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4 The classifying space for the Cantor groupoid

4.2 Level expansions

Argumenta-se que a prática da tradução reforça a compreensão e a interiorização do funcionamento da linguagem, das similaridades e diferenças no funcionamento dos dois sistemas lingüísticos. Além disso, a tradução reavalia o papel da LM como suporte para a aquisição de L2 e a aprendizagem da LE como meio de otimização da língua e da cultura maternas.

Quando bem empregada e bem dosada, a tradução ajuda no relacionamento aluno-professor, quebrando a rigidez e a assimetria de poder habituais em salas de aula, proporcionando um espaço maior para troca de visões de mundo e experiências, com conseqüente envolvimento do aluno, principalmente quando os textos e os assuntos são autênticos e atuais, despertando o interesse dos aprendizes.

Nesses moldes, a tradução revela-se um meio eficaz de aquisição da LE e de formação geral do aluno decorrente dos processos cognitivos e interativos ativados durante a operação da tradução. A tradução pode influenciar positivamente a cultura de ensinar e de aprender do professor e dos aprendizes da LE. O exercício da tradução, quando praticado em grupo, contribui para a percepção e apropriação ou reavaliação de

Os professores se beneficiam ao preparar suas aulas, buscar textos, traduzi-los, analisar os pontos de divergência dos padrões lingüísticos e lexicais em ambas as línguas, sendo exigido um conhecimento razoável das duas culturas para contrastá-las e compará-las. A oportunidade de estar exposto a diferentes tipos de informação, requeridos de qualquer educador no mundo globalizado, promove o contato intercultural e a ênfase na negociação de significados, em contraste com o foco na forma da língua.

Aos alunos cabe, além da aquisição gramatical e vocabular, buscar um bom nível de aprendizado que prevê a interação da língua de chegada com o papel de apoio que a LM exerce no processo de ensino-aprendizagem da nova língua15 conforme abordado na seção 1.1.1.

Ademais, envolve uma análise dos vários aspectos dos significados nas duas línguas, possibilitando ao aluno descobrir que nem sempre existe uma equivalência exata, e que, ao avaliar as possibilidades e escolher a melhor solução, ele pode desenvolver sua capacidade de raciocínio, precisão e clareza, ressaltando que sua língua e sua cultura também têm espaço e importância na aprendizagem da LE.

Costa (1988, p. 289) afirma que

Traduzir um texto é uma das melhores maneiras de conhecer sua estrutura e os meios igualmente um meio privilegiado de conhecimento das características e das limitações do código lingüístico materno. As peculiaridades de nossa cultura aparecem mais claramente no trabalho comparativo envolvido em toda operação tradutória. Os alunos devem, acima de tudo, aprender a traduzir idéias e não palavras.

Neste sentido, a tradução constitui um exercício mental útil que desenvolve a habilidade do aluno de usar a língua de forma acurada, de se expressar claramente e de alcançar maior flexibilidade e estilo, ao lidar com a língua (RIDD, 2000).

À medida que o aprendiz de LE entende a cultura dos falantes da língua-alvo, ele aprenderá, por comparação e contraste, a compreender melhor sua própria cultura. É relevante esclarecer diferenças básicas entre as duas culturas ao aprendiz de LE a fim de que atitudes, costumes, comportamentos e pontos de vista sejam melhor compreendidos ao serem comparados com sua cultura.

A tradução é um fenômeno mental que engloba associações e memorização, iniciando em um processo individual que pode se transformar em um processo de interação coletivamente compartilhado para a solução e negociação de sentidos.

15O uso da LM e sua contribuição positiva como papel de apoio na aprendizagem de LE é um tema abordado por vários estudiosos, dentre os quais destacamos: Atkinson (1987); Ringbom (1987); Harbord (1992); Hopkins (1988); Deller e Rinvolucri (2002); Auada e Fonseca (2003); Mello (2004); Pina (2004), dentre outros.

O saber acumulado, as experiências dos indivíduos e a diversidade dos sistemas lingüísticos são variáveis que tornam a tradução um ato de comunicação social intencional. O ato tradutório requer do aprendiz/tradutor criatividade, imaginação e intuição, já que ele também é um leitor que lê e interpreta o texto mediante sua subjetividade. É uma atividade que, adequadamente encaminhada, envolve comunicação real e promove a aprendizagem em um ambiente de baixa ansiedade que permite aos alunos mostrarem suas capacidades, conhecimentos, opiniões e experiências de mundo.

Quando utilizada apropriadamente, a tradução realça e integra as quatro habilidades e desenvolve três qualidades essenciais para qualquer aprendizado de línguas: flexibilidade, clareza e precisão (DUFF, 1989)16.

Elias (2005, p. 51) nos adverte para a complexidade que envolve o processo tradutório. A autora afirma que os caminhos percorridos na tradução vão além do contato com dois sistemas lingüísticos diferentes, do entendimento de como a tradução opera na interação e como ela pode acontecer quando dois códigos estão em contato e segue até que o tradutor transforme o texto fonte em comunicação na língua de chegada. Hurtado Albir (1999, p. 12) aborda a tradução “como processo mental, como operação textual e como ato de comunicação complexo”17, chamado pela autora como

“enfoque integrador da tradução”18. Ademais, prevê o uso da língua como forma de comunicação na perspectiva do ensino comunicativo do processo de aprender e de ensinar línguas, conforme orientam Almeida Filho (1986, 1993, 1997, 2001-2004) e Widdowson (1979, 1984, 2005).

Ridd (2003) afirma que os conceitos e princípios da AC não contradizem os da tradução, possibilitando sua integração às demais habilidades lingüísticas no ensino de LEs. De acordo com o autor, “a tradução empregada de forma consciente e criativa pode enriquecer o ensino nos moldes da abordagem comunicativa sem de maneira alguma contrariar os postulados e as filosofias que a cercam”.

Ridd (2000) apresenta ainda outras justificativas para o uso da tradução no ensino de línguas: a) ela possibilita ao aluno perceber, através da comparação e contraste, as peculiaridades de sua língua e da que está aprendendo; b) fora da sala de

aula espera-se que alguém que aprendeu uma língua estrangeira seja capaz de traduzir dela para sua LM e vice-versa, inclusive e principalmente no ambiente de trabalho; c) o uso da tradução pode ser uma boa oportunidade para o professor trabalhar material autêntico e desafiar intelectualmente seu aluno, além de d) resultar em melhor domínio de novo vocabulário.

Lavault (1998, p. 118) apresenta como benefícios do uso de tradução “a formação intelectual, o desenvolvimento da lógica e clareza, a aprendizagem da precisão e a expressão da criatividade19”.

Apresentamos, no quadro a seguir, alguns resultados de pesquisas que associam a tradução ao ensino-aprendizagem de inglês como LE, alinhadas com a proposta de estudo desta pesquisa. A intenção é apresentar usos benéficos da tradução já comprovados:

1. Checchia (2002, p. 135): “Nos ambientes observados, onde a habilidade tradutória foi introduzida, notaram-se atitudes positivas em relação à atividade. Os obstáculos detectados podem ser explicados pelo desconhecimento do novo conceito de uso da tradução, ainda não suficientemente utilizado para que seus benefícios se tornem conhecidos”.

2. Cervo (2003, p. 208): “A tradução tem um papel preponderante a desempenhar na aula de LE: a) como meio de integração da AC ao ensino de LEs; b) como estratégia para construir atividades nas quais as experiências com e na língua-alvo são usadas; c) como instrumento de conscientização da natureza da linguagem; d) como meio de aperfeiçoamento do nível lingüístico e de enriquecimento da educação global do aprendiz; e) como um modo de implementar conteúdos interdisciplinares”.

3. Hargreaves (2004, p. 97): “Concluindo, a tradução deve, sim, retornar à sala de aula, e pela porta da frente. Na verdade, ela nunca saiu – sempre esteve presente, acompanhando os alunos e resolvendo seus problemas de comunicação com professores que insistam em não admitir sua existência. Trata-se, portanto, de voltar a utilizar a tradução com objetivos pedagógicos e culturais, de forma integrada ao ensino e não concorrente com outras atividades”.

4. Elias (2005, p. 58): “A inserção da tradução vista por um prisma diferente e vivido em uma época contemporânea oferece muito mais benefícios do que se imagina. Primeiro, oferece um insumo natural, autêntico e variado, melhorando o poder de expressão do aprendiz. Segundo é um método interativo se bem aplicado. Por último, a tradução favorece o desenvolvimento de outras habilidades [...] e pode ser usada efetivamente para ensinar vocabulário, expressões idiomáticas, estruturas gramaticais e sintáticas, enquanto age diretamente nas funções comunicativas da linguagem utilizadas pelos alunos”.

19“[...] la formation intellectuelle, lê développement des qualités de logique et de clarté, l’apprendissage de la précision et l’expression de la créativité”.

5. Ribeiro (2005, p. 79-80): “Quase 70% dos sujeitos de pesquisa consideraram que a tradução proporcionou grande interação dentro de sala de aula, mostrando o alto grau de socialização que tal atividade proporciona. Os dados mostram, portanto, que o aluno tem a chance de ser mais participativo no processo de ensino/aprendizagem de LE quando lhe é dada a chance de confrontar as duas línguas com a qual lida, tendo nos exercícios de tradução e nos conseqüentes contrastes que deles surgem a oportunidade de compartilhar seus conhecimentos e experiências com os demais participantes do processo (seus colegas e o professor)”.

6. Fracaro (2005, p. 119): “O efeito benéfico do uso da tradução em atividades na sala de aula se fez sentir principalmente no domínio afetivo dos alunos. A auto-estima, até onde se pode captá-la, melhorou significativamente. Essa melhora, sentida pelos próprios aprendizes e observada pela pesquisadora, ficou bem visível nos depoimentos dados no final do curso por alguns alunos”.

7. Bomfim (2006, p. 37): “Cabe ressaltar que a tradução não contradiz o comunicativismo, mas pode ser tão comunicativa quanto as outras quatro habilidades. [...] a tradução é uma tarefa que sempre desafia a capacidade e a criatividade do aprendiz e do professor, pois não existe uma única resposta certa, mas, isto sim, opções mais e menos apropriadas ao propósito comunicativo que se estabeleceu para a tarefa, que, como tal, exige soluções de problemas”.

8. Silveira (2007, p. 45): “A tradução a ser incorporada didaticamente ao processo de ensino/aprendizagem de uma LE é a tradução como processo mental dirigido a um propósito comunicativo. Sendo a tradução, por si só, de natureza comunicativa, ela envolve a interpretação de uma mensagem contextualizada e a sua reelaboração em outra língua, mantendo, na medida do possível, o seu sentido”.

Quadro 1 – Usos benéficos da tradução

Em linhas gerais, os efeitos positivos do uso de tradução apontados pelos pesquisadores envolvem a motivação e a auto-estima dos aprendizes que passam a desempenhar um papel mais ativo na aprendizagem de LE, o papel de facilitador exercido pelo professor, comparação das línguas e dos seus aspectos culturais e desenvolvimento das habilidades lingüísticas nos níveis fonológico, lexical e morfossintático.