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As represent ações que significam e inscrevem a m at ernidade no corpo e na alm a das m ulheres de serem afetivas continentes e dóceis, nos colocam frent e a um a visão incom preensível da violência que m ães com et em cont ra seus filhos. Nest e sent ido, um im portant e passo para responder const rut ivam ent e diant e de um a sit uação de violência cont ra a criança ou adolescent e é nos desvest irm os dos est igm as em relação às m ães agressoras e buscar com preendê- las em suas t raj et órias de vida, as quais as conform aram e conform am com o m ães, revelando características de indet erm inação, am biguidade e inst abilidade frent e a seus papéis sociais, entre eles o m aterno.

Partim os de um a realidade com um a todas as m ulheres do est udo, serem elas m ães de crianças em sit uação at ual ou ant erior de violência int rafam iliar, seguidas pela j ust iça da Com arca de Jardinópolis/ SP e part icipant es do proj eto “ I ntervenções breves para pessoas que abusam de álcool e drogas” .

Tivem os com o pressuposto que os significados que as m ulheres at ribuem à m at ernidade e as form as de at uarem no cuidado com os filhos guardam relação com processos de socialização aos quais foram subm et idas j unt o às suas m ães e fam ílias, revelando possivelm ent e um a cíclica violência fam iliar que, na m aioria das vezes, se m ost ra naturalizada e inevit ável. Além disso, a dissociação do papel m at erno que se expressa em violência cont ra a criança est á ligada a vários fatores isolados ou em conj unção, com o sua condição social e relacional além do consum o de álcool e drogas ilícit as.

Na busca de responder a est e pressupost o buscam os nos aproxim ar das vivências dest as m ulheres no cont ext o da fam ília de origem

e da fam ília at ual, no sent ido de ident ificar fat ores que guardassem relação com a violência que m anifest am cont ra seus filhos.

A análise da violência cont ra a criança e o adolescent e m anifest ada pelas m ães dest e est udo apont a para um perfil com um de m ães agressoras: durant e a infância e adolescência na fam ília de origem conviveram com perdas, sit uações de alcoolism o e violência, afetos e desafetos, situações estas que se reflet em no cont ext o fam iliar at ual, no qual se observa cert a ciclicidade de desest rut uração fam iliar, em que, nas diversas et apas da vida, as m ulheres est udadas assum em diferent es posições de suj eit o dentro do cont ext o da violência int rafam iliar.

Podem os dizer que t ais pressupostos por nós propostos foram com provados através das categorias tem át icas configuradas pelos núcleos de sent ido presentes nas falas desses atores.

No cont ext o da traj et ória de vida das m ulheres durant e a convivência com suas fam ílias de origem , as t rês cat egorias t em át icas —

Convivendo com as perdas: “... eu fiquei pro m undo”; Convivendo com alcoolism o, pobreza e violência em fam ília; Convivendo com afet os e desafet os: “eu achava t ão bom , t ão gost oso quando ela m e cham ava de filha, era m uit o raro, m uit o raro” — ret rat am suas vivências quando criança e adolescentes, ou sej a, convivendo com perdas de ent es queridos, sit uações de alcoolism o e violência, afetos e desafet os, as quais cont ribuem para a desest rut uração da fam ília.

O fat o de a violência ocorrer dent ro da fam ília denuncia a falt a de est rut uração fam iliar, que poderia ser o referencial para o desenvolvim ent o psicológico e social de seus m em bros. Sendo assim , podem os dizer que a violência int rafam iliar rom pe o vínculo de confiança básica para o desenvolvim ent o da vida em fam ília.

Fazendo um a análise da fam ília at ual, observam os um a repet ição das traj etórias de vida dessas m ulheres, descrita pelas categorias: “Eu t ent ei const ruir um a fam ília... bem ou m al ela t á aí”; “M inha vida da infância ao casam ent o parece que foi igual ( ...) cont inuei sendo

agredida” e; “Eu bat o nele sim ( ...) , m as em vist a do que eu fui t rat ada, eu t rat o ele m uit o bem ”.

Diante desta constatação é que concordam os com Bringiot t i ( 2005) que, com base nos t rabalhos de Tornaría, Vandem eulebroecke e Colpin ( 2001) e Belsky ( 1993) , acredit a ser necessário considerar, frente à situação de violência infantil, as características de fam ílias de risco para m aus t rat os na infância. Assim , apresent a um m odelo t eórico com um conj unt o de variáveis, que incluem conhecer: as caract erísticas e histórias pessoais de cada um dos pais, as experiências da infância de apoio e afeição, adequados m odelos parent ais, presença de figuras de apego e tam bém as caract erísticas da criança ( desej ado, aceit o, com problem as de doença ou deficiência) , as relações fam iliares, principalm ent e a conj ugal, as relações com as crianças, as condições sociais e econôm icas de t rabalho, de habit ação, a presença ou ausência de redes de apoio social e os laços locais e, cult uralm ent e, os papéis a serem desem penhados por hom ens e m ulheres, a t olerância do cast igo na educação e a própria concepção de crianças.

I m port ant e exporm os que, na fam ília, a m ãe hist oricam ent e é t ida com o elem ent o de sust ent ação da esfera fam iliar e é através dela que a criança estabelece inicialm ente o cont at o com seu m undo ext erior e vai assum indo e int eriorizando, m ediant e a linguagem , det erm inados papéis e m odelos relacionais. Ent ret ant o, dificuldades int erpessoais podem se apresentar e com prom eter a qualidade do relacionam ento entre m ãe e filho. Em nosso est udo percebem os a dissociação do papel m at erno que se est abelece por fatores isolados ou em conj unção, advindos de experiências anteriores na fam ília de origem e por condições sociais, econôm icas e cult urais da fam ília at ual. As relações conflit uosas ent re m ães e filhos m anifest am –se em com port am ent os de agressividade, negligência, os quais podem j ust ificar m edidas m ais drást icas com o a inst it ucionalização de crianças e adolescent es.

Ent re as m ulheres est udadas, em que pese às experiências ant eriores e a condição cont ext ual fam iliar atual na form a com o se

relacionam com seus filhos, buscam os ident ificar com o lhes significa o papel de ser m ãe. Nest e sent ido, deixam evidenciar cert o valor de prot eção m at ernal, quando se at êm a realidade de vulnerabilidade em que seus filhos estão expostos no contexto relacional fam iliar e extra- fam iliar. Nat uralizam as surras com o est rat égias para educar os filhos, em bora reconheçam a exist ência de out ras form as de se lidar com a criança ou adolescent e.

No cont ext o at ual, as form as de castigos e surras não m ais fazem part e do repert ório de est rat égias para disciplinar os filhos. A est e respeit o, Souza ( 1997) refere que a fam ília at ual encont ra- se oscilant e, pois ora ut iliza os pressupost os hierarquizados, ora assum e o m odelo igualit ário. Em geral a coexist ência dest es m odelos invariavelm ent e vem firm ando um a inconsist ent e e ineficaz funcionalidade educacional quant o ao est abelecim ent o de lim it es às crianças. A am biguidade suscit ada pela pré- exist ência de relações fam iliares vert icais e horizont ais excessivam ent e opost as parece t er- se radicalizado no t ocant e ao enfraquecim ento da figura de aut oridade na sociedade contem porânea.

Observa- se o surgim ent o e a m anutenção da inversão de papéis, o que torna provável que os filhos, desde a infância, desconheçam a frust ração est rut urant e que deveria ser exercida pelas figuras parent ais. As transform ações sócio- históricas afetaram consideravelm ente a dinâm ica e a funcionalidade fam iliar. A aut ora acim a afirm a que a fam ília contem porânea parece se desencont rar, sob a som bra da indefinição do m odelo arcaico hierarquizado ou sob o excesso de perm issividade do m odelo igualit ário.

As figuras parentais, tem endo reproduzir os erros da própria educação e na ânsia de se adequar ao rót ulo de "m odernas", recorrem aos pressupost os cient íficos psicopedagógicos ( WAGNER, 2003) . Som a- se a isso a sobrecarga de trabalho e estresse provenientes do exercício profissional diário dos pais ou de quem exerça esse papel. A conquista da m ulher frent e ao m ercado de t rabalho não a exim iu das ant igas at ribuições sociais no t ocant e à educação dos filhos e às t arefas

dom ést icas. Para a aut ora, os pais sent em - se em dívida em relação às dem andas afet ivas de seus filhos e t endem a com pensar o sent im ent o de culpa recorrendo a um a perm issividade excessiva. Assim , ao se basearem na parent alidade igualit ária, lançam m ão de t écnicas disciplinares ineficazes quant o ao est abelecim ent o de lim it es j unt o aos filhos.

Autores com o Oliveira e Caldana ( 2004) argum ent am que, com o consequência dessa m udança, podem - se observar alterações das prát icas e valores que sust ent am a educação da criança na fam ília nest e século. Essas m udanças estão pautadas em um enfoque antiautoritário e um a m aior preocupação com a felicidade da criança, com seu bem - est ar em ocional e um a m aior im port ância às quest ões afet ivas.

Tal transform ação de valores sobre a educação foi m encionada pelas m ulheres referindo- se ao passado em que se aceitavam socialm ente form as punit ivas aos filhos em nom e da disciplina que hoj e são caracterizadas com o form a de violência. Ent ret ant o, frent e a seus at os agressivos, as m ulheres parecem negar a exist ência de violência, tendo em vist a que est a foi a form a em que foram disciplinadas por seus pais ou responsáveis e que agora se utilizam de form a abrandada j unto a seus filhos, t al com o podem os depreender da fala: “ Eu bat o nele sim ( ...) , m as em vist a do que eu fui t rat ada, eu t rat o ele m uit o bem ” .

A violência física, cuj o im pacto parece ser tem porário e desaparecer no decorrer do desenvolvim ent o infant il, é m uit as vezes subest im ada. A agressão cont ra a criança/ adolescent e deve ser reconhecida com o um sério problem a. Mesm o que crianças vit im izadas sej am ret iradas de suas casas, os efeit os da experiência vivida repercut irão por t oda vida ( DAY et . al., 2003) .

Diante destes resultados, é im portant e que se elaborem est rat égias que aj udem aos pais sensibilizar- se quant o ao fat o de as agressões físicas deixarem m arcas negat ivas em longo prazo, part indo de suas próprias vivências na infância. Ao m esm o t em po em que os aj ude a criar habilidade para se ut ilizar de prát icas educat ivas sem punição corporal, tal com o o diálogo. Este, além de aj udar no desenvolvim ent o de

habilidades sociais dos filhos, m ant ém um a dinâm ica fam iliar com responsividade, afeto e com prom etim ento ( WEBER; VI EZZER; BRANDENBURG, 2004) .

Nossos achados reiteram ser a violência contra crianças e adolescent es um abuso do poder disciplinador e coercivo dos pais e/ ou responsáveis, em que a vít im a é com pletam ent e obj et ificada e seus direit os fundam ent ais com o a vida, a liberdade e a segurança desrespeit ados. Essa subordinação de crianças e adolescent e a diversas form as de m aus- t rat os no am bient e fam iliar pode t er duração indefinida devido à sacralidade dest a instit uição e à autoridade que os pais exercem sobre os filhos, im pondo- lhes um pact o de silêncio e, por vezes, cum plicidade.

Podem os dizer que a violência se est rut ura em padrões cult uralm ent e int roj et ados e m anifest a- se cont ínua e veladam ent e. A m agnit ude do problem a da violência na at ualidade vem ganhando dest aque devido à repercussão dos seus prej uízos na sociedade. Devem os enfat izar que a violência int rafam iliar não pode deixar de ser reconhecida e ent endida com o um fenôm eno art iculado à violência estrutural e social a que os suj eitos, suas fam ílias e sociedade em que vivem estão expostos, sendo t am bém um a questão de ordem polít ica.

De m odo geral, as polít icas públicas e específicas de at enção e prevenção à violência, dirigidas à criança e ao adolescent e, enfat izam o im port ante papel da inserção do t em a no âm bit o do ensino nos diversos níveis, devido à m agnitude e im pact o na saúde da população brasileira. Às políticas agregam - se leis com o os Est at ut os da Criança e do Adolescent e, que dest aca que a violência precisa ser enfrent ada. Um a form a de fazê- lo é sensibilizar, capacit ar e form ar pessoas dos m ais diversos âm bit os da sociedade, m as, sobret udo, os alunos e profissionais do setor saúde, em especial da enferm agem , para onde convergem as vít im as desses event os.

Reconhecendo que o obj et ivo m aior do conhecim ent o cient ífico é a fundam entação para a orientação de ações hum anas t ransform adoras

do cot idiano, acredit am os que est e est udo possa t er cont ribuído para am pliar e fundam ent ar a int ervenção de enferm agem efet iva e transform adora.

Reforçam os que o enfoque dessa int ervenção, t ant o da enferm agem quant o de t odos os profissionais da saúde nessa problem át ica, deve basear- se no fortalecim ent o das respost as das fam ílias das vít im as de violência int rafam iliar, pois esse é um m ét odo eficient e para reduzir t raum as nas vít im as e evit ar a ciclicidade da violência, que foi const at ada nest e est udo.

Acredit am os ser im port ant e a im plem ent ação de prát icas j unt o aos agressores, os quais requerem at enção assim com o as vít im as, cont ribuindo para o fort alecim ent o do núcleo fam iliar, aj udando- os a encont rar soluções efet ivas para recuperarem sua dignidade e respeit abilidade recíproca.

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