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Chapter 1: Introduction

1.4 Legal Framework

Apareceram diversas outras figuras de gênero no cotidiano da escola, escolhi trabalhar com estas e gostaria de encerrar este capítulo fazendo um exercício da configuração de três figuras. Como vimos, cada figura “faz parte” de uma configuração de gênero maior. A figura “Separação” está presente na configuração da “tradição”. A figura “Cor” está presente na configuração da “heteronormatividade” e a figura “exibição” está presente na configuração da figura de gênero “anatomia”. Portanto, “anatomia”, “tradição” e “heteronormatividade” se constituem no seio desta escola de Educação Infantil enquanto configurações de gênero que ocorre com grande pregnância. Isso mostra que esta escola perpetua a tradição de um modelo calcado na heteronormatividade em que a tradição do que é homem e mulher são concebidos levando em conta a questão anatômica da diferença dos sexos. Isto é reforçado pela tradição religiosa. Todas as vezes que chegávamos, antes de começar as atividades a tia orava com as crianças e em vários momentos surgiu a figura da religião que não deu para explorá-la mais neste momento, mas que consistia também numa parte importante na configuração de gênero “heteronormativa”. Por outro lado, como foi mostrado aparece a figura de gênero “Permissão” para o ballet para os meninos. Tal figura, quando emerge no palco de uma configuração de gênero tradicional, interfere no jogo de compreensão de todas as tradições daqueles que têm contato com a escola. Os pais das crianças são também afetados e as crianças têm possibilidade de jogar também com esta figura, isto é, de compreender as questões de gênero

relativizando e ou reproduzindo a transmissão dos pais. De uma forma ou de outra é uma figura de gênero que ao emergir convida os sujeitos em contato com ela a emitirem sua opinião.

A figura de gênero “exibição” e “agressividade” foram as figuras que mais me chamaram atenção em se tratando da relação direta entre as professoras e os alunos. Tanto a agressão é inibida como a exibição. Como são os meninos que emergem com mais agressividade, eles são os mais punidos também. A exibição é vigiada para não fazer aparecer precocemente a figura de gênero “anatomia”, mas ao escondê-la pode fazer emergir outros sentidos, como por exemplo, a figura da curiosidade. São, exatamente, o jogo entre as figuras de gênero e a possibilidade de suas multiplicidades de sentidos que a criança vai tendo condições de compreender as questões de gênero de acordo com seus ajustamento criativos. Isto é, levando em consideração o significado que as figuras de gênero têm para seus pais, para a escola, para os colegas e, neste jogo de interesses de tradições, a criança ao viver no jogo, tem oportunidade de poder encontrar sua própria opinião.

Na figura abaixo, a escola de educação infantil se configura como um palco repleto de diversas compreensões sobre gênero. Isto permite tanto a criança reproduzi-las como dar novos significados às compreensões de gênero transmitidas por diferentes famílias através dos seus próprios ajustamentos criativos. Nesse sentido, o cotidiano escolar, oferece um contínuo de possibilidades de novas compreensões de gênero.

6 HORIZONTE DE SENTIDOS DAS CRIANÇAS

“Para entrar, deixe sua tradição de lado”. (Ass. Mundo dos Dumps)

Neste capítulo, desenvolvo o diálogo de horizonte de sentidos entre eu e as crianças sobre gênero. Este é o momento em que as compreensões das figuras e das configurações de gênero até aqui reconhecidas são fundidas em um diálogo com as crianças.

Como foi dito na metodologia procurei criar uma viagem de fantasia baseada na perspectiva da Gestalt-terapia e na experiência de Janusz Korczac (1981), no livro “Quando eu voltar a ser criança”. Na experiência deste educador, um gnomo o transforma em criança e ele passa a viver o dia a dia como se fosse uma criança. Em minha “viagem de fantasia” escolhi, como forma de representar o contato com o universo infantil, uma experiência vivencial que contemplasse os modos contemporâneos de existir que se deu com a criação de um site imaginário chamado “O mundo dos Dunps40”.

Começa a fantasia...

Abri o computador e entrei neste site. Era uma página com uma imagem de um playground: muitas cores, muitos brinquedos, muitas crianças e muita alegria. Um ícone

dizia: . Cliquei neste ícone e apareceu uma janela

grande, diferente das janelinhas que geralmente aparecem no “campo senha” dos sites da internet. Nele estava escrito em cores vivas: . Como não possuía nenhuma, digitei as seguintes palavras: “Não tenho senha, mas quero saber qual a sua opinião sobre o que é homem e o que é mulher?” A página da internet virou-se como num livro e nesta nova página apareceu uma criança de mais ou menos uns quatro anos de idade. O site era tão nítido que o menino parecia falar diretamente comigo. Ele disse:

40 A “Viagem de Fantasia” já havia sido criada, mas ainda não tinha um nome. “Os Dunps” são de autoria de

Jossiênia Macêdo e Danielle Rebouças (Estudantes de Psicologia da Universidade de Fortaleza - Unifor) que ao me assessorem nas análises de dados deste capítulo criaram os Dunps. Segundo elas, trata-se da junção dos verbos “Dançar com Pular”. Aproveitei esta criação para enriquecer a viagem de fantasia do site. Os Dunps como se verá, trata-se da fusão de horizontes de sentidos das crianças da Educação Infantil, aspectos do meu pensamento infantil e alguns poderes mágicos configurados juntos.

. Digitei: “Obrigado por me deixar entrar mesmo sem a senha”. O

menino retrucou: ! " #. Fiquei surpreso, pois agora ele

falava mesmo, diretamente, comigo. Então digitei: “Mas eu não disse nenhuma senha!” Ele

me explicou: $ ! % &" ' ( .

Falei: “Ah! Eu também preciso saber como é ser criança e como ela compreende o que é o homem e o que é a mulher pelo jogo!” Ele disse: )* ! ' %%% . Eu argumentei e, sem perceber, não estava mais digitando, mas falando diretamente com o Dunp: “Mas olha, se eu não souber como é ser criança, não vou compreender bem o que vocês me disserem!” Ele olhou-me diretamente nos olhos dando atenção a minha lógica e disse: +

' ! ( , , ' #. Meu mundo girou.

O Dunp sorriu para mim e de repente me vi transportado para uma sala do site onde ele se encontrava. O lugar era lindo. As cores eram vivas e havia brinquedos, brincadeiras e jogos dos mais variados tipos. Meu peito era todo sentimento de criança numa mistura de sensações de liberdade, ar puro, fluidez, fé e alegria, mas continuava a ser adulto. Todas as minhas investigações sobre a compreensão de gênero até aqui coletadas se transformaram em sacolas. Estava com a sacola do capítulo sobre mim mesmo, outra sacola com os horizontes de sentidos da minha família, outra com os discursos dos pais das crianças e ainda mais duas referentes à Educação Infantil e uma que se mexia muito e se abriu com todas as crianças saindo correndo para brincar neste universo, pulando e dançando e, de vez em quando, eu reconhecia algumas nos olhos do Dunp. Em meio a cores e a beleza do momento fui deixando cair a bagagem, mas sabendo que não daria para me desfazer simplesmente do material de compreensão até aqui colhido nem de minhas tradições. Por via das dúvidas escondi no bolso pedaços de minha tradição. O menino Dunp me deixou em um escritório e me disse:

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P: Diga-me uma coisa... Quem são vocês?

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P: Puxa, complexo, não?

P: Me diz, que poderes mágicos são esses? D: / % &" ' ' * ' ' ' ' ' 0 ' % P: Que interessante... D: ) ( % 1 " ' * , ' % ) ' ' ' ! ' ' 2 ' , ( , ' ( ' ' ! ' ' ' ' % & , , ! * %

P: Desculpe, mas este jogo tem que ser sério.

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P: Você está citando o Gadamer!

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P: Legal. Conheço um pouco dele. E daí, o que ele responde?

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P: Quer dizer que “seriedade” e “jogo” estão juntos?

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P: Eu estou defendendo exatamente essa tese. Isso quer dizer que vocês levam a sério cada jogo?

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P: (Lembrei dos pedaços da tradição escondidos em meu bolso!).

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P: Bom, dentro delas tem minhas conversas com minha família, com os pais das crianças, com a escola e com algumas crianças que escapuliram... Na verdade eu fiz toda essa trajetória para chegar até aqui.

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P: É que eu queria compreender os meus jogos e os jogos dos outros para poder ter perguntas mais inteligentes para fazer a vocês sobre o que é homem e o que é mulher através do jogo...

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P: Não é novidade isso?

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Huizinga procurou descobrir o momento do jogo em toda cultura, elaborando sobretudo a correlação do jogo infantil e animal com os ‘jogos sagrados’ do culto. Isso o levou a reconhecer a peculiar indecisão na consciência lúdica que simplesmente torna impossível distinguir entre crença e descrença. ‘O próprio selvagem não conhece nenhuma distinção entre ser e jogar, não conhece nenhuma identidade, nenhuma imagem ou símbolo. É por isso que nos questionamos se a melhor forma de nos aproximarmos do estado do espírito do selvagem em sua ação sacral não será fixando-nos no termo primário do ‘jogar’. No nosso conceito de jogo desfaz-se a distinção entre crença e simulação’. (GADAMER, 2008a, p. 157-158).

P: Agora começo a compreender melhor. É o sentido medial do jogo. Como diz seu vovô Gadamer (2008a, p. 158) há um “primado do jogo face à consciência do jogador”.

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P: Compreendo. Numa linguagem mais científica o jogo acontece antes mesmo dos nossos processos subjetivos e é jogando que passamos a entender...

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P: Então eu estou mais do que jogado nesta tese... Mas voltando às questões da compreensão do que é o homem e do que é a mulher...

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P: Fale-me das regras!

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P: Deixa ver se compreendi... É como Gadamer (2008a, p. 160) diz: “O que constitui a essência do jogo são as regras e disposições que prescrevem o preenchimento do espaço lúdico”, e isto quer dizer que, no espaço do jogo as regras também passam a ser jogadas.

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P: Será que existem jogos que não têm regras?

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P: E quanto ao jogo da compreensão do que é homem e do que é mulher? Qual o tamanho desse jogo?

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P: Quer dizer que são os adultos que instigam vocês?

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P: Ok. Compreendi. E como vocês aprendem as regras do que é o homem e o que é a mulher?

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P: Mas e se vocês não concordarem com as regras da tradição?

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P: Pode explicar melhor...

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P: Ser homem e ser mulher são fantasias?

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P: Como são esses tipos de “fantasias”?

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P: Isso para vocês é um jogo?

P: E quando vocês não concordam em vestir uma determinada fantasia, um determinado “apetrecho”?

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P: E isso não incomoda vocês?

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P: Isso também é um jogo?

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P: Mas quando os adultos e suas tradições dizem: “Menino não pode isso, menina não pode aquilo” não são palavras que deveriam deixar de acontecer?

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P: Entendo, quer dizer que as palavras da tradição dizendo “Não pode isso, não pode aquilo” ao serem ditas pelos adultos acabam por provocar em vocês uma resposta?

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P: Figuras?

41 Minha Vida em Cor de Rosa. Vídeo. Roteiro Chris Vander. Produção Carole Scotta Direção: Alain Berliner.

Produção: Haut et Court. 110 min. 1997. Pandora Filmes, São Paulo/SP. O filme conta as desventuras do garoto Ludovic (Georges du Fresne) que acredita que Deus jogou acidentalmente um cromossomo Y no momento de sua concepção.

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P: Eu tentei encontrar estas figuras do que é homem e do que é mulher observando como elas aparecem em várias situações.

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P: Na academia a gente chama isso de um jogo dialético.

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P: Linguagem e jogo então estão ligados!

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P: Isso me faz lembrar o que Gadamer (2008a, p. 163) dizia: “O jogo já não é mais um mero auto-representar-se de um movimento ordenado, nem o mero representar, onde se perde a criança que brinca, mas é ‘representar para...’.”

D: ? ' ' ' , 0 %%% P: Um sentido? D: = '% M ' ' ' ' ' ' ' ' ' ' ' ' , % M ' ' ' ' ' % ) ' ' ( ' ' ' % = ' % &" ' ' ' ' '% ? ' , ' % ) , , ' % ) ' ' ' % * ( , ' , ' ' , , ' , % ? + , % , ' ' ' ' ' %

P: É o que seu avô Gadamer (2008a, p. 174) diz: “O que chamamos de configuração só é assim na medida em que se representa como um todo com sentido.”

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P: Ok. Será que eu poderia pegar um exemplo retirado de minhas observações da pesquisa de campo para a gente conversar sobre essas coisas todas e ir apresentando para o leitor que está ouvindo nossa conversa?

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P: Legal. Eu já tenho um titulo. Chama-se: “Na boa?” e “Nelas!”: Representações de modos de ser homem e modos de ser mulher pelas crianças.