Em sua obra Lógica e Conversação, Grice (1982) considera a metáfora
a base teórica para o estudo dos implícitos pela análise das condições que norteiam a conversação e as intenções comunicativas.
Grice supõe que as pessoas se entendem em uma conversação porque seguem regras naturais de comunicação, regidas por uma espécie de contrato comunicativo, denominado Princípio de Cooperação. O autor descreve esse princípio através do que ele chama de Máximas Conversacionais.
As máximas são descritas por meio das categorias de quantidade, qualidade, relevância e modo. A categoria da quantidade reza que um enunciado deve ser tão informativo quanto o requerido; a da qualidade, que um enunciado deve ser verdadeiro; a de relação está vinculada à relevância do enunciado para o tópico, e a de modo diz que um enunciado deve ser expresso de forma adequada. Conforme tal teoria, através das máximas é explicada a comunicação implícita, que se efetuará por respeito às máximas, ou por sua violação aparente.
De acordo com Grice, a única coisa que o comunicador precisa para transmitir determinado pensamento é conseguir que o receptor reconheça a sua intenção em transmiti-lo. Contudo, as intenções, de um modo geral, não estão explícitas e devem ser inferidas por meio daquilo que o autor denomina implicaturas − suposições e conclusões adicionais fornecidas com a finalidade de preservar o princípio cooperativo e as máximas.
Os proferimentos metafóricos são, para Grice, casos de violação da máxima da qualidade, que se resume em “não afirme o que você acredita ser falso”. Assim, no caso de um falante proferir uma metáfora, o ouvinte infere que, se aquele estiver cooperando para que a comunicação se estabeleça, ele − o falante − pode não estar querendo transmitir o que o significado literal da sentença expressa, motivo pelo qual deve querer implicar algo diverso. Ou seja, os enunciados metafóricos envolvem uma violação do sentido literal; ao se ouvir um enunciado metafórico, reconhece-se a violação da máxima e organiza-se uma interpretação alternativa, uma implicatura figurativa.
Seguindo esse raciocínio, uma metáfora como o amor é cego faz um ouvinte perceber a falsidade óbvia do proferimento e inferir que o falante pode não estar desejando transmitir o significado literal da sentença. O ouvinte, então, percebe a
implicatura figurativa: existem determinados aspectos do amor semelhantes a determinadas características da cegueira. Outro exemplo seria alguém proferir a sentença “Porto Alegre é uma grande sauna no verão”; neste caso, o falante usa uma metáfora para implicar que a cidade, no verão, apresenta características de uma sauna, em função do alto índice de umidade e do calor abafado. Isto faria com que o ouvinte percebesse a aparente falsidade da sentença − Porto Alegre não é uma sauna − e gerasse uma implicatura para inferir a intenção do falante ao proferi-la (FINGER, 1996).
Embora Grice não tenha dedicado sua atenção à metáfora, suas afirmações sobre o tema não ficaram isentas de críticas. A noção de violação das máximas da comunicação, bem como a defesa de um sentido literal da sentença constituem, para muitos estudiosos contemporâneos, um retrocesso nos estudos da metáfora. De fato, não seria absurda a comparação da retórica da palavra com a explicação de Grice sobre metáfora, que bem poderia ser chamada de uma retórica da sentença. Apresentar a metáfora como uma violação de alguma regra ou mecanismo de cooperação comunicativa finda por pressupor um enunciado literal, do qual ela é a própria violação. Com isso, Grice propõe uma distinção entre o que é dito e o que é implicado, bem como faz das implicaturas uma interpretação secundária à interpretação literal, visto que, ao proferir uma metáfora, o falante demonstra sua intenção de implicar algo diferente do que o enunciado literalmente expressa.
Gibbs (2002a) afirma que Grice está equivocado ao admitir a utilização do conhecimento pragmático apenas para facilitar a formulação, por parte do ouvinte, da implicatura conversacional, já que, no caso da metáfora, o ouvinte não pode inferir o significado implícito levando em conta somente o que foi dito pelo falante, pois isso seria insuficiente. Se Grice está equivocado, como explicaríamos, então, o julgamento literal ou figurado de uma frase?
Na compreensão de Gibbs, o que frequentemente favorece a classificação do significado de uma frase como literal é apenas um significado específico para a ocasião, em que o contexto é tão compartilhado ou tão familiar que não parece ser propriamente um contexto. O conhecimento pragmático, para Gibbs, refere-se principalmente a um conhecimento contextual, sempre requerido na interpretação, sejam os enunciados literais ou figurativos. Ademais, segundo ele, há uma série de estudos recentes da
Psicolinguística que demonstram a nulidade da prioridade, no processamento de metáforas, do sentido literal em relação ao metafórico (cf. Capítulo III, seção 3, desta tese).
Gibbs (2002a) acredita que, durante o entendimento da linguagem corrente, possivelmente dois tipos de informações ou conhecimentos pragmáticos são ativados: a) o conhecimento pragmático primário – conhecimento do qual faz parte o entendimento pragmático sobre o mundo; é o conhecimento que fornece uma interpretação ao o que os falantes dizem, e b) o conhecimento pragmático secundário – informação contextual que fornece uma interpretação do que os falantes exprimem no discurso. As pessoas julgam que uma frase possui um significado literal porque ela é isomórfica à situação em que é interpretada, afirma ele.
É o que ocorre, por exemplo, com frases do cotidiano, como “Ele é um leão”. Gibbs (1984, p.278) assevera que se essa frase for usada para referir, em um determinado contexto, à coragem do homem, e se tal intenção for reconhecida por todos os participantes da interlocução, a frase será classificada como literal e não como figurada, como acontece, por exemplo, com as metáforas mortas ou congeladas.
Somos da opinião de que o papel da pragmática na interpretação de uma metáfora deve ultrapassar a visão de que a relevância de um enunciado ou sentença deve restringir-se à identificação de implicaturas inferidas pelo ouvinte/leitor nos limites do contexto lógico-inferencial da sentença. É preciso encontrar relações contextuais que se manifestem além da sentença e do julgamento do falante/ouvinte sobre ela.
Tais relações podem ser determinadas, no momento da interpretação, por exemplo, pelo uso ou mobilização de estereótipos culturalmente estabelecidos, cuja função seria, dentre outras, selecionar um dos vários sentidos intencionados pelo falante, quando confrontado com determinadas expressões linguísticas no ato interpretativo. É o que acontece em situações do tipo:
Exemplo 3: Eu sinto cheiro de mexerica a quilômetros. E pode anotar:
Ricky Martin não é gay (Época, 31/01/2005).
Neste caso, a opinião sobre a opção sexual do cantor Ricky Martin é manifestada pelo seu cabeleireiro. Sendo assim, para alcançar a intenção do falante, ou
seja, a implicação metafórica de que Ricky Martin não é gay, o ouvinte precisa considerar uma relação metafórica entre o cantor e mexerica. Para isso, no entanto, deve ultrapassar o contexto da sentença e estabelecer a relação de semelhança mediante a seleção de propriedades fundadas em um conhecimento sociocultural e não em uma semântica puramente lexical.
Em outros termos, o contexto sentencial não é suficiente para selecionar as propriedades necessárias para assemelhar gay a mexerica, pois o leitor deve agregar estereótipos socioculturais à interpretação como, por exemplo, o fato de que cabeleireiros muitas vezes são gays e julgam identificar outros gays, inclusive os mais enrustidos, com bastante precisão; ou ainda, saber que, em algumas regiões do Brasil, nomes de frutas são metáforas utilizadas para se referir aos homossexuais (goiaba, no Ceará, por exemplo).