Falar sobre as eleições estaduais de 2010 é falar sobre dois personagens que fizeram – e fazem – parte dos jogos de poder do Estado e contribuíram com seu nome e influência para balançar as disputas eleitorais, mesmo que indiretamente. Trata-se de José Maranhão, candidato à época ao governo da Paraíba, e Cássio Cunha Lima, filho do influente político Ronaldo Cunha Lima, e que emprestou seu prestígio ao candidato Ricardo Coutinho.
A história, que é agora apresentada em oposição, começa, no entanto, em uma caminhada comum. José Maranhão e Ronaldo Cunha Lima, antes de 1998, estavam filiados ao mesmo partido, o PMDB. Aliados, Cunha Lima deu apoio à candidatura de Antônio Mariz como governador, em 1994, que tinha justamente José Maranhão como vice. Mariz, entretanto, faleceu pouco tempo depois de sua vitória, em 1995, assumindo, então, Maranhão o governo do estado. E é nesse ponto, em que Maranhão ganha vez e voz e Ronaldo Cunha Lima tenta se manter no papel de mandatário, que a relação dos dois começa a azedar.
O episódio mais conhecido dessa fase aconteceu no Clube Campestre de Campina Grande, em 1998, por ocasião do aniversário de Ronaldo Cunha Lima. Recebido com um animado festejo de fogos no evento, Maranhão atiçou a ira de Cunha Lima, que o lembrou que sua permanência no governo se devia, em grande parte, ao seu desejo. Entre lendas e fatos, Mello (2010, p.60) pontua que Ronaldo Cunha Lima:
(...) esgotado o ciclo militar, em 1985, tornou-se dominante na Paraíba, ao eleger governadores, senadores, a maioria das bancadas federal e estadual em 1986, 1990 e 1994, além das prefeituras das principais cidades. Cristalizando dissensões próprias de agremiação que inchava, o episódio de 98 colocou frente a frente o governador José Maranhão, eleito vice-governador em 1994 e tornado titular com o falecimento de Antônio Mariz, em 16 de setembro de 1995, e o chamado grupo Cunha Lima, sob a liderança do senador Ronaldo. Dentro do PMDB, enquanto Maranhão ampliava espaços, os Cunha Lima fortaleciam-se com o controle das prefeituras de João Pessoa, com Cícero Lucena, e Campina Grande, através de Cássio Cunha Lima, filho de Ronaldo e apregoado sucessor deste.
O sobrenome Cunha Lima, então, era reconhecido como uma força política capaz de decidir disputas eleitorais e que, por isso, gozava de grande prestígio no meio político paraibano. Maranhão, que passou a despontar como rival para a família Cunha Lima quando
assumiu plenamente o cargo de governador, acima de tudo, iniciava uma nova dicotomia na política do estado, que perdura até os dias atuais.
O rompimento oficial aconteceu alguns anos depois do ocorrido no aniversário de Ronaldo Cunha Lima, em 2001, quando ele e seu filho Cássio Cunha Lima romperam com o PMDB e passaram a fazer parte do PSDB. Daí para o confronto nas urnas não demorou muito: em 2002, Maranhão renunciou ao governo para se candidatar a uma vaga no Senado Federal, deixando o cargo com seu vice Roberto Paulino (PMDB). Paulino tentou a reeleição ao governo com o apoio de Maranhão, mas foi derrotado justamente por Cássio Cunha Lima, que tinha a seu favor a consolidada tradição de seu nome.
Essas eleições de 2002 foram bastante emblemáticas justamente por mostrar pela primeira vez a polarização que marcaria por anos a política paraibana. Em uma análise do período, Vieira (2006) afirma que as dinâmicas políticas paraibanas passaram por uma profunda reestruturação depois do rompimento dos dois núcleos. A ascensão da lógica maranhistas versus ronaldistas não atingiu apenas os dois personagens principais, mas interferiu nas relações políticas do Estado como todo. De acordo com o autor:
Com o racha da convenção do PMDB que dividiu o Estado entre maranhistas e ronaldistas, tudo mudou radicalmente. De repente, parceiros viraram adversários; amigos tinham de disfarçar seu relacionamento; antigos correligionários se transformaram em inimigos ferozes. Se, por um lado, essa polarização carregava o mérito de servir à democracia, por outro, obrigava a comunidade que gravitava em torno da política a admitir a tragédia de que um lado ficaria privado das benesses do poder sempre que o outro assumisse (VIEIRA, 2006, p.69).
Isso acontece, principalmente, por termos na Paraíba a política como “principal atividade econômica e, disparadamente, a maior fonte de empregos” (VIEIRA, 2006, p.23). Quando um grupo está no poder, então, seus aliados e simpatizantes ganham espaço nos gabinetes e escritórios públicos do Estado, de forma que é muito comum defender um candidato a um cargo político tendo em vista um emprego após sua vitória nas urnas.
Com a polarização da política paraibana, nessa época, não foi diferente. Acirrada, a disputa entre Cássio Cunha Lima e o apadrinhado de José Maranhão, Roberto Paulino, foi resolvida no segundo turno. Os números apertados18 (51,4% dos votos para Cunha Lima e 48,6% para Paulino) também refletiam a polarização das ruas, dos eleitores que defendiam ferozmente seus candidatos e construíam um cenário de intensa rivalidade. Da mesma forma,
18
Pode-se ver os números do primeiro e segundo turnos das eleições estaduais de 2002 no link: <http://eleicoes.uol.com.br/2002/resultados/pb_resultado.jhtm>
os números tão próximos também mostravam que essa polarização era bastante equilibrada e que, apesar da força da política dos Cunha Lima, sua dominação era questionável.
Um novo embate entre os dois polos políticos ocorreu em 2006, quando, dessa vez, Cássio Cunha Lima enfrentou Maranhão diretamente pelo cargo de governador da Paraíba e saiu vencedor. Seu governo, no entanto, não durou por muito tempo. Em 2009, o filho de Ronaldo Cunha Lima teve seu mandato cassado e teve que deixar o cargo para o vice- colocado na disputa eleitoral. Foi nesse momento, então, que Maranhão retornou ao poder.
E é ao final deste mandato “pela metade” de Maranhão que a disputa que analisamos se localiza. A próxima corrida eleitoral para o governo do Estado, ocorrida em 2010 e foco desta dissertação, foi protagonizada por Maranhão e Ricardo Coutinho e foi, em certo modo, a continuação da disputa de poder que começou ainda na década de 1990. Apesar de afastado do governo, Cássio Cunha Lima não se ausentou da disputa, candidatou-se ao Senado e ainda militou em favor de Ricardo Coutinho, o que foi motivo para troca de farpas ainda mais intensas do que de costume.
Era, mais uma vez, a hora da família Cunha Lima colocar à prova seu poder político na Paraíba. Apoiando Coutinho contra Maranhão, Cássio poderia emergir como o grande vitorioso, já que mostraria que continua forte perante o eleitorado, mesmo depois de um escândalo político. E, muito por isso, como veremos adiante, sua campanha para o Senado Federal e seu apoio a Ricardo Coutinho eram sempre acompanhados de um discurso sobre a injustiça de sua condenação.
Do lado de Maranhão, o tom que marcaria sua campanha – além dos ataques diretos à honra e à honestidade de seu rival e, consequentemente, de seu novo apadrinhado – era o pedido de uma chance para ter um novo mandato, dessa vez um completo. Por ter assumido quase ao final do mandato que seria de Cássio, sua justificativa mais usada na campanha para camuflar falhas na administração era a de que não teve tempo hábil.
Outro aspecto interessante de ser apontado é a inversão da troca de acusações em torno do coronelismo. Em 2002, quando a disputa era entre o apadrinhado de Maranhão, José Paulino, e Cássio Cunha Lima, a campanha do peemedebista fez duras críticas relacionadas ao poder que a família Cunha Lima detinha no meio político paraibano, com intensas referências aos fantasmas do atraso político. A tática da campanha de Paulino, então, de acordo com Vieira (2006), era fazer com que essas referências à família Cunha Lima fizessem sentido. De acordo com o autor:
A “marca” Cunha Lima deveria remeter a características notoriamente nocivas ao
desenvolvimento e à evolução cultural do povo paraibano: o coronelismo, a indústria da seca, os currais eleitorais, o voto de cabresto, os matadores de aluguel, os confrontos sanguinários entre famílias, a corrupção e a chantagem eleitoreira, entre outros conceitos que envergonham os paraibanos (VIEIRA, 2006, p.19).
Em oposição a esses estigmas, colocou-se o lado maranhista como uma solução para essas mazelas do passado, com uma abordagem relacionada “à retidão e à austeridade na administração do dinheiro público e à realização de obras fundamentais, historicamente postergadas” (VIEIRA, 2006, p.20). Era uma forma de atrelar a força do núcleo Cunha Lima a tudo que é nocivo na política e o núcleo maranhista ao pensamento progressista e desvinculado de qualquer prática de subserviência política.
Ironicamente, no entanto, na eleição seguinte, em 2010, o cenário se inverteu. O apadrinhado de Cássio Cunha Lima, Ricardo Coutinho, agora batia de frente com o próprio Maranhão. E era justamente para Maranhão que Coutinho remetia as mesmas críticas que anos atrás eram remetidas ao seu principal apoiador. Como veremos com mais detalhes na análise das matérias, na próxima seção, Maranhão foi frequentemente acusado de pertencer ao atraso da política dos coronéis. Em resumo, a eleição de 2010 trouxe novos e velhos personagens, rearranjos de antigos debates e o aprofundamento da polarização da política paraibana. E é neste contexto que nossa análise acontece.