar e esconder os restos mortais de Evita Perón.3

Foram com essas justificativas que oito guerrilheiros, disfarçados de escolta militar, seqüestraram Aramburu no apartamento onde ele morava, em Buenos Aires, na manhã de 29 de maio de 1970. Não houve resistência, a mulher do ex-presidente chegou a mandar que a empregada oferecesse taças de café para aqueles jovens amáveis4, ignorando a identidade e o objetivo dos visitantes. Batizada de Juan José Valle, em homenagem ao general peronista fuzilado por Aramburu, a operação seqüestro foi comandada por fundadores dos Montos, como Mario Firmenich, Fernando Luis Abal Medina e Esther Norma Arrostito, a Gaby.

Aramburu foi morto quatro dias depois, com cinco tiros na cabeça, no porão de uma fazenda de gado que serviu de cativeiro, situada em Timote, a 380 quilômetros de Buenos Aires. Depois da proclamação “Al Pueblo de la Nación”, tentando explicar as razões do crime, houve militantes que cantaram: “Con los huesos de Aramburu / vamo’ a hacer una escalera / para que baje del cielo / nuestra Evita montonera.”5 Enquanto isso, o presidente de fato da nação, Juan Carlos Onganía, instaurava a pena de morte, passando a caçar os seqüestradores.

3 Eva Duarte de Perón, a Evita, morreu em 1952, aos 33 anos. Seus restos mortais foram furtados em

1955, na Argentina, e enterrados clandestinamente na Itália. Foram devolvidos a Perón em 1971.

4 SAIDON, 2005, p. 12-13. 5 GIUSSANI, 2003, p. 88.

Montoneros deram publicidade ao assassinato do ex-presidente Pedro Aramburu.

A execução do idoso ex-presidente, conhecida por Aramburazo, provocou comoção. Durante o sepultamento, no cemitério da Recoleta, o escritor Jorge Luis Borges lembrou que conversara apenas duas vezes com Aramburu, o suficiente para firmar a impressão de um “caballero firme y de extremada cortesía”.6 Premonitório, Borges disse que o assassinato fazia parte da galeria de fatos atrozes da história argentina. Detalhe: era um antiperonista acérrimo, como definiu o seu maior biógrafo, Alejandro Vaccaro.

Os Montos avisaram Perón, no exílio de Madri, sobre a morte de Aramburu. Líder da juventude peronista, Rodolfo Galimberti levou uma carta com a pergunta se o assassinato prejudicava os projetos políticos de retorno à Argentina. Depois de sete dias de meditação, o caudilho respondeu que “no perturbaron plan táctico alguno”.7 No entanto, na mesma carta-resposta, Perón escreveu um recado que os Montoneros não perceberam ou preferiram ignorar. Justificou que a “guerra revolucionária” servia como tática conjuntural, mas “no es un fin en sí mismo, sino solamente un medio y hay que preparar el terreno”.8

O que os Montos não percebiam era que Perón manipulava os cordéis políticos desde o exílio em Madri. O astuto líder usava o ardor dos jovens esquerdistas para desestabilizar o governo do general Onganía (assumira em 1966) com greves e protestos de rua, os estallidos que tumultuavam as grandes cidades. Manobrando os guerrilheiros como um “temível aríete”9, Perón alcançava duplo propósito: hostilizava seus inimigos e demonstrava que somente ele poderia controlar a desordem. Quando reassumisse a Argentina, confiava que os Montoneros deporiam armas e se enquadrariam disciplinadamente no setor juvenil do Peronismo.

Ao mesmo tempo em que tolerava a rebeldia dos Montos, o ex-presidente afagava outras organizações que gravitavam em torno do Peronismo, inclusive a ultradireitista Guardia de Hierro, inimiga dos guerrilheiros.10 O plano de Perón era formar um governo de pacto social, que unisse empresários, políticos e sindicalistas. Prometia reforçar a indústria nacional, aumentar salários e consultar adversários políticos. Acima de tudo, tratava de cativar as classes média e alta – as mais refratárias – de que havia mudado. Dentro da Argentina, diluíam-se as resistências contra sua volta. O novo presidente, general Alejandro Lanusse, aceitou negociar o fim do exílio. Os militares não conseguiram completar o processo de desperonização no país: expulsaram o condutor, mas as estruturas internas permaneceram e os seguidores se multiplicaram. 7 ZAMORANO, 2005. p. 184. 8 Ibidem. p. 184. 9 Ibidem. p. 188. 10 ALONSO, 2005, p. 171.