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4. RESULTS

5.5 Lessons learned

De acordo com um comentador34, após ter escrito a sua última obra, que trata do assunto, nos próximos livros o filósofo dinamarquês volta a analisar tanto um (a estética) quanto o outro (a ética). Ainda segundo Collins (1953), na obra A Repetição (1843), ele tece crítica à vida estética; em Temor e Tremor, reafirma que o estádio ético,

33 Essa crítica é encontrada principalmente na obra Ponto de Vista Explicativo da Minha Obra como

Escritor (1986), onde defende que sua vida inteira esteve sempre pautada no estádio religioso. 34 James Collins em El Pensamiento de Kierkegaard (1986).

em si mesmo, não é suficiente para compreender o sentido da vida, por isso é preciso a admissão de um terceiro, o estádio religioso. Então, ele começa a desenvolver a teoria das três esferas da existência, com ênfase na necessidade do terceiro ‒ religioso. O tema é colocado como uma dedução que serve de instrumento para interpretar a existência. Por isso, é inevitável o trânsito entre os estádios, pois exige no final uma fixação no estádio religioso como base para que o trânsito efetivo seja somente entre os primeiros dois estádios. Assim, o estádio religioso torna-se suporte ou alicerce para que o indivíduo se equilibre sobre a existência, de modo que supere a angústia da relação com Deus estabelecida pela transgressão de Adão. Desde Adão35, o sentido teleológico do homem é voltar-se para Deus. Mas como fazê-lo? Nem o estádio estético nem o ético conseguem realizar a façanha. Primeiro porque o estádio estético somente cuida de satisfazer as aparentes necessidades do “eu”; enquanto o estádio ético busca agradar, ou melhor, restaurar o “eu” do outro, isto é, na relação com o próximo ao mesmo tempo em que procura voltar-se para Deus. Mesmo com a boa intenção, o estádio ético falha, porque não tem em si mesmo o suporte adequado para chegar-se de novo a Deus, pois o pecado minou as energias espirituais e o indivíduo não obtém força suficiente e o pecado prevalece separando-o não somente do outro, o semelhante, mas principalmente, e o que é pior, faz prevalecer a separação entre ele o Criador. Aí Kierkegaard introduz o estádio religioso. Chegando ao estádio religioso, o indivíduo se depara com a possibilidade de “reatar” com Deus o relacionamento perdido, fonte da angústia de precisar reconciliar-se com Deus. Mas não se chega a esse ponto por meio de um processo gradativo, em que de modo suave o indivíduo passa do estético ao religioso, mas essa passagem é realizada pelo que Kierkegaard chama de “o salto”. Uma decisão livremente adotada pelo indivíduo, promovida pelo sentimento de limite, levado por certos estados de ânimo no indivíduo que caiu no fundo de um dos estádios inferiores36 e, chegado ao limite extremo, sentiu-se atraído pelo estádio ético; aí ele consegue dar “o salto” da fé para alcançar o estádio superior. É por isso que Abraão é elogiado pelo filósofo que o chama de “o cavaleiro da fé”. E, ao elogiar Abraão pelo seu ato heróico, Kierkegaard faz a seguinte gradação, pertinente à valoração dos estádios. Ele escreve:

35 Referido na obra O Conceito de Angústia e remete aos primórdios da história humana no tocante às consequências do pecado.

36Inferiores em comparação com o estádio religioso, colocado pelo filósofo de Copenhague como sendo

Nada é perdido dos que foram grandes; cada um a seu modo e segundo a grandeza do objeto que amou. Porque aquele que amou a si próprio foi grande pela sua pessoa; quem amou a outrem foi grande dando-se; mas o que amou a Deus foi o maior de todos. A história celebrará os grandes homens, mas cada um foi grande pelo objeto da sua esperança: um engrandeceu-se na esperança de atingir o possível; outro na esperança das coisas eternas – mas aquele que quis alcançar o impossível foi, de todos, o maior (KIERKEGAARD, 1979, p. 202).

Kierkegaard propõe uma relação de superioridade e inferioridade entre os estádios, culminando no estádio religioso, de modo a alcançar a máxima realização do indivíduo, ao declarar e comprovar seu amor supremo, o amor a Deus. Nesse ponto, vale realçar as diferenças entre os estádios; o que remete a um caráter elucidativo. Estas diferenças consistem basicamente no fato de que o estádio estético é conduzido sem a presença de resignação – não tem qualquer ato de resignação da parte do esteta; por outro lado, o estádio ético requer certa resignação, mas uma resignação puramente humana e, portanto, limitada à natureza humana manchada pelo pecado. Embora o ético lute para alcançar o infinito, dificilmente conseguirá, pois seus recursos são escassos e se esgotarão antes que se pise o último degrau da escada, terminando em angústia, frustração e desespero. Aqui temos a explicação que advém do que se nos oferece Kierkegaard em sua obra de 1843, O Desespero Humano – doença até a morte – em que de acordo com o capítulo I da obra, é “doença de espírito, do eu, o desespero pode como tal tomar três figuras: o desespero inconsciente de ter um eu (o que é verdadeiro desespero); o desespero que não quer, e ‘o desespero que quer ser ele próprio’” (KIERKEGAARD, 1998, p. 318), pois é somente encarando o próprio eu que ocorre “o salto” para o estádio superior. O estádio religioso, tal como o estádio ético, exige resignação. Porém, não uma resignação puramente humanista, mas estritamente dependente de Deus. Por isso, essa resignação é chamada de “resignação infinita”; e o dinamarquês deixa isso bem claro ao afirmar: “A fé não constitui, portanto, um impulso de ordem estética; é de ordem muito mais elevada, justamente porque pressupõe a resignação” (KIERKEGAARD, 1998, p. 23).