Podemos perceber que a obra de White parte do século XIX, mas seu objetivo vai muito além da análise desse século. Seu objetivo principal é mostrar como a ironia dominou o pensamento histórico no final do século XIX para criticar a posição hegemônica do tropo da ironia na historiografia profissional do século XX e defender que a ironia é apenas mais uma forma dentre outras possíveis, todas com igual poder de iluminação. Segundo o autor, boa parte da melhor reflexão histórica do século XX tem-se preocupado, como sua contraparte no início do XIX, em superar a situação de ironia em que a consciência histórica mergulhou no final do século XIX. Embora a historiografia acadêmica contemporânea permaneça aprisionada à perspectiva irônica, o moderno pensamento histórico ataca tal perspectiva de dois modos: procura superar seu ceticismo intrínseco, que passa por sábia cautela e empirismo, e seu agnosticismo moral, que passa por objetividade e neutralidade transideológica. A reflexão histórica contemporânea (praticada principalmente por filósofos como Heidegger, Benjamin, Foucault e vários outros) expõe como possíveis alternativas à ironia concepções dos processos históricos, que são vazadas em outros tropos. Nós temos a liberdade de conceber a história como nos aprouver, assim como temos a
liberdade de fazer dela o que quisermos. E, se desejamos transcender o agnosticismo de uma perspectiva irônica da história, tomada como o único realismo e objetividade possíveis, cabe-nos apenas rechaçar essa perspectiva irônica e querer considerar a história de uma outra perspectiva, antiirônica. Assim, podemos concluir que estamos presos a uma escolha entre estratégias interpretativas opostas e não há nenhuma premissa teórica para apontar qual é o método superior ou o mais realista. Por isso, os melhores fundamentos para escolher uma perspectiva da história em lugar de outra são antes estéticos ou morais que epistemológicos.
Entretanto, será que White conseguiu em sua obra rechaçar a perspectiva irônica? Não. O próprio White declara seu livro axiologicamente neutro e puramente formalista, o que reflete a condição irônica em que sua obra é vazada. Contudo, White acredita que sua ironia é autoconsciente, o que proporciona os fundamentos para transcendê-la. O que não deixa de ser uma grande ironia. Mas será possível fugir da ironia? Não será a ironia o fim de ciclo e um modo realmente superior? White não concorda com isso. O que ele defende na “Meta-História” é que todos os tropos possuem um igual poder de iluminação, todos são igualmente ricos e capazes de produzir um conhecimento “realista” e “verdadeiro” do mundo. Sua análise mostra que não há porque deixar de lado o caráter artístico da história, mas pelo contrário, que é com a valorização dele que o conhecimento histórico pode se desenvolver. É preciso explorar todas as possibilidades que a arte pode nos oferecer. Pois, tal como provou White, todos os tropos são igualmente ricos e capazes de produzir um conhecimento “realista”. Então porque ficarmos presos à ironia? Se não se pode julgar a narrativa histórica – enquanto
narrativa (tal como veremos no próximo capítulo) – por critérios epistemológicos, devemos fazê-lo por critérios artísticos. Uma maior atenção ao caráter artístico inerente a toda obra histórica pode proporcionar uma maior riqueza e qualidade para o conhecimento histórico, assim como aconteceu no século XIX.
Essa obra pode ser vista como uma resposta ao irracionalismo e ao ceticismo, que se perpetua desde o final do XIX até hoje, em relação ao discurso historiográfico. White, fortemente influenciado pelos pensadores do XIX, apresenta-nos uma alternativa ao ceticismo do final daquele século, mostrando que a história pode fugir da ironia e voltar a ser analisada e valorizada por critérios artísticos. Além disso, percebemos que White almeja construir, ou melhor, provar a existência de uma tradição artística na história. Esse objetivo não se justifica apenas pelo fato dele querer se incluir nessa tradição para aumentar, assim, a importância ou a sustentação teórica de sua obra. White quer provar que a crise da história, que perpetua desde o final do século XIX, nada mais é que um reflexo da ruptura com essa tradição. Com isso, deseja fazer de “Meta-História” um marco na historiografia do século XX. Essa obra representa um retorno a essa tradição artística do XIX com a qual a história nunca deveria ter rompido. Ela é uma crítica à ironia que domina a historiografia desde o final do XIX e mostra a possibilidade e a necessidade do retorno às outras formas de escrita histórica, o que só é possível através da valorização do aspecto artístico de toda obra de história.
Terceiro capítulo
HISTÓRIA E NARRATIVA
1. INTRODUÇÃO
É somente no terceiro capítulo que a questão da narrativa em White é analisada detalhadamente. Estudaremos especificamente o que White chama de narrativa histórica e suas principais questões, que são: a história é arte ou ciência? Como julgar, visto que o discurso histórico não se difere do artístico, se uma história é boa ou ruim? Como verificar a veracidade de uma obra historiográfica? Que outras possibilidades a historiografia atual nos fornece? E como a teoria de White é vista por seus principais críticos? Para respondermos a essas questões, devemos primeiro definir o que os historiadores entendem por “narrativa”, a principal característica da historiografia pós-moderna.
Para isso, faremos um breve estudo sobre a situação da narrativa e posteriormente analisaremos suas principais obras que refletem sobre essa questão: “Trópicos do Discurso” e a posterior “The Content of the Form”31. Após a
31
WHITE,H. Trópicos do Discurso: Ensáios Sobre a Crítica da Cultura. São Paulo: Edusp, 1994.
WHITE,H. The content of the Form: Narrative Discourse and Historical Representation. Baltimore, 1987.
exposição do conceito de “narrativa” em White, discutiremos com Ginzburg, Chartier e Lacapra suas questões mais polêmicas. A escolha desses autores não foi por acaso. Ginzburg é considerado o principal representante da Micro-História, uma das principais correntes historiográficas da atualidade. Chartier pode ser visto como principal representante da nova geração dos Annales, que também é uma das principais correntes historiográficas da atualidade. Já Lacapra foi escolhido por ser um dos mais importantes integrantes do linguistic turn americano, movimento do qual White é considerado o principal historiador. Ele faz suas críticas dentro do próprio linguistic turn, que também pode ser considerado como uma das principais correntes historiográficas da atualidade. Então, ao criticarem White, esses historiadores estão também defendendo tanto suas correntes historiográficas quanto suas posições pessoais.