3. VIRTUAL OPERATION IN ICT
3.2 Lessons from the Internet
Conforme já dissemos, os conceitos de AC (Análise de Conteúdo) serão utilizados para selecionar parte do conteúdo sobre a Copa do Mundo publicado pelas revistas,
63 categorizar e analisar as inferências contidas nas matérias. O objetivo é procurar que textos ou discursos estão escondidos por trás das palavras e imagens a respeito do Mundial de 1950 veiculadas pelas revistas, identificando todas as manifestações de brasilidade contidas nestes textos.
A matéria-prima da AC pode ser qualquer material produzido no campo da comunicação, seja ele verbal ou não-verbal. Jornais, revistas, programas radiofônicos ou televisivos, cartas, propagandas, fotos, vídeos, informes empresariais, etc. Todavia os dados criados a partir dessas fontes chegam ao pesquisador em estado bruto, como diz Moraes (1999), "necessitando, então ser processados para, dessa maneira, facilitar o trabalho de compreensão, interpretação e inferência a que aspira a análise de conteúdo" (p.9).
Ele continua, apontando que em qualquer mensagem escrita "podem ser computadas letras, palavras e orações; podem categorizar-se as frases, descrever a estrutura lógica das expressões, verificar as associações, denotações, conotações e também podem formular-se interpretações psiquiátricas, sociológicas ou políticas" (p.9). Daí a importância da análise realizada pelo pesquisador.
Inicialmente, pode-se dizer que esta metodologia de pesquisaé uma técnica refinada, que exige dedicação, rigor e intuição, principalmente na hora de definir as categorias que serão analisadas. A AC surgiu nos Estados Unidos, na década de 1940, por meio de autores como Lazarsfeld e Berelson, e era, inicialmente, uma técnica utilizada essencialmente em análises quantitativas de textos jornalísticos e de propaganda. O método teve bastante utilidade para o governo norte-americano, que buscava encontrar, nos conteúdos veiculados pela mídia de outros países, possíveis posições ideológicas contrárias às práticas dos Estados Unidos, especialmente no contexto político após a Segunda Guerra Mundial. Com o passar dos anos, no entanto, a AC passou a ser utilizada em outras áreas bem diferentes da comunicação, e até hoje é uma técnica presente em campos como saúde e administração.
Em linhas gerais, podemos afirmar que, na AC, o texto é um meio de expressão do sujeito (no nosso caso, os textos das revistas são a expressão do que aquele veículo de comunicação pretende destacar), onde o analista busca categorizar as unidades de texto (palavras ou frases) que se repetem, inferindo uma expressão que as representem. Essa análise, ao conduzir o pesquisador a descrições sistemáticas do objeto de estudo, ajuda a reinterpretar as mensagens, a descobrir novas mensagens e a compreender seus significados num nível que vai muito além de uma leitura comum.
64 Para esta dissertação, vamos nos basear nos conceitos da Análise de Conteúdo propostos por Laurence Bardin (1977). A autora propôs uma revisão da metodologia criada pelos norte-americanos. Para ela, mais do que constituir uma metodologia de pesquisa para realizar a contabilização e a categorização de dados, a AC deve ser usada para descrever e interpretar conteúdos de todos os tipos. Bardin a considera muito mais do que uma simples técnica, representando uma abordagem com características próprias e que conduz a descrições que ajudam a compreender significados que vão além daqueles encontrados em uma leitura comum. Bardin define a Análise de Conteúdo como:
Um conjunto de técnicas de análise das comunicações visando obter por procedimentos sistemáticos e objectivos de descrição do conteúdo das mensagens indicadores (quantitativos ou não) que permitam a inferência de conhecimentos relativos às condições de produção/recepção (variáveis inferidas) destas mensagens (BARDIN, 1977, p. 44)
Bardin introduz um elemento fundamental dentro da AC, a chamada inferência, que pode fazer com que essa metodologia seja também utilizada em pesquisas qualitativas. Para ela, as inferências atuam na área do "não dito" ou do "não expresso", ou seja, possibilitam desvendar uma intenção escondida em um enunciado. Segundo a autora, o conceito de inferência caracteriza-se por ser o momento em que o pesquisador, com base nas informações já colhidas sobre o objeto de estudo e sobre o meio em que ele foi produzido, passa a fazer leituras implícitas e críticas sobre os conteúdos analisados.
Daí a importância do levantamento feito nesta pesquisa até aqui, que foi o de conhecer, mesmo que de maneira rápida, o momento que o Brasil vivia em todos os aspectos: econômico, político, social e até mesmo futebolístico. Da mesma maneira, será essencial, no capítulo seguinte, conhecermos mais sobre a história e as características das quatro revistas, e quantificarmos o conteúdo sobre a Copa de 1950 veiculado por elas. Agindo assim, teremos mais capacidade e mais ferramentas para chegarmos a qualquer conclusão a respeito do posicionamento destas revistas frente ao Mundial e, consequentemente, o posicionamento delas em relação ao país e ao povo brasileiro.
Voltando à Análise de Conteúdo, os estudiosos apontam que existe uma grande diferença entre as duas abordagens da AC. Na quantitativa, tal como nasceu essa técnica nos Estados Unidos, a Análise de Conteúdo permite que se trace uma frequência das características que se repetem no conteúdo do texto. Já na abordagem qualitativa, a metodologia considera "a presença ou a ausência de uma dada característica de conteúdo ou
65 conjunto de características num determinado fragmento da mensagem" (p. 54), ou seja, ela pode revelar discursos que não estavam explícitos.
De fato, na sua evolução, a metodologia foi questionada por alguns estudiosos, que entendem que ela oscila entre o rigor da suposta objetividade dos números, porcentagens e médias, e a exagerada subjetividade na interpretação das informações por parte dos pesquisadores. No entanto, a abordagem qualitativa da AC tem ganhado terreno nas pesquisas e vencido essa desconfiança, utilizando a indução e o rigor nas análises como ferramentas para se compreender de maneira mais ampla e profunda os fenômenos investigados.
Portanto, a AC oferece ao campo da comunicação ferramentas necessárias para a análise do conteúdo contido nos meios de comunicação, como são as quatro revistas selecionadas para esta pesquisa.
Não existe um método pronto para se aplicar a Análise de Conteúdo, mas há algumas regras e etapas básicas que devem ser seguidas para que o resultado seja satisfatório. São caminhos que garantem a neutralidade científica para que, ao realizar as análises, o pesquisador não imprima nelas algumas compreensões subjetivas. Isso significa que, caso os dados e etapas sejam seguidos, se o mesmo estudo for feito por dois ou mais pesquisadores, os resultados serão semelhantes.
Na proposta de análise que criou, a autora diz que o pesquisador, ao avaliar os dados coletados em seu objeto de estudo a partir da perspectiva da AC, pretende, em última instância, procurar o texto que está escondido atrás de outro texto, ou seja, um conteúdo ou uma mensagem que não está aparente já na primeira leitura e que, portanto, necessita de uma metodologia para ser descoberto.
Essa metodologia desenvolvida por Bardin e largamente utilizada nas pesquisas em comunicação envolve três fases: a pré-análise; a exploração do material; e o tratamento dos resultados, a inferência e a interpretação dos dados.
Podemos definir que a primeira etapa, a pré-análise, é a fase da organização do material e tem por objetivo escolher os documentos que serão submetidos à análise, sistematizando o material para que o pesquisador possa, ainda dentro desta etapa, formular as hipóteses e elaborar os indicadores que irão fundamentar a interpretação final dos dados. A pré-análise é constituída de quatro etapas: (a) leitura flutuante, que consiste em estabelecer contato com o material a analisar e "conhecer o texto deixando-se invadir por impressões e orientações" (p.122); (b) escolha dos documentos, o que significa a demarcação do que, de
66 fato, será analisado dentro de todo o material recolhido; (c) formulação das hipóteses e dos objetivos, ou seja, afirmação provisória que nos propomos verificar com os procedimentos da análise e a finalidade desta análise; (d) referenciação dos índices e elaboração de indicadores por meio de recortes de texto nos documentos de análise.
A segunda fase, chamada exploração do material, é considerada a mais longa de todo o processo da AC. É o momento da codificação, ou seja, é a hora de transformar os dados coletados em informações organizadas, codificadas e classificadas, permitindo que se realize a terceira e última fase da metodologia. Nesta segunda etapa, o pesquisador define as categorias (sistemas de codificação) e identifica as unidades de registro e as unidades de contexto, que permitem a unificação do material coletado e a descrição analítica dos dados. Juntas, codificação, classificação e categorização possibilitam uma maior riqueza das interpretações e inferências na terceira fase, confirmando ou não as hipóteses previamente levantadas.
Portanto, como acabamos de citar, é na terceira e última fase da AC que são identificadas as inferências, que nada mais é que o momento em que o pesquisador passa a fazer leituras implícitas e críticas sobre o conteúdo analisado. Segundo Bardin, é o momento da intuição, da análise reflexiva e crítica.
Por mais que haja a necessidade de respeitar as fases e regras durante a utilização da Análise de Conteúdo, vale salientar que ela não deve ser considerada como algo rígido ou um modelo exato. Ele pode ser adaptada de acordo com o objeto de estudo do pesquisador. A própria Bardin deixa claro que sua proposta se situa entre o rigor da objetividade e a riqueza da subjetividade.
Nesse sentido, essas características da AC justificam a sua utilização como metodologia nesta dissertação, pois ela oferece ao campo da comunicação mecanismos adequados que possibilitam a análise do conteúdo das mensagens veiculadas pela mídia – no nosso caso, as quatro revistas semanais. Assim, poderemos diagnosticar, por exemplo, se existe ou não uma quebra no discurso de brasilidade e nacionalismo das publicações quando a seleção brasileira é derrotada pelo Uruguai e, consequentemente, perde o título que parecia tão próximo de ser conquistado, frustrando torcedores e imprensa.
Moraes revela que há muitas maneiras de categorizar os objetivos de pesquisas realizadas utilizando AC. Segundo ele, historicamente há pelo menos seis categorias, que levam em conta características do objeto de estudo, o contexto em que as informações foram produzidas e as inferências pretendidas. Essas categorias se baseiam no clássico modelo de
67 comunicação criado por Laswell, a partir das seis questões tão conhecidas pelos estudiosos da área: 1) Quem fala?; 2) Para dizer o que?; 3) A quem?; 4) De que modo?; 5) Com que finalidade?; 6) Com que resultados?. Assim, ao direcionar a análise para uma dessas seis questões, o pesquisador terá objetivos diferentes. E escolher uma destas categorias não implica desconsiderar as outras. Moraes indica que as pesquisas podem se direcionar para duas ou mais destas questões.
Com base nesta categorização, esta pesquisa vai focalizar o item 5. Ao analisarmos "com que finalidade?" as revistas utilizaram determinado termo para se referir à Copa do Mundo (ou ao brasileiro, ou ao estrangeiro), vamos procurar as intenções com que se emitiu aquela mensagem, sejam elas manifestas ou ocultas.
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4. CAPÍTULO III - DESCRIÇÃO DO OBJETO DE ESTUDO E LEVANTAMENTO