Classe multisseriada é um tipo de organização de ensino em que o professor trabalha numa mesma sala-de-aula com várias séries simultaneamente, adotada, principalmente, em escolas rurais. Além das escolas rurais existem também, alguns projetos especiais, que vêm sendo adotados nas escolas brasileiras que também utilizam essa organização, com base em metodologias específicas com vistas à aceleração da aprendizagem, na perspectiva de corrigir os problemas de repetência, abandono e entradas tardias nas escolas de Ensino Fundamental e Médio. Dentre esses projetos destacam-se: Avanço Escolar, Classes de Aceleração, Ciclo Básico, Educação de Jovens Adultos e outros. Ressalte-se que alguns desses projetos se destinam a atrair crianças e adolescentes em situação de rua, analfabetas ou defasadas em seus estudos, para que possam ter a oportunidade de aprender e continuar o seu percurso escolar.
Contudo, esse tipo de organização tem se constituído motivo de grandes polêmicas no meio educacional, sobretudo por serem espaços marcados predominantemente pela heterogeneidade, ou seja, classes com agrupamento de alunos com diferenças de série, de sexo, de idade, de interesses, de domínio de conhecimentos e níveis de aproveitamento.
Para entender melhor esse tipo de organização, tomaram-se como referência os estudos de Arroyo (2004) e Perrenoud (2000). Arroyo defende o ponto de vista de que as escolas do campo de modo geral devem adotar estruturas mais flexíveis, evitando dessa forma a estrutura seletiva que é característica do sistema seriado. Para o autor (2004, p. 5-6) a questão que se coloca para a escola é:
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[...] como organizar o tempo, os espaços, as práticas educativas, os conteúdos, os horários, os trabalhos dos professores, de tal maneira que dê conta do desenvolvimento e formação plenos dos educandos, respeitando cada tempo. Isso é uma prática concreta, que vai desde como organizar as turmas entre os que sabem ler e os que não sabem, respeitando os tempos de vida.
Na compreensão desse autor, uma classe multisseriada não se distingue apenas por congregar no mesmo espaço alunos de diferentes idades e séries, significa mais que isso, respeitar o tempo humano, cultural, mental e social dos alunos. A preocupação do professor não pode restringir-se ao ensinar a ler, escrever e contar, é necessário ter sensibilidade com o educando no sentido de desenvolver sua afetividade, sua capacidade de raciocínio, sua sensibilidade, sua identidade, em síntese, respeitar a diversidade.
Para Arroyo, pensar hoje a escola rural sem a perspectiva de estruturas escolares inclusivas e democráticas “é a própria negação da escola como direito de todos”. Nesse sentido o autor conclama a atenção que merece ser dada às tendências educativas avançadas, tarefa urgentíssima para a reconstrução da educação básica do campo (ARROYO, 2004, p. 84-86).
Perrenoud, também, concebe a multisseriação como algo inovador, sugerindo inclusive, acabar com a concepção de que todos os alunos têm de fazer a mesma lição, os mesmos exercícios. Para o autor, é necessário criar metodologias que visem diferenciar o ensino: uma organização do trabalho e dos dispositivos didáticos que coloquem cada um dos alunos em uma situação ótima, priorizando aqueles que têm mais a aprender. (PERRENOUD, 2000a, p. 56).
Portanto, a premência de se pensar numa prática educativa intencionalmente organizada, de perspectiva mais ampla, a serviço do desenvolvimento de todos os indivíduos. E, por falar de prática intencionalmente organizada, torna-se oportuno reportarmo-nos novamente a Vygotsky (2003, p.77) para entender o que ele defende como organização da educação:
[...] a meta da educação não é a adaptação ao ambiente já existente, que pode ser efetuado pela própria vida, mas a criação de um ser humano que olhe para além do seu meio; [...] não concordamos com o fato de deixar o processo educativo nas mãos das forças espontâneas da vida, [...] tão insensato quanto lançar ao oceano e entregar- se ao livre jogo das ondas para chegar à América.
Como se pode perceber, esses autores idealizam estabelecer nas escolas uma organização que garanta efetivamente que o aluno aprenda e se socialize. Para eles a escola e todo projeto educativo tem de respeitar o tempo de vida do aluno, suas vivências e suas
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expectativas, isto é, uma concepção de que o tempo não é da escola, mas, tempo de vida de cada pessoa. Por isso, a necessidade de se pensar as práticas educativas levando em consideração as especificidades de cada contexto.
Não obstante, entende-se que as possibilidades de trabalhar com classes multisseriadas é, precisamente, quebrar essa estrutura fabril na organização do tempo na escola. Nessa perspectiva, vale buscar as reflexões de Fino (2002) sobre o paradigma fabril:
Na escola, independentemente de não estarem expressos nos programas nem nos livros de estudo, os professores, mesmo que não experimentem uma consciência muito aguda desse facto, transmitem aos jovens toda uma série de valores simbolizados na disposição dos lugares na sala de aula, na campainha, na separação por idades, na distinção de classes sociais (em que o professor representa a classe dominante), na autoridade do professor e no próprio facto dos estudantes estarem dentro da escola e não na própria comunidade.
Mas para que essa estrutura fabril seja rompida é necessário que a escola tenha clareza que o processo educativo não é algo imediato, mas, um processo que se desenvolve a médio e longo prazo. Talvez, por esse processo se pautar numa relação pedagógica complexa, muitas escolas não se esforçam em mudar. Por outro lado, a escola não é o único espaço no qual os alunos frequentam. Logo, os saberes não são construídos apenas no contexto escolar, são construídos, sobretudo, no contexto da vida.
Portanto, a classe multisseriada pode se constituir numa perspectiva de prática educativa inovadora, vez que impõe trabalhar a heterogeneidade sob a ótica dos aspectos positivos, capaz de substituir a rigidez que está arraigada dentro da escola por interações autônomas e cooperativas.