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O  Röstigraben  é  um  fenómeno  divisório,  sobretudo  de  âmbito  cultural,  que  separa  as  comunidades  francófona  e  germanófona  da  Suíça.  Esta  fissura  entre  as  duas  Suíças  tornou‐se  evidente  aquando  da  Guerra  Franco‐Prussiana  ou  da  I  Guerra  Mundial,  quando  ambas  as  comunidades adoptaram partidarimos com base no factor cultural e linguístico (Steinberg, 1996).  

Na  actualidade,  as  diferenças  culturais  que  separam  as  duas  maiores  comunidades  linguísticas  do  país  persistem.  Este  fosso  entre  as  duas  Suíças  tem  sido  marcado  por  vários  processos eleitorais, com um resultado antagónico entre as Suíças germanófona e francófona a ser  um resultante recorrente e, de certo modo, expectável. A divergência é especialmente acentuada  no que se refere a votações relativas às relações externas do país, e a população encontra‐se ciente  dessa  diferenciação.  Questionada  sobre  as  razões  do  Röstigraben,  a  população  Suíça  aponta  a  atitude  face  à  Europa  como  o  elemento  que  mais  separa  as  duas  comunidades81.  Mais  do  que  outras  questões  possivelmente  diferenciadoras,  como  as  económicas,  ecológicas  ou  de  política  interna (MIS Trend e L'Hebdo, 2009). 

 Após o histórico voto de 6 de Dezembro de 1992, onde se deu a recusa à adesão ao Espaço  Económico Europeu (EEE), duas Comissões criadas pelo Parlamento Federal Suíço encarregaram o  politólogo  Wolf  Linder  de  analisar  o  fenómeno.  Ao  examinar  as  164  votações  federais  que  decorreram  desde  1972  até  1992,  Wolf  Linder  concluiu  que  em  18%  dos  casos  houve  uma  divergência  entre  as  comunidades  germanófona  e  francófona  (Weibel,  1997:  35).  E  a  tendência  terá sido de alargamento desse fosso, especialmente na área das relações externas: 

“Cette polarisation entre les deux grands groupes et ces différences ce sont accrues  depuis  1972,  tout  particulièrement  lors  des  trois  dernières  consultations  ayant  trait  aux affaires étrangères.” (Weibel, 1997 : 35)   Caso insólito, mas recorrente, e que viria a ser explicado nos relatórios das duas Comissões  como resultado de uma visão díspar da historia do país e que se traduz no plano cultural das duas  facções:  “La Suisse alémanique affiche une vision très idéalisée de l’histoire du pays, tournée  vers un passé glorieux mythifié. La Suisse romande, en revanche, ne considère plus  81 A atitude face à Europa cria um fosso entre as comunidades Suíças para 65% da população germanófona e 71% da  população francófona (MIS Trend e L'Hebdo, 2009: 6). 

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aujourd’hui ces mythes comme des références” (Weibel, 1997 : 36) 

O  aspecto  cultural  tem  neste  ponto  um  papel  de  relevo  na  definição  da  atitude  face  ao  exterior, na medida em que tal representa a definição de uma atitude face aos principais países  vizinhos,  Alemanha  e  França.  Enquanto  a  Suíça  francófona  mantém  laços  culturais  bastante  próximos com França e a relação entre ambos se tem caracterizado por uma elevada estabilidade,  já  o  mesmo  não  acontece  no  outro  lado  do  Röstigraben.  Historicamente,  a  relação  entre  Suíços  germanófonos e Alemanha tem sido bastante conflituosa e a vontade de distanciamento por parte  da  população  Suíça  face  ao  gigante  vizinho  é  notória  (Weibel,  1997:  36).  Tal  caracteriza‐se  especialmente ao nível da língua alemã, com o Hochdeutsch (Alemão padrão) a ser cada vez mais  negligenciado pela população Suíça. “Le dialecte est la première langue du pays, parlée dans tous  les  registres  de  la  vie  quotidienne”,  notou  Ernest  Weibel  (1997 :  52).  A  utilização  dos  dialectos  alemães  Suíços  é  encarada  como  uma  emancipação  e  um  estandarte  nesta  afirmação  cultural  própria. Existe uma forte disparidade ideológica entre as duas regiões linguísticas no que se refere  ao apoio à integração europeia (Safi, 2010: 106). 

Jochen  Hille  (2007:  65)  defende,  aliás,  que  o  próprio  facto  de  a  mitologia  associada  aos  grandes heróis históricos Suíços, como Guilherme Tell, ser mais popular de entre as comunidades  germanófonas  poderá  ser  em  parte  explicativa  de  existir  um  maior  eurocepticismo  na  Suíça  alemã82. Nesse ponto, Kriesi et al (1999: 21) notam que:  “the national myths of the heroic past seem to resonate more in the Swiss‐German  part of the country, given that, until the early 19th century, the Swiss confederation  was essentially Swiss‐German‐speaking.”  A força do Röstigraben é de tal modo robusta que Ernest Weibel (1997: 38) não hesita em  apontar o factor linguístico como o factor de disparidade: “Lors du vote du 6 décembre 1992, la  langue a joué le rôle révélateur de différence”. Tal ficou expresso nos resultados dos vários cantões.  Os seis cantões francófonos ou de maioria francófona, juntamente com Basileia‐Cidade e Basileia‐ Campo,  votaram  a  favor  da  adesão  ao  EEE;  do  outro  lado,  os  quinze  cantões  germanófonos,  Grisões  e  Tessino  votaram  contra.  Assim,  nesta  votação,  os  cantões  francófonos  estavam,  na  realidade,  unânimes  a  favor  da  adesão,  mas  a  clara  rejeição  da  quase  totalidade  dos  cantões 

82  A  mitologia  Suíça  é  sobretudo  baseada  em  acontecimentos  occoridos  na  Suiça  alemã.  Anthony  Smith  (1992:  62) 

salienta que em Estados multiculturais existe uma tendência para transcender à Nação as mitologias e memórias da  comunidade étnica predominante.  

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germanófonos  acabaria  por  ditar  o  resultado  final.  Tal  divisão  tem  ficado  assente  ao  longo  das  várias  votações  efectuadas,  e  tem  sido  igualmente  expressiva  no  que  se  refere  à  Europa.  De  tal  modo que: 

“Il  apparaît  que  les  Romands  et  les  Alémaniques  n’ont  pas  la  même  vision  des  problèmes dès que l’on parle ou l’on fait référence à l’Europe” (Weibel, 1997: 44).    

Mas  as  próprias  divisões  internas  têm  evoluído,  e  o  Röstigraben  poderá  estar  a  perder  importância  para  novos  factores  divisórios  que  acentuam  de  forma  mais  vincada  diferentes  atitudes políticas. Na última década, não serão tanto as divergências entre regiões linguísticas que  marcam  o  paradigma  de  fragmentação  interna,  mas  a  dicotomia  cidade/campo,  com  as  áreas  urbanas a demonstrarem um espírito mais tolerante e adepto da mudança, em contraste com as  áreas  rurais,  tradicionalmente  mais  conservadoras  (Steinberg,  1996:  108).  Reflexão  que  Ernest  Weibel e o seu grupo de trabalho já faziam transparecer na sua análise do voto de 6 de Dezembro  de 1992. Conforme notaram:  

“Une analyse plus fine du scrutin du 6 décembre 1992 fait apparaître l’existence d’une  autre  fracture.  Celle‐ci  s’établit,  entre  autres,  entre  les  centres  et  les  périphéries  et  entre les régions endogènes et les exogènes. La Suisse du non est rurale, préalpine et  alpine, périphérique et pauvre. Elle est localisée dans les montagnes et campagnes.  Elle est dépositaire de l’identité suisse. Alors que la Suisse du oui se caractérise par un  habitat dans le Plateau. Elle est urbaine, industrieuse et « plutôt » riche. Le vote du 6  décembre peut se definir comme le vote de la Confédération de 1291 face à la Suisse  de 1992.” (Weibel, 1997 : 43)     

Também  Clive  Church  (2007:  2)  reconhece  que,  apesar  de  a  comunidade  francófona  continuar  a  ser  claramente  mais  receptiva  a  uma  adesão83,  a  diferença  entre  comunidades  linguísticas  esbateu‐se  pelo  facto  de  a  Suíça  francófona  ser  actualmente  menos  eurófila  e  de  a  Suíça alemã ter perdido algum do seu cepticismo. Assim,  o fenómeno do Röstigraben face à UE  sofre  uma  mutação  pela  emergência  de  dados  inovadores,  entre  os  quais  uma  atitude  mais  eurocrítica de entre as camadas mais jovens, outrora eurófilas. Como tal, a divisão da Suíça face à  União Europeia ultrapassa a simples questão linguística. O actual Röstigraben deverá ser encarado  como espelho das diferentes realidades dicotómicas que caracterizam esta sociedade pluralista e 

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heterogénea,  e  que  definem  o  voto  pró  ou  contra  a  Europa.  Estas  realidades  traduzem‐se  na  fragmentação entre áreas rurais e áreas citadinas, entre indivíduos jovens e mais idosos, e entre a  população  de  elevada  e  baixa  formação  académica  (Gabriel,  2000:  4).  Ao  caracterizar  o  perfil  padrão  do  Suíço,  Jürg  Martin  Gabriel  apresenta  uma  clara  distinção  entre  o  jovem  urbano  francófono que tende a ser pró‐Europeu, face ao idoso rural germanófono que mais naturalmente  se  vai  opor  à  Europa  (2000:  4).  Jochen  Hille  (2007:  61)  apresenta  um  traço  sócio‐económico  do  eurocéptico coincidente com a definição de Jürg Martin Gabriel, ao serem características‐padrão o  “low  degree  of  education  and  a  low  socio‐economic  status,  a  person  residing  in  the  rural  periphery”.  Igualmente,  refere  o  autor  a  importância  do  fosso  entre  germanófonos  contra  e  francófonos  pró‐Europa,  bem  como  a  tendência  mais  europeísta  das  regiões  fronteiriças  face  à  defesa da Nação livre e independente salvaguardada pelo coração geográfico e histórico da Suíça  (Hille, 2007: 62).   

A divisão linguística, em ocasiões da vida social, tais como escrutínios, tem deixado a sua  marca.  No  referendo  de  1992  em  que  foi  rejeitada  a  adesão  ao  EEE  “des  motifs  identitaires  ont  divisé les Suisses; le plus grand clivage étant la langue” (Weibel, 1997: 43). O eurocepticismo Suíço  é, por isso, bastante peculiar, pois “it rejects both less binding forms of relationship with the EU  and wider envolvement with the outside world” (Church, 2003: 9). Por outro lado, o Röstigraben é  denunciador de que a oposição à União Europeia é um fenómeno bastante desiquilibrado a nível  interno (Theiler, 2004: 636). Tobias Theiler (2004) refere que os factores económico e identitário  são, na realidade, insuficientes para explicar o eurocepticismo Suíço, pois não decifram o porquê  de  haver  tal  fosse  entre  o  apoio  à  UE  por  parte  de  francófonos  e  germanófonos,  se  ambas  comunidades têm uma elevada ligação às instituições políticas e à Nação Suíça. Para Theiler (2004)  existem  quatro  elementos  fundamentais  que  incrementam  o  eurocepticismo:  a  origem  cultural  anglo‐saxónica (por oposição às culturas latinas); a posição dominante do grupo cultural num país  multicultural;  o  desenvolvimento  económico  e  um  legado  político  de  sucesso.  Defende,  pois,  o  autor,  que  a  Suíça  Alemã  possui  as  quatro  características,  e,  sendo  as  de  ordem  cultural  especificamente peculiares à comunidade germanófona, contribuem para um incremento do seu  eurocepticismo84. O factor cultural coloca em evidência o porquê de apesar de a Suíça, sendo um  Estado‐Nação,  ser  internamente  díspar  na  sua  atitude  face  à  Europa.  O  elemento  distintivo,  o  cultural, impele a comunidade germanófona a insurgir‐se contra o projecto europeu, temendo não 

84 A comunidade germanófona dispõe de uma cultura própria, nomeadamente ao nível linguístico através da utilização 

dos dialectos, que a afastam da cultura alemã, enquanto a comunidade francófona se sente membro de um espaço  cultural francófono alargado. Para mais consultar Theiler (2004).  

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só  as  alterações  de  ordem  política  e  institucional  mas  igualmente  as  repercussões  que  as  influências  da  Alemanha  teriam  na  singularidade  da  expressão  cultural  da  Suíça  alemã.  Pelo  contrário,  sendo  a  Suíça  francófona  culturalmente  mais  próxima  de  França,  não  encara  uma  aproximação ao país vizinho como uma ameaça à sua identidade cultural.