Para além das relações sociais e profissionais apresentadas anteriormente, a Internet possibilita outro tipo de relacionamentos, bastantes mais íntimos. «Conhecer amigos, viver tórridos flirts, namorar, conversar, marcar encontros, „engatar‟, até às derradeiras fronteiras de casamento e do divórcio, a oferta de possibilidades da Internet é justamente do tamanho da procura por parte das almas aventureiras, ou mais prosaicamente solitárias, que tiram partido das benesses do ciberespaço» [Querido, p.19, 2005].
Quem frequenta o mundo virtual e os diferentes espaços que ele nos “fornece”, tem mais facilidades em iniciar uma relação. Podemos ir até uma sala de conversação on-line – chat – trocar mensagens por correio electrónico ou expormos as nossas ideias num fórum ou até num blogue; desta forma as pessoas vão conhecendo os outros aos poucos através da escrita. A Internet permite ao indivíduo afastar certos estigmas que no mundo real tornam a aproximação física difícil, como é o caso da aparência física; esta só passa a ter alguma relevância quando a relação passa a patamares mais íntimos. Mas quando isso acontece as bases que sustentam a relação já são suficientemente sólidas para haver algum desmoronamento. Tal situação transmite alguma segurança à pessoa que quer avançar numa relação, permitindo que o passo inicial para uma suposta aproximação seja dado com maior firmeza.
Um dos problemas que se pode levantar neste tipo de relações, prende-se com a questão de identidade. Muitos internautas preferem ocultar-se de forma parcial ou total, outros rejeitam de forma inequívoca essa possibilidade, até porque viver atrás de uma identidade que simplesmente não existe poderá trazer futuramente problemas. Fazendo uma alusão ao ditado popular, não há mentira que sempre perdure, quando a mentira ou o avatar é posto a nu, as consequências podem causar mossas irreversíveis, denegrindo a reputação do indivíduo em causa, provocando a perda da ligação que o une à comunidade podendo ser até expulso da
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mesma. A tarefa de ter de começar a construir tudo de novo torna-se num fardo difícil de ser suportado e que levará muito tempo.
Para Paulo Querido, apesar dos danos causados pelo “falhanço” de uma relação originária da Internet poderem ser uma incógnita e que preocupa os especialistas – nomeadamente os psicólogos e psiquiatras –, quem vive uma relação no imediato (sem estar a pensar no futuro) acha estimulante e atraente este tipo de relacionamento. Tudo porque há a tal liberdade de escolha que permite ao indivíduo optar pela comunidade ou pessoas que mais lhe dão mais confiança.
Uns dos temas que mais discussão tem levantado, quando se fala em relações originárias da Internet, são as falhas que estas têm, pois normalmente quem vai a um chat ou a um sítio de encontros à procura de um/a parceiro/a assumem serem livres. Ainda dee acordo com Querido não é menos verdade que os problemas inerentes às relações virtuais não são muito diferentes das relações do mundo real e ainda nenhum estudo provou que esta teoria esteja errada. Se quisermos apontar alguma diferença entre os dois mundos poderemos dizer que as vantagens vão para o virtual, isto porque aí não se fazem sentir muitas das complicações do mundo real. Não é mentira que o choque emocional recebido pelo falhanço da relação pode ser grande, mas os riscos de isso acontecer são os mesmos de uma relação iniciada num grupo de amigos, na escola, no trabalho ou numa discoteca.
Para muitos há mais um ponto forte a favor das relações “virtuais”, pois permite conhecer melhor o interior do potencial interessado antes de se partir para um envolvimento físico e mais sério.
Aqui, as mentalidades mais rebeldes ou independentes têm um bom raio de acção a seu favor, o que faz com que as capacidades de entrosamento intelectual saiam reforçados. Tal situação relega para segundo plano outros factores como o aspecto físico ou até mesmo o estatuto perante a sociedade.
Há cada vez mais casos de casais de namorados ou de conjugues cujas suas relações começaram no meio virtual. Mais adiante, no nosso trabalho, vamos expor dois casos de dois casais que se conheceram nas redes sociais e que iniciaram uma relação amorosa fortuita e feliz.
Quisemos saber o que pensavam os nossos inquiridos sobre o tema “relações virtuais”, fossem elas amorosas ou simplesmente de amizade. Como poderemos ver nos dois gráficos que se seguem, relações amorosas e relações de amizade respectivamente, as opiniões diferem entre os dois tipos de relacionamentos.
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Fig. 18 – Número de pessoas que diz ser possível ou não apaixonar-se
por alguém oriundo da Internet.
Fig. 19 – Número de pessoas que diz ser possível ou não criar-se
amizade por alguém que conheceu na Internet.
No que toca aos amores, 52% – 735 – dos inquiridos que responderam à respectiva pergunta dizem que é impossível uma pessoa apaixonar-se por alguém que está do outro lado do monitor. Os motivos para justificarem tal resposta, são:
Tabela 4 – Motivo dado por parte dos inquiridos para justificar o não acreditar nas relações
amorosas com origem na Internet.
Os restantes 24% – 676 – inquiridos que disseram que acreditavam nas relações amorosas com origem na Internet, justificaram as resposta da seguinte forma:
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Tabela 5 – Motivo dado por parte dos inquiridos para justificar o “acreditar” nas relações
amorosas com origem na Internet.
No que toca à amizade, o gráfico da figura 19 é claro. 76% – 1070 – dos inquiridos é da opinião que é perfeitamente possível criar-se laços de amizade com pessoas que se conhece da Internet.
Quisermos ir ainda mais longe e questionamos sobre como reagiriam se no caso de serem actualmente pais ou virem a ser futuramente e se fossem confrontados pelos seus filhos, dando-lhes a conhecer que estavam apaixonados ou que namoravam com alguém que teriam conhecido na Rede Global.
Tabela 6 – Como reagiriam os inquiridos perante a situação de um(a) filho(a)
ter um(a) namorado(a) originário(a) da Internet.
As respostas parecem claras, demonstrando o receio das pessoas no que toca às relações amorosas com gente conhecida através da Internet. Das 1397 respostas obtidas a esta resposta, 65% afirmam que alertava o seu progenitor para eventuais perigos que pudessem surgir dessa suposta relação.
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Atendendo ao conservadorismo da Igreja Católica em certos temas, aproveitamos para questionar o padre Júlio sobre o que ele pensava acerca das relações amorosas com origem na Internet. Para ele, este tipo de situação não lhe faz qualquer confusão desde que «haja aquilo que deve existir num relacionamento tendo em vista algo de mais sério: verdade, honestidade e conhecimento profundo de cada qual». Depois disto, também defende que haja um tempo de namoro na vida real para se verificar se as bases virtuais foram suficientes ou não.
Ele próprio tem um belo exemplo para nos contar sobre o assunto, uma vez que já celebrou um casamento de um casal que se conheceram através de um programa de mensagens instantâneas, o “ICQ”. Ele era português, ela era brasileira e apesar de terem um oceano a separá-los, não foi impedimento para se apaixonarem e de decidirem ir mais longe. Ela veio a Portugal para conhecer o seu amado. Verificaram que as bases criadas no virtual eram bastante sólidas para tomarem um rumo diferente nas suas vidas, foram ter com o padre Júlio e ele aceitou casá-los sem qualquer entrave. Como a família da noiva não tinha posses suficientes para vir até ao nosso país, transmitiu-se a cerimónia via Internet.