Para a fase de avalia¸c˜ao inicial, foi identificada a necessidade de um reconheci- mento da situa¸c˜ao atual (procura, oferta e enquadramento legal) que dever´a ser feito atrav´es da recolha da dados (em exposi¸c˜ao nesta sec¸c˜ao) e do estudo da legisla¸c˜ao vigente (j´a efetuado na sec¸c˜ao 2.3).
Existem diferentes m´etodos de recolha de dados mas todos eles tˆem restri¸c˜oes. Segundo Ort´uzar e Willumsen (1990) as restri¸c˜oes mais comuns s˜ao relativas `a dura¸c˜ao, horizonte, limita¸c˜ao geogr´afica e recursos do estudo. Contudo, outras
restri¸c˜oes s˜ao apontadas por Ort´uzar e Willumsen (1990), como por exemplo quest˜oes f´ısicas, tal como a dimens˜ao e topografia da localidade, ou quest˜oes relativas ao meio, como a relutˆancia dos utilizadores em responder a determinado tipo de quest˜oes.
No ˆambito dos transportes ´e importante reconhecer onde est˜ao as pessoas e para onde querem ir. No caso portuguˆes, os dados publicados pelo INE poder˜ao auxiliar os estudos, por exemplo, atrav´es de quest˜oes demogr´aficas como a den- sidade populacional que permitem reconhecer zonas de maior concentra¸c˜ao da popula¸c˜ao, em termos habitacionais, e ajudar a responder `a primeira quest˜ao – onde est˜ao as pessoas?
A utiliza¸c˜ao de dados previamente obtidos, organizados e documentados por outros constitui uma t´ecnica de recolha de dados. Este tipo de recolha de dados poder´a reduzir a dura¸c˜ao do estudo e assim contrariar a tendˆencia para dedicar demasiado tempo `a recolha, an´alise e valida¸c˜ao de dados. Contudo, dados reco- lhidos e tratados no ˆambito de outro estudo poder˜ao n˜ao dar resposta a todas as quest˜oes em causa. N˜ao obstante, a decis˜ao de partir para a aplica¸c˜ao de inqu´eritos e/ou de entrevistas deve ser ponderada.
Os suprarreferidos inqu´eritos e entrevistas fazem parte de um grupo de t´ecni- cas de recolha de dados diferente da an´alise de documentos. Ao contr´ario desta ´
ultima, os inqu´eritos e as entrevistas implicam contacto com o p´ublico e, por isso, implicam tamb´em um cuidado maior na estrutura¸c˜ao pr´evia, tanto em abrangˆen- cia como ao n´ıvel da inteligibilidade das quest˜oes.
O tempo requerido ao inquirido/entrevistado e a repetida aplica¸c˜ao destas t´ecnicas de investiga¸c˜ao s˜ao fatores que poder˜ao levar qualquer pessoa a recusar participar num estudo. Na verdade, a aplica¸c˜ao de quest˜oes sobre h´abitos poder´a ser considerada invasiva e afigura-se, muitas vezes, como viola¸c˜ao de privacidade. Em estudos elaborados no ˆambito dos transportes isto acontece, j´a que se colocam quest˜oes no sentido de identificar padr˜oes de mobilidade, construir matrizes O-D
Recolha de dados 75 (origem-destino), perceber qual o meio de transporte favorito, bem como qual o mais utilizado e qual a raz˜ao para isso acontecer. Assim, ´e importante que o inquirido/entrevistado tenha conhecimento e compreenda o ˆambito do estudo para que responda de forma livre e honesta.
No ˆambito dos transportes, os inqu´eritos e as entrevistas servem sobretudo para complementar os dados estat´ısticos fornecidos pelo INE, respondendo `a segunda quest˜ao essencial – para onde querem ir as pessoas? – justificando assim a sua enorme importˆancia.
Os inqu´eritos e as entrevistas s˜ao t´ecnicas prim´arias de recolha de dados, de abordagem dedutiva. Ao contr´ario do que acontece com uma entrevista, que pode estar apenas semiestruturada, os inqu´eritos tˆem que estar definidos de forma precisa antes de se passar `a sua aplica¸c˜ao (Saunders et al., 2007).
O tipo de inqu´erito varia de acordo com o local onde ´e aplicado (por exemplo, porta-a-porta, na rua ou no local de trabalho) e tamb´em com o tipo de informa¸c˜ao que se pretende. Por exemplo, os inqu´eritos O-D s˜ao aplicados para conhecer as origens e os destinos da popula¸c˜ao.
Outro tipo de inqu´erito que ´e importante referir ´e o de indica¸c˜ao de prefe- rˆencias, conhecido como stated-preferences survey. Neste tipo de inqu´erito s˜ao apresentadas situa¸c˜oes hipot´eticas para que o inquirido diga como agiria nessas situa¸c˜oes ou de que forma ordenaria determinadas op¸c˜oes (Ort´uzar e Willumsen, 1990). Para isso, ´e importante que seja bem constru´ıda e explicada uma vers˜ao inicial do problema e posteriormente identificado um conjunto de op¸c˜oes poss´ıveis em volta do mesmo problema global.
Para a aplica¸c˜ao de qualquer tipo de inqu´erito ´e importante que haja um teste inicial (inqu´erito piloto), utilizando uma pequena amostra, e posterior avalia- ¸c˜ao dos resultados obtidos. De acordo com a an´alise efetuada aos resultados do inqu´erito piloto, o inqu´erito a aplicar poder´a sofrer algumas altera¸c˜oes.
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E importante que as quest˜oes sejam colocadas numa ordem l´ogica e, se neces- s´ario, dividas por diferentes sec¸c˜oes sendo que, neste caso, a primeira parte ou sec¸c˜ao deve incidir na carateriza¸c˜ao do indiv´ıduo (por exemplo, g´enero, data de nascimento, etc.).
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E muito importante que o objetivo do inqu´erito esteja bem definido e, indo de encontro a esse objetivo, que se determine o que se pretende saber e como se vai perguntar. ´E tamb´em fundamental ter em conta o tamanho do inqu´erito – o inqu´erito deve ser t˜ao breve quanto poss´ıvel – e que seja bem introduzido ao inquirido, com uma explica¸c˜ao sucinta e clara.
Quanto `a tipologia das quest˜oes pode dizer-se que existem dois tipos distin- tos: fechadas e abertas. Note-se que alguns autores falam ainda de quest˜oes semiabertas ou semifechadas.
As perguntas fechadas exigem uma resposta ´unica e que est´a prevista no for- mul´ario.
Logicamente, as perguntas de resposta fechada simplificam o processo de an´a- lise, enquanto as perguntas de resposta aberta tˆem respostas totalmente distintas e dependentes do inquirido, sendo por isso de an´alise mais complexa. A aplica¸c˜ao deste ´ultimo tipo de quest˜oes num inqu´erito s´o tem interesse em investiga¸c˜oes explorat´orias. N˜ao obstante, ´e preciso estar consciente da dificuldade posterior em codificar e analisar tais respostas.
A aplica¸c˜ao de um inqu´erito pode ser efetuada de v´arias formas, mas a grande distin¸c˜ao reside no papel do inquiridor. Fornecer o question´ario ao inqui- rido e deixa-lo responder, consiste em aplica¸c˜ao direta. Note-se que a aplica¸c˜ao direta pode ser feita pessoalmente (no local) ou atrav´es de carta ou e-mail, im- plicando envio e devolu¸c˜ao. Por outro lado, existe a aplica¸c˜ao indireta em que o inquiridor lˆe as quest˜oes e anota as respostas. Neste caso, a aplica¸c˜ao do inqu´erito pode ser feita pessoalmente ou por telefone.
Recolha de dados 77 manter seriedade e respeito pelo inquirido e pelas suas respostas, bem como ler as quest˜oes de forma cuidada. O inquiridor n˜ao deve expressar qualquer tipo de opini˜ao, principalmente que possa “intimidar” o inquirido e leva-lo a dar uma resposta diferente da que seria natural. Para isso, o inquiridor deve estar treinado e ler as quest˜oes de forma pausada, repetindo, se necess´ario, para garantir que o inquirido compreendeu a pergunta e reconhece as respostas poss´ıveis (no caso das quest˜oes fechadas).
Como referido anteriormente, a aplica¸c˜ao do inqu´erito deve ser iniciada com uma explica¸c˜ao do seu prop´osito. Em qualquer tipo de aplica¸c˜ao, o ideal ´e dis- ponibilizar ao inquirido um pequeno texto explicativo salientando nele que as respostas ser˜ao mantidas em anonimato e utilizadas apenas para o estudo em causa.
Note-se que o n´umero de inqu´eritos a aplicar deve ser baseado n˜ao s´o no n´umero de inquiridores dispon´ıveis e no tempo dispon´ıvel para aplica¸c˜ao dos inqu´eritos como tamb´em deve garantir a obten¸c˜ao da significˆancia estat´ıstica pretendida. Al´em disso, a t´ecnica de amostragem selecionada deve ser devidamente justificada e adequada ao caso de estudo.
A aplica¸c˜ao de inqu´eritos dever´a auxiliar a identifica¸c˜ao das reais necessidades e expectativas da popula¸c˜ao alvo.
Para analisar os dados recolhidos, em primeiro lugar, eles devem ser codificados e registados.
Os dados recolhidos podem ser analisados em diferentes softwares que permi- tem a identifica¸c˜ao do comportamento das vari´aveis e das rela¸c˜oes que existem entre elas, permitem testar hip´oteses, entre outras coisas.
Como resultado dos inqu´eritos devem ser identificados os h´abitos de mobili- dade dos inquiridos: frequˆencia, motiva¸c˜oes para se deslocar, tipo de transporte utilizado, entre outros. Neste sentido, a an´alise dos dados deve resultar num conjunto de conclus˜oes que devem ser devidamente documentadas.
A aplica¸c˜ao de entrevistas, no ˆambito de estudos sobre transportes, pro- cura sobretudo perceber a abertura que existe para apoiar e colaborar com um sistema novo de transportes, por parte das entidades como cˆamaras municipais, prestadores de servi¸cos p´ublicos e privados, etc..
Por outro lado, a recolha de informa¸c˜ao junto das entidades que auxiliam diretamente as pessoas com dificuldades de locomo¸c˜ao e que, por isso mesmo, conhecem bem as suas necessidades, ´e muito importante para a carateriza¸c˜ao da procura. Nomeiam-se algumas dessas poss´ıveis entidades: centros de sa´ude; centros de dia; lares; centros paroquiais; ATL’s para pessoas com deficiˆencia; juntas de freguesia e corpora¸c˜oes de bombeiros.