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A construção das comunidades de capoeiristas é também tema de debate desta tese e o dilema que expomos aos leitores. Advoga-se, na presente pesquisa, que o processo de transnacionalização da capoeira para fora do Brasil, em particular na Europa, fez-se pela construção da comunidade de praticantes e de como essa comunidade foi sendo inventada e encarada no espaço local, bem como “nativizaram” a capoeira, tornando-a inteligível e popular fora do Brasil. Depara-se, contudo, com uma questão central: a de saber-se como essas comunidades se construíram, se existem de facto como comunidades e mesmo o que se pretende dizer com comunidades da capoeira.

44 É ponto assente entre os praticantes que fazem essa arte que existe uma “comunidade da capoeira” e que essa comunidade sendo local é imaginada como global. Que laços unem essas comunidades? Que ligação cimenta as relações entre os praticantes no interior dessas comunidades? Serão elas espaços fixos? Como se movem os indivíduos dentro dessas comunidades? Existirá uma só comunidade ou comunidades? São algumas das questões que tencionamos analisar.

Tomamos de empréstimo a proposição de Anderson (2005) quando nos fala das comunidades imaginadas. Não será despropositado de forma alguma pensar a capoeira, fenómeno de escala mundial, como uma comunidade ou comunidades, que se imaginam à semelhança de uma nação. Anderson explica a sua posição da seguinte maneira: “É imaginada porque até os membros da mais pequena nação nunca conhecerão, nunca encontrarão e nunca ouvirão falar da maioria dos outros membros dessa nação, mas ainda assim, na mente de cada um existe a imagem da sua comunhão” (Anderson 2005: 25). A década de 90, como veremos, transnacionalizou os grupos de capoeira e fez com que um grupo de praticantes pudesse existir e adequar- se a várias realidades nacionais, mesmo que possuindo um centro geográfico, nalguns casos, ancorado em território brasileiro, local de residência do mestre. Por si só um grupo forma uma comunidade de indivíduos que, a um nível simbólico, partilham símbolos, formas de jogar, repertórios de movimentos comuns, formas de organizar a orquestra que rege a roda de capoeira, bem como um mito e uma história comum que remonta a um fundador e uma linhagem. Imaginar a comunidade da capoeira envolve vários aspetos, em particular os de ordem temporal e espacial. Temporal, como dissemos, permitiu reconstruir a história do grupo como uma linhagem, à semelhança de uma origem familiar e consanguínea que remonta a um fundador, regra geral um mestre conhecido e de renome. Essa perspetiva biográfica do grupo faz ainda pensar num repertório de histórias que se tornam contos ou fábulas e narram situações de jogo e de roda de membros míticos no interior do grupo. Mesmo que boa parte dos membros do grupo não tenha visto ou tomado parte dos factos, recordam-no como uma memória viva e constitutiva da comunidade. A perspetiva espacial da comunidade enfatiza as ramificações do grupo, num país ou no mundo, ou mesmo a possibilidade de que, no mais remoto lugar do globo, possa ter alguém que pratica capoeira.

45 Falou-se anteriormente do fenómeno das novas tecnologias, diversos sites, blogs e das redes sociais que, em tempo real, permitem dar a conhecer o que ocorre em qualquer parte do mundo e possibilita aos praticantes formarem paisagens digitais, rodas virtuais onde se debate e joga, num sentido metafórico, outros jogos da capoeira. A esse respeito, Marchesi (2012) formula um conjunto de questões importantes que enfatizam a relação entre a globalização e a digitalização da capoeira e como a capoeira se modificaria nesse novo ambiente mediático. Por mediatização da capoeira Marchesi compreende os deslocamentos da capoeira no ciberespaço, enquanto a globalização representaria o seu deslocamento pelo mundo. A autora considera que esses dois processos são intrínsecos e concomitantes. Ao mesmo tempo que os capoeiristas transportavam a capoeira nos seus corpos, a fim de ensiná-la em diversas partes do globo, já a capoeira era transportada nos media, através da TV e do cinema.

Embora não seja o objeto central desta tese tratar dos sistemas digitais e mediáticos especificamente, reconhece-se que eles representam uma forma interessante de imaginar a comunidade e de vivê-la mesmo que, no seu modo mais efémero, pareça invisível, irrelevante e pouco significativa. Destacamos também que é uma reflexão central desta tese pensar que a globalização da capoeira deu-se não somente pela generalização das suas técnicas corporais, mas sobretudo e, principalmente, por formas subliminares à sua prática, atitudes e comportamentos que concernem às suas vivências e que perspetivamos como sendo a exportação da mandinga, aspeto que será melhor debatido mais adiante. Como veremos, a exportação da mandinga, entendida de maneira preliminar e para fins didáticos como o comportamento e trejeito específico do capoeira, fez se em grande parte pelo cinema.

De retorno à comunidade, Cohen (1985) faz-nos pensar sobre a dimensão simbólica que a constitui. O autor recorda-nos que trata-se de um conjunto de pessoas que partilham algo em comum que os diferencia de outros grupos. A comunidade implicaria assim similaridades e diferenças. Cohen, entretanto, centrar-se-ia nos limites territoriais (boundary), mesmo que simbólicos, dessas comunidades como espaços fixos e rígidos de vivência relacional do grupo. Contudo, uma crítica atenta a essa visão permitir-nos-ia dizer que o que caracteriza a comunidade, em particular as

46 que tratamos, não é a sua forma em jeito de território, mas sim as relações que se estabelecem e como são estabelecidas. Tão pouco as semelhanças entre os membros existem à partida e poderão até não ser criadas e não constituir razão, no interior das comunidades de praticantes de capoeira, para que se estabeleçam relações de proximidade. As relações de confiança e trocas serão, provavelmente, os agentes genéticos da constituição comunitária. Vejo particularmente as comunidades como círculos concêntricos em que, no centro, encontram-se mais semelhanças, ou melhor, busca-se uma maior similitude entre as ações, visões e perspetivas do coletivo e à medida que se afasta desse centro a partilha de traços comuns torna-se mais rarefeita e não necessariamente obrigatória. A existência de círculos mais afastados do centro não significa dizer que trocas significantes não sejam feitas nesses dois extremos, uma vez que as trocas e os intercâmbios dizem muito sobre a constituição das comunidades.

Deve recordar-se também que se trata, no caso das comunidades de capoeiristas, de uma comunidade de consumidores, daí a importância das trocas. Se por um lado as trocas podem ser materiais, como a venda de CD’s, DVD’s, instrumentos musicais ou outros, podem ainda ser de ordem imaterial, que concernem às formas de conceber as técnicas e jogos, formas de ver e de idealizar a capoeira e de combinar os seus diversos rituais.