―Não há ninguém que não tenha nada para ensinar, nem ninguém que não tenha nada para aprender‖ (Mestre Brasília).
A seguir, passo a descrever os processos educativos e seus significados em dimensões que foram desveladas por meio das falas de congadeiros(as) tanto nas conversas aprofundadas ou em anotações no diário de campo.
A fé, a devoção, a resistência, a inspiração, a força, a identidade, o sentimento de pertencimento, a alegria, a espiritualidade, a vivência do sagrado, a parceria colaborativa, as formas de resistir e sobreviver às adversidades, discriminações e preconceitos são resultantes de processos educativos que se aprendem e se constituem enquanto experiência entre congadeiros(as) mais novos e mais velhos, com mais ou menos vivências dentro do Terno de Congada Chapéus de Fitas terno de congada. Esses processos de ensinar-aprender-ensinar-aprender entre mais novos e mais velhos dentro das especificidades do terno de congada, se desenvolvem com vistas à formação de congadeiros(as): herdeiros de uma manifestação cultural tradicional de matriz africana e cidadãos conscientes de seu pertencimento, isto é, lugar no mundo.
Assim, saliento que nesse meio congadeiro a consciência de ser e estar no e com o mundo perpassa pelos ensinamentos-aprendizagens-embates de cunho político, religioso e etnicorracial que vivenciam as pessoas cidadãs em seu dia-a-dia, no contexto da sociedade e juntos na convivência do terno de congada. Sendo assim, os(as) congadeiros(as) mais novos(as) e mais velhos(as) com mais ou com menos experiência, aprendem uns com os(as) outros(as), nas e com as seguintes dimensões:
Tempo, um capitão! Resistência Congadeira
Sendo negro(a) e congadeiro(a) na sociedade O visível e o invisível: vivências do sagrado Na casa com os mais velhos
O corpo aprendiz congadeiro
Tempo, um capitão!
Kítembo iô!30 Tempo, tempo, tempo. Tempo que marca vidas, se desloca no espaço, instaura a resistência, define a identidade, educa e se faz importante na formação de pessoas congadeiras. O tempo vai se representando contínuo na tradição da congada, compondo muitos destinos e marcando a vida dos congadeiros(as). Tempo que anuncia o início do ritual do terno de congada, a chegada, a permanência, a tradição, a idade cronológica, a tradição sofre mudanças com o passar do tempo, o vínculo, a transformação das pessoas, a partida e a passagem do mundo visível para o invisível.Nas falas, os(as) congadeiros(as) evidenciam que há tempo para tudo nessa vida. Tempo que demarca os segundos, os minutos, as horas, os dias, as semanas, os meses, os anos, os séculos da existência, da resistência e da educação de um povo. Tempo que conduz vida, a sabedoria, ilumina a espiritualidade e que é um orixá, o orixá do tempo que passa de lua a sol encaminhando as estações do ano. É esse tempo que os congadeiros trazem em sua fala, buscando (re)territorializar a África humana, viva e simbólica impressa nos corpos de seus descendentes. Tempo bom, tempo ruim, tempo um compositor de muitos destinos.
Toda a criação está nos desígnios do tempo. Tempo de congada. Tempo que passa, tempo presente, tempo que enseja o futuro, que deseja a continuidade, que relembra do passado as aprendizagens entre congadeiros(as) que no seio de sua casa, a tradição vão formando e informando, aprendendo e ensinando uns aos outros na escola da vida. Tempo que dá início, meio ao cortejo da vida e que nunca tem fim. Tempo que não somente indica a condição do tempo verbal, mas que põe ação nas palavras que compõem as frases do cotidiano vivido. Tempo que passa com a vida de cada congadeiro, que passa entre eles, e que ultrapassa a morte para continuar sempre passando no seu próprio ritmo. Tempo de construção da pessoa congadeira.
Tempo cronológico que marca os momentos da celebração e as aprendizagens para formar um capitão. O capitão da congada, inspirado pelo orixá tempo, apita os sons e a melodia que orienta a dança e o proceder na vida dos(as)congadeiros(as), ali o tempo é determinante e influi na formação dessas pessoas, não importa quando, onde, como e de que forma, mas o tempo sempre chega na hora certa na celebração da congada e na vida das pessoas que dela participam. Daqui em diante, no decorrer destas páginas o tempo aparecerá contando horário, demarcando aprendizagens, instaurando ancestralidade, apontando o visível, explicitando a presença do invisível, instaurando-se
30 Essa é uma saudação à força da natureza, ao orixá Tempo, orixá muito antigo que conduz a seu próprio tempo, a
na vivência do sagrado e do profano, demarcando sentidos e significados, e, sobretudo, formando pessoas ao longo de suas vidas.
Dessa forma, os(as) congadeiros(as) explicitam que muitas pessoas passaram o tempo de suas vidas participando da congada desde seu nascimento até a morte. Passada de geração a geração, essa tradição foi sendo aprendida, sentida e vivida pelos seus participantes, que com alegria e fé lutam no presente, inspirados pelo passado a fim de preservar a tradição no futuro. É relembrando suas experiências nas várias etapas, dias e situações da vida que congadeiros(as) vão pondo suas percepções, ideias e temporalidade na convivência que tivemos ao longo desta pesquisa. Cada pessoa que imprimiu sua fala neste trabalho carrega consigo uma experiência do tempo em que se tornou congadeiro(a).
A maioria dos(as) congadeiros(as) vão se formando enquanto tal ao longo da vida, desde o nascimento uma vez que pertencem a famílias de tradição congadeira, outros aderem a tradição por fé e devoção. Zumbi relata ter se tornado congadeiro há mais de 30 anos, quase 40 anos, seu pai já era congadeiro e capitão de terno de congo desde a infância. Assim, tanto o pai quanto o filho tiveram a oportunidade de se iniciar no ambiente congadeiro(a) na mais tenra idade.
Sarafina também afirma que é congadeira há mais de 34 anos, natural de Carmo do Cajuru estado de Minas Gerais, ela foi se tornando congadeira acompanhando seu terno de congada nos reinados e no convívio familiar. Atualmente, Sarafina reside em Olímpia, cidade na qual veio morar após seu casamento com Zumbi, desde então há 13 anos ela vem acompanhando o Terno de Chapéus de Fitas. Seguindo os exemplos na família, a congadeira diz que seus filhos acompanham a congada Chapéus de Fitas e o outro terno de Carmo do Cajuru ―desde um ano, acho que desde dentro da barriga‖.
Não diferente ocorreu com o Capitão Mandela, que revela ―eu me tornei um congadeiro desde o tempo de criança‖ (Mandela, conversa, março de 2011), para ser um congadeiro, o capitão acompanhou seus pais nas festas de congado. É acompanhando com o passar dos anos, que a pessoa, no seio de sua família consangüínea e de tradição, vai aprendendo e se tornando congadeira, herdando assim o legado de seus antepassados. Nesse sentido, o tempo se instaura como um processo inacabado e constante no aprender e ensinar entre congadeiros(as).
O tempo não só aponta o início de quando essas pessoas se tornaram congadeiras, bem como assinala os percursos trilhados pelo caminho da vida nos diferentes tempos em que esses homens e mulheres foram se tornando quem são nos dias de hoje. O tempo é capitão na vida desses(as) congadeiros(as), apitando no processo contínuo de suas trajetórias e histórias de vida, ele se fez bem
evidente na vida do Capitão Mandela, desde a sua formação enquanto congadeiro e capitão do Terno de Congada.
No entanto, para falar de sua vivência, o capitão não obedece a uma ordem linear do tempo. O passado-presente-futuro que depreendem-se de sua fala seguem uma ordem não seqüencial, diferente daquela representada pelo relógio e calendário ocidentais. O presente é orientado pelo passado, que por sua vez, já não é mais passado quando este se faz presente no tempo vivido. Percebe que para os(as) congadeiros(as), o passado se desvela não como algo que já passou e que não tem importância, mas como referência para se entender o presente. O passado, na perspectiva desses(as) congadeiros(as) é que orienta o tempo, portanto, para entender o que acontece neste momento, se faz necessário compreender o que se passou no passado.
O capitão conta que com dez anos de idade ele se tornou capitão mirim num terno de congada de sua cidade natal, Lagoa da Prata-MG, chamado de José Negrim, ele era o dono da guarda31 de bastão, como capitão mirim ele puxava o ―estrado‖, ou seja, se expunha, defendia, representava seu terno, e por isso, era protegido pelo Rei congo da festa, dali pra frente começou a sua trajetória dentro do reinado e da cultura no Brasil.
A história de vida do Capitão Mandela se alia com sua fé e devoção, e também com suas vivências de congadeiro desde a infância até depois de casado com sua esposa, a Capitã violinista Dona Nzinga. No entender dos(as) congadeiros(as), o tempo aliou com o casamento entre Mandela e Nzinga, a tradição e a ancestralidade de suas duas famílias, que desde longas datas vieram cultivando as raízes africanas, uma com o jongo no Rio de Janeiro e em São Paulo, e a outra com o congado em Minas Gerais. O casamento nesse sentido, foi algo importante e até inexplicado, conta Dona Nzinga, mas possibilitou aos dois dar sustento espiritual e material a sua família, a folia de reis e ao terno de congada. Como se vê a história dessa família expressa fé e religiosidade, que se imbricam nos meandros da vivência com duas diferentes manifestações culturais, a Companhia de Santos Reis ―Estrela da Paz‖ e o Terno de Congada Chapéus de Fitas.
O Capitão relata que mesmo tendo estado afastado do congado por alguns anos devido à mudança de cidade feita com seus pais, aquele sentimento de congadeiro nunca saiu de sua alma e coração: ―Meus pais mudaram para o estado de São Paulo, para a usina Junqueira, e lá não tinha festa de reinado, não tinha essa cultura‖ (Mandela, conversa, março de 2011).
31 Dono da guarda é a pessoa responsável, geralmente a quem um capitão mais velho passa a responsabilidade de
Eu como um mineiro de Lagoa da Prata, nascido lá atrás em seis de junho de 1934, quando cheguei aos dez anos comecei a andar pelo reinado, aos sete anos eu já acompanhava, mas aos dez anos eu já tinha conhecimento, porque já era Capitão mirim. E por isso o tempo foi correndo, eu vim para o estado de São Paulo acompanhando meus pais, aqui muitas vezes fomos para o estado de Goiás, lá eu encontrei também esta nossa raiz que é tão preciosa que é a raiz do reinado, mas eu não pude participar daquele grupo, porque assim que eu passei a conhecer vim embora de volta (Mandela,conversa aprofundada, dezembro de 2011).
O tempo é marcado por lugares onde o(a) congadeiro(a) transita, marcado também, por percalços da vida. Desse modo, o tempo correu e o Capitão Mandela acompanhou o seu tempo de vida e experiências , ele cresceu, tornou-se rapaz e com seus 23 anos se casou com Dona Nzinga, que por coincidência do destino tinha o mesmo sobrenome do esposo, Ferreira, os dois se uniram, constituíram família e foram morar em Nova Veneza-GO. Nesse período, residindo no estado de Goiás, Dona Nzinga foi picada por cobra cinco vezes, nas últimas vezes em que foi picada por cobra ela estava grávida, o Capitão conta que, num intervalo de doze dias sua esposa foi picada duas vezes, e em decorrência do veneno da cobra ela veio perder sua visão e o bebe que esperava na barriga. Diante disso, o Capitão fez uma promessa, pedindo a intercessão dos três Santos Reis, Belchior, Baltazar e Gaspar junto a Deus para que curasse a sua esposa e a devolvesse a visão, assim a graça veio de imediato, a prece foi atendida, e com isso o capitão foi realizando a promessa que havia prometido cumprir por um período de nove anos, saindo numa companhia de Santos Reis.
Ao retornar para Olímpia, o Capitão trouxe do estado de Goiás a promessa que tinha feito em relação à cura de sua esposa e por conta dessa promessa que ele tinha que cumprir por nove anos, o Capitão formou em Olímpia uma Companhia de Santos Reis chamada ―Estrela da Paz‖. Assim, o tempo de cumprimento da promessa foi seguindo seu curso, mas antes do prazo do prometido findar, numa ocasião seu filho mais velho, que também era folião da companhia, ficou muito adoentado e o Capitão fez novamente outra promessa, ajoelhou em frente à bandeira de Santos Reis, dizendo que se seu filho não morresse, ele iria sair com a Companhia de Santos Reis até o final de sua vida, quando Deus o levasse para o outro lado.
Até hoje o Capitão Mandela sai nos meses de dezembro a janeiro pelas ruas da cidade de Olímpia cumprindo sua promessa e a de seus companheiros foliões com a Companhia de Santos Reis Estrela da Paz. Apesar de não ter descoberto nesta pesquisa qual a relação entre Folia de Reis e Congada, observa-se que é comum entre os(as) congadeiros(as), participarem e saírem com folia de
reis32, talvez esse seja um dos mistérios que envolvem espiritualidade e fé que fazem parte da cultura do povo que ainda não sabemos.
Residência do Capitão Mandela e Dona Nzinga. À esquerda, altar dos santos padroeiros da Congada e o presépio da Folia de Reis. A direita, quadros de fotografias dos(as) congadeiro(a)s, dezembro de 2011. Foto: Tatiane Souza
Quando o Capitão Mandela fala de sua trajetória de congadeiro no Terno de Congada Chapéus de Fitas, ele cita sua experiência enquanto folião de reis, uma coisa está ligada a outra, não como manifestações idênticas, mas como espaços de devoção, fé e exercício da espiritualidade do Capitão. E isso aparece em sua fala quando este conta à formação do Terno de Congada Chapéus de Fitas.
O tempo se tece também na relação entre as pessoas o que vai construindo novas direções na vida, por exemplo, por ter criado, participar e incentivar um grupo de folia de reis, o capitão
32 Ler Gomes & Pereira, 2000, p.264-280 ―Folia de reis ou reisado‖ na comunidade dos Arturos. Esse fenômeno
também é observável em outras comunidades de congada. Na comunidade dos Arturos a devoção a Santos Reis se faz presente como ritual de fé, promessa e devoção. A Folia de Reis ou Reisado é uma manifestação cultural que sai em visita a residências, com seus foliões cantando e rezando pelas ruas da cidade e do meio rural, essa representação busca rememorar a jornada e o trajeto feito pelos Reis Magos, a partir do momento em que eles recebem o aviso do nascimento do menino Jesus, até encontra-lo em uma manjedoura no qual repousava com seus pais Maria e José e aguardava a visita dos três reis magos, Belchior, Baltazar e Gaspar Para Gomes & Pereira, ―tem ocorrido um sincretismo nas Folias, com a presença de elementos de Congado, Boi-Bumbá e de variados entremeios (2000, p. 264)‖.
conheceu o Professor Sant‘anna33que estudava folia de reis, e então se deu conta de que seu grupo
era diferente dos grupos que o professor conhecia. Esse encontro lhe dá a possibilidade de cumprir a promessa que havia feito na sua infância, que foi dar continuidade na sua família na tradição da congada. Nesse sentido, o tempo marca construção, a partir dai o capitão constrói um novo tempo em sua vida que foi influenciado pelo passado. Ele teve uma pressão que veio de fora e essa pressão encontro um solo fértil para se desenvolver.
Eu comecei com a companhia de santos reis de uma promessa alcançada que foi feita ainda no estado de Goiás, mas eu vim começar cumprir ela aqui na Mogiana [fazenda da região de Olímpia onde o capitão trabalhava], depois vim pra Olímpia e aqui eu conheci o Professor Sant‘anna e o professor Sant‘anna passou me conhecer através dessa Companhia de Santos Reis ―Estrela da Paz‖. Na ocasião ele tinha imensas companhias de santos reis, a única diferente era a minha que muita gente achava estranha, aquela companhia de santos reis sem palhaço e sem flauta, cantando toada baiana, mas isso é coisa que a gente vem fazendo ao longo dos anos e sempre deu certo, e vai continuando, dando certo. E por esta Companhia ―Estrela da Paz‖ que o Professor Sant‘anna passou a me conhecer melhor e procurou investigar minha vida lá em Minas Gerais e me encontrou, eu lá como congadeiro mirim, aí foi quando ele me encostou para formar um terno de congada em Olímpia (Mandela, conversa aprofundada, dezembro de 2011).
O tempo é marcado por segredos e mistérios, segundo os(as) congadeiros(as) há circunstância, situação e tempo certo para tudo acontecer nessa vida. E isso não foi diferente com a criação da Congada Chapéus de Fitas. O tempo foi construindo e dando as condições para que a família pudesse construir um novo tempo da tradição congadeira em terras diferentes das do estado de Minas Gerais. O Prof. Sant‘anna que não tinha um grupo de raiz na cidade, viu no capitão a pessoa certa para criar um grupo. Para esse professor o capitão Mandela era o solo fértil para fazer isso, pois o capitão era congadeiro de nascença, ele já havia sido formado até espiritualmente para isso e, desde criança prometeu cumprir a tradição a seus familiares.
Sobre essa passagem em sua vida o Capitão Mandela comenta:
O professor Sant‘anna com o decorrer dos tempos foi pesquisando minha vida desde lá trás. E ele tinha o festival do folclore aqui em Olímpia que ele criou em 1965, mas até em 1973 não tinha um grupo autêntico nascido nessa cidade de
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Segundo os(as) congadeiros(as), o Prof. Sant‘anna foi o criador do Festival do Folclore de Olímpia (Fefol) que teve início em 1965, esse movimento buscava em sua época valorizar a cultura do povo. O museu, local onde estávamos naquele dia conversando, é para o Capitão ―a prova que representa esse grande trabalho que esse Prof. Sant‘anna fazia, parte dele está colocado ai dentro‖, afirma. E o Capitão continua contextualizando, ―eu estou dizendo isso, porque foi através dessa história do folclore, dessa história da cultura que surgiu o Terno de Congada Chapéus de Fitas da cidade de Olímpia‖ (Mandela conversa aprofundada, dezembro de 2011).
Olímpia. Então, em 1º de maio de 1974 ele me procurou para fazer um grupo folclórico para ele, falei, olha professor você deve estar procurando a pessoa errada. Isso é um trabalho muito difícil, muito pesado (Mandela, conversa, maio de 2011).
A primeira reação do capitão foi em não aceitar por que era um trabalho difícil, apesar dessa primeira reação, no mesmo momento o capitão recebeu um estímulo espiritual para dar prosseguimento a sua obrigação no mundo visível:
Olhei de um lado vi São Benedito, olhei do outro vi Nossa Senhora do Rosário, olhei para frente vi Santa Efigênia [silêncio e emoção do Mandela]. - Desculpa tá! [falou chorando e continuou]. Fui lá na cozinha e falei para minha mulher: - olha meu pai sempre sonhava em ter um terno de congo, ele foi capitão de congo de tanta gente e ele nunca teve e agora chegou a hora (Mandela, diário de campo, março de 2011).
Foi mostrado para o capitão que era chegado a hora e o tempo para o cumprimento de sua promessa. Muitas foram as tentativas do Prof. Sant‘anna para formar a congada, até que nesse dia, 20 de maio de 1974, após várias conversas o professor chegou com uma proposta que ia ao encontro das expectativas, o professor fornecia a cobertura financeira para a formação do grupo e o capitão entrava com o seu trabalho, crença e os conhecimentos herdados e aprendidos com seus pais na tradição congadeira. O Capitão conta com muita emoção que ao receber essa proposta do professor, ele foi conversar com sua esposa e ela disse que o apoiava e o ajudava, foi nessa hora que o Capitão percebeu que era chegado o momento de realizar o ―sonho do papai‖ e dar continuidade ao legado deixado pelos seus antepassados. Mesmo não tendo o pai presente em corpo, percebe-se que foi feito um compromisso entre o Capitão e seu pai, a pessoa mais velha que foi também responsável por ensinar ao Capitão Mandela a se tornar o congadeiro que ele é hoje.
Trago aqui as histórias na íntegra por que os congadeiros sempre afirmam que para entender a vida é preciso compreender as histórias, desde o começo, onde tudo começa, onde tudo termina. A partir dessas concepções, foi possível entender que a promessa feita no passado permanece com o tempo, o passar cronológico não rompe com uma promessa, não a anula e nem faz a esquecer. Nessa direção, o tempo é marcado pelo poder da ação e da palavra da pessoa que promete cumprir uma promessa seja em vida ou em morte. Nesse caso, o incentivo, o apoio tanto do lado do mundo