Anchite e Issler (2001) testam a racionalidade e previsibilidade no mercado brasileiro de ações a partir das duas versões do MVP desenvolvidas em Campbell e Shiller (1987, 1988a,b) e Campbell (1991), tornando-se uma contribuição-chave à literatura empírica brasileira em Finanças. O foco principal de Anchite e Issler (2001) relaciona-se à racionalidade na formação do Ibovespa, aplicando-se técnicas de análise multivariada como o arcabouço VAR para testar os dois tipos de fórmulas de valor presente: retornos constantes e variantes no tempo. Diferentemente de trabalhos anteriores com dados brasileiros, a utilização de técnicas multivariadas permite ampliar o conjunto de informação utilizando-se não somente de preços de ações, mas também de dividendos e taxa de juros sem risco como variáveis que possam explicar e prever retornos. Anchite e Issler (2001) analisam que a diferença é importante, dado que pode haver diferenças entre a previsão condicional de uma série, usando-se apenas a informação contida em seu passado, da previsão condicional quando se amplia o conjunto de informação, utilizando-se informações passadas e outras séries condicionantes, como a existência de causalidade no sentido de Granger (1969).
Utilizaram-se séries de preços e dividendos do Ibovespa em frequência trimestral de 1986.1 a 1998.4. Os dados foram deflacionados pelo índice geral de preços IGP-DI com base em dezembro de 1998. A série de dividendos foi construída agregando-se os dividendos pelas
ações que compõem o Ibovespa ponderados pelos seus respectivos pesos no índice. Outros tipos de pagamentos das empresas, como bonificações, também foram incluídos na série de dividendos, de forma a captar a ideia de fluxo de caixa pago a um agente econômico que retenha uma unidade do Ibovespa. Adicionalmente, Anchite e Issler (2001) utilizaram séries de taxas de juros para testar o modelo de Razão Dividendo-Preço proposto em Campbell e Shiller (1988a,b), também deflacionada pelo IGP-DI.
Em relação aos resultados, a partir de um conjunto de testes empíricos como teste de Wald nos coeficientes do VAR, causalidade de Granger, razão unitária das variâncias, Anchite e Issler (2001) concluem que há racionalidade do mercado brasileiro de ações, dado que não se pode rejeitar a grande maioria das implicações testáveis dos MVP. Anchite e Issler (2001) verificam que isso ocorre tanto nos modelos que utilizam o retorno constante quanto variável no tempo, embora os primeiros não tivessem tido tanto suporte empírico quanto os últimos. Conforme Anchite e Issler (2001), tal resultado não é surpreendente, uma vez que os primeiros são baseados em hipóteses menos realistas do que aquelas em que se baseiam os últimos. Um dos casos em que a aderência ao MVP não foi perfeita para ambos os modelos foi nos testes de causalidade de Granger, uma vez que o resultado do teste é inconclusivo, apresentando causalidade bidirecional entre preços e dividendos. Adicionalmente, houve rejeição em um dos testes de razão unitária de variâncias (modelo com retornos constantes no tempo).
Mais recentemente, Morales (2006) emprega uma metodologia que objetiva compatibilizar a previsibilidade de retornos com a existência de um mercado eficiente sob um contexto de expectativas racionais como em Lucas (1978) por meio de técnicas econométricas de análise multivariada, sendo precisamente a modelagem VAR como em Anchite e Issler (2001). Os dados são analisados para o índice Bovespa e um índice ponderado pela capitalização de mercado das empresas brasileiras.
Desta forma, os dados utilizados em Morales (2006) consistem em observações com frequência trimestral de preços e dividendos normalizados em relação aos dois índices citados e deflacionados pelo IGP-DI. Morales (2006) ressalta que a construção da série de preços leva em consideração o preço de fechamento de cada papel no último pregão de cada trimestre na amostra. A série de dividendos captura os proventos distribuídos ao longo do período e, portanto, anteriores ao preço utilizado. O índice ponderado pela capitalização de mercado das empresas utilizado é composto por 131 ações negociadas na Bovespa antes de 1986 até o final de 2005. Conforme Morales (2006), a necessidade de se construir este índice evitou que houvesse grandes mudanças na amostra ao longo do tempo e que isto gerasse alguma
distorção no padrão de retorno das séries. Foi estabelecida uma restrição sobre classe de ações da mesma empresa, se ação ordinária ou preferencial, que privilegia a classe com maior volume de negócio no período retroativo de um mês. A composição da carteira utilizada por Morales (2006) obedece à regra de que a participação da ação no índice deve ser proporcional à capitalização de mercado da respectiva ação.
Em relação aos resultados, Morales (2006) constata que o MVP à taxa de retorno constante foi rejeitado ao ser submetido aos testes econométricos. Conforme Morales (2006), inicialmente, existe a hipótese de que um mercado que se move de acordo com as expectativas racionais e, portanto, esta versão do MVP não forneceria apoio teórico à movimentação de preço das ações, nem ao comportamento de seus agentes. Morales (2006) supôs adicionalmente que o modelo não reflete de forma imediata a nova informação, não incorporando automaticamente o valor intrínseco de suas variáveis explicativas, pela ausência de competição no mercado acionário. Por outro lado, o modelo de valor presente à taxa de retorno variável não é rejeitado. Desta forma, o modelo é consistente com a hipótese de mercados eficientes na forma fraca, onde é impossível produzir retornos consistentemente superiores à carteira teórica de mercado, utilizando estratégias baseadas nos preços passados. Morales (2006) analisa que a incapacidade do mercado e de gerar excessos de retorno dado que todos s agentes possuem acesso à mesma informação fornece suporte à gestão passiva em detrimento da gestão ativa de portfólios.