4. Analyse
4.5 Pathos
4.5.2 Le pathos et la question rhétorique
O desejo de pertencimento aos supostos benefícios do inglês aparece no dizer do
sujeito-aluno, no entanto, ele não tem consciência disso. Opera-se aí a noção de
esquecimento formulada por Pêcheux (1995). Podemos identificar o desejo de pertencimento
e o esquecimento em alguns recortes discursivos que selecionamos.
Apesar de estar cursando o Ensino Fundamental, distante ainda do mercado de
trabalho, o adolescente, sujeito de nossa pesquisa, já expressa o desejo pela língua inglesa.
Isso ocorre via linguagem, pois os discursos sobre a globalização e sobre a exaltação da
língua inglesa que chegam até ele, despertam nele o desejo de pertencimento a esse mundo
globalizado, de integrar-se ao grupo dos bem sucedidos, dos que possuem boas colocações no
mercado de trabalho e que vivem no exterior. No imaginário do aluno, também está presente o
grande contingente de brasileiros que vive no exterior, ainda que clandestinamente, e que
exercem atividades que não fariam no Brasil; um exemplo disso são os trabalhos domésticos e
os trabalhos braçais, porém, geralmente essas pessoas são melhor remuneradas do que se
estivessem no Brasil exercendo suas profissões. Ainda sabendo das condições precárias e dos
riscos que estes brasileiros que vivem clandestinos em outros países atravessam, o aluno
continua tecendo elogios à língua inglesa. Não há nenhuma incisão de furo no dizer do aluno
que nos remetesse a um real que eventualmente pudesse fazer com que a relação com a língua
fosse outra.
No recorte 27, o aluno a06 expressa esse desejo de pertencimento a tudo o que a
língua inglesa representa:
(27) a06 - “Ah, pra ensinar o aluno a viver mais com, fora (incomp.) porque
hoje em dia a gente precisa, eu acho que precisa do inglês né?”
Ao enunciar hoje em dia a gente precisa, eu acho que precisa do inglês, o aluno a06
deixa flagrar aspectos da heterogeneidade que o constitui. O aluno demonstra ter noção de
que o inglês é uma necessidade hoje. Na constituição desse discurso e também desse sujeito
há uma série de discursos que atribuem vantagens a quem é proficiente em inglês, os quais,
deixam-se entrever nesse enunciado.
O aluno tenta mostrar para a pesquisadora que está a par do que acontece no mundo.
A locução adverbial hoje em dia e a forma verbal precisa possuem a função de determinar
não só o tempo presente, mas também possuem a função de situar o sujeito na ordem de sua
época, de inscrevê-lo nesta ordem. A forma verbal precisa modaliza necessidade e ao utilizá-
la o sujeito expressa ter a idéia de que o inglês é uma língua necessária. Ao enunciar que
precisa do inglês o sujeito se inscreve na formação discursiva do inglês como língua
necessária no mundo atual.
Vejamos as respostas dos alunos para a questão da utilidade do inglês nos recortes
discursivos 28 e 29:
(28) a04 – “Porque vai assim se eu for pra algum lugar que fala inglês eu já sei
falar.”
(29) a03 – “Como eu já falei né no trabalho, quando a gente vai assim viajar né pra
algum lugar a gente tem que saber falar com as pessoas é importante.”
Novamente o sujeito deixa flagrar aspectos da heterogeneidade constitutiva. Ao aludir
a viagens e ao saber se comunicar com as pessoas, o aluno a03 remete aos discursos da
utilidade do inglês, como língua que permite a comunicação entre os povos e também da
língua como ferramenta, nesse caso uma ferramenta para viajar e para se comunicar.
Os alunos a03 e a04 remetem à idéia de integração atribuída à globalização. No
entanto, essa idéia de integração é um acesso não garantido a todos. Pois especialmente no
Brasil, grande parte da população não possui acesso sequer a condições básicas de
sobrevivência humana. O aluno a04 utiliza o pronome pessoal eu duas vezes, reforçando a
idéia da inclusão, quer dizer, esse aluno sente-se incluído na ordem da globalização, sente-
se como tendo acesso a viagens para o exterior. Tanto o aluno a03 quanto o aluno a04
fazem uso do pronome indefinido algum seguido do substantivo lugar, o que denota a
naturalidade com que aceitam a presença do inglês no mundo, algum lugar que fala inglês
parece ter para o aluno a04 o mesmo efeito que todo mundo fala inglês.
O aluno a03, em no trabalho, faz referência ao discurso do inglês como língua útil.
Por duas vezes, a04 enuncia a gente; esse a gente quer dizer: os alunos, de classes menos
privilegiadas economicamente, oriundos da escola pública e que fazem coro com a
ideologia de que a globalização permite a todos o acesso ao mundo moderno, logo esse
enunciado remete à idéia de integração que é veiculada pelos discursos sobre a globalização,
os quais fornecem a idéia de pertencimento que desperta no sujeito-aluno o desejo de
pertencer a esse mundo. No recorte 29, a forma verbal tem modaliza dever e, enunciando
dessa maneira, o sujeito expressa aceitar a imposição de que deve saber se comunicar em
inglês para não ser excluído. Essa mesma idéia de imposição está presente em é importante,
ou seja, modaliza é necessário. A globalização impõe ao sujeito determinadas exigências
que ele julga ser necessário.
A idéia de desenvolvimento está fortemente ligada à globalização e é outro fator que
suscita o discurso da necessidade do inglês. Podemos comprovar isso no recorte 30:
(30) a03– “É importante porque assim aqui tem umas firmas grandes né, e aí
tem uns que precisam de vez em quando viajar pra fazer alguma coisa falar no
telefone com alguém de outro país né? Acho importante sim.”
O advérbio de lugar aqui, utilizado para informar que a cidade possui algumas
empresas de grande porte, denota que o progresso já chegou à cidade e isso implica a
necessidade do inglês, especialmente saber falar inglês. Verificamos isso na utilização do
verbo falar que remete ao discurso do inglês como língua que permite a comunicação e que
pertence à formação discursiva do inglês como ferramenta para fins pragmáticos. Nessa
formação discursiva está presente a visão de que a expansão do inglês é neutra. Pennycook
(1994) explica que nessa perspectiva o inglês é visto como língua que se desenraizou do seu
contexto original e, portanto, não é maléfica à cultura dos outros países. Essa visão, conforme
abordamos no capítulo III, é ingênua e perigosa porque ela faz manter o status da língua
inglesa e faz com que esse status seja aceito de forma natural.
O discurso do inglês como língua universal também está presente em alguém de outro
país. O pronome indefinido outro faz referência a qualquer país, ou seja, remete à idéia de que
com inglês é possível se comunicar com qualquer pessoa estrangeira. Desse modo, para o
sujeito está cristalizada a idéia de que o inglês é a língua mais utilizada no mundo todo, ou
seja, essa idéia já está naturalizada.
Além disso, o discurso da importância do inglês atua no que Guattari (2005) chama de
processos de subjetivação, que são os processos pelos quais são produzidas as subjetividades
conforme determinação do sistema capitalistístico: “Ora, o que interessa à subjetividade
capitalística não é o processo de singularização, mas justamente esse resultado do processo:
sua circunscrição a modos de identificação dessa subjetividade dominante” (GUATTARI,
2005, p. 80).
O papel dessas representações dos alunos sobre a língua inglesa é importante no
processo de produção de subjetividades, porque, conforme a nossa hipótese, no espaço
discursivo pedagógico de escola pública, as construções de subjetividade são resultantes mais
do imaginário produzido, o qual sustenta as representações dos aprendizes sobre a língua
inglesa, do que pelo contato com essa língua propriamente dita.
Essas representações sobre a língua inglesa constituem o imaginário desse aluno sobre
a língua inglesa. Esse imaginário está tão bem constituído que praticamente não se encontra
incisões de furo no simbólico no dizer desse aluno, conforme pudemos verificar na análise do
corpus da pesquisa.
A partir do já-dito sobre a língua inglesa, os alunos constroem representações sobre
essa língua, as quais produzem mais efeitos na sua subjetividade do que o contato que eles
possuem com a língua inglesa no contexto pedagógico da escola regular. Lembramos
também, que nos meios pelos quais o aluno entra em contato com o inglês na escola, que são,
geralmente, o professor e o livro didático, também está presente a representação da
hegemonia do inglês, reforçando ainda mais a sua subjetivação nos moldes da subjetividade
capitalística.
A representação do inglês como língua hegemônica parece ter se estabelecido a partir
dos significados que foram atribuídos aos discursos advindos da expansão do inglês e do
que ela é desistoricizada
16. Dessa forma, a língua inglesa se apresenta como imanentemente
boa e útil e por esses atributos constitui o imaginário do sujeito como língua hegemônica.
In document
Étude linguistique du discours de l'ONG Greenpeace France
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