Nesse capítulo buscamos perceber a inclusão produtiva como um instrumento de fundamental importância nos processos de segurança social, contribuindo com a superação da realidade material resultante na melhoria de vida dos sujeitos do campo em meio ao confronto ideológico e concreto da defesa do Estado a propriedade privada e o acumulo do capital.
O estudo questiona a qualidade de vida da população do campo, inter- relacionando contradições que se encontram pela manipulação do Poder Público de âmbito social, cultural, econômico, ambiental e tecnológico.
A possibilidade de uma rede de emancipação humana redistribuída pela geração de trabalho e renda no auxílio à autonomia na qualidade de vida das famílias da classe trabalhadora no campo, produz pertencimento e participação no resgate à cidadania com princípios na igualdade, potencializando seus efeitos inserindo-os/as a formação técnica e profissional nos espaços escolares e não escolares transformando o modo de existir da agricultura familiar.
Toda a riqueza construída ao longo do tempo desde os primeiros agrupamentos humanos das tidas sociedades “civilizadas”, se deram através da exploração dos/as escravizados/as, dos/as invisíveis, dos/as sem alma, dos/as descamisados/as, dos/as fracos/as, dos/as derrotados/as, dos/as vencidos/as, dos/as cansados/as, dos/as desamados/as.
A opressão sub-humana dessas castas (sobreviventes) garantiu a boa vida de um grupo seleto, proporcionando qualidade de vida em troca de vidas, todas humanas. Isto é, a dizimação e o genocídio de sociedades inteiras, edificaram a extravagância e o luxo de outras sociedades.
Esse sistema escravagista de eterna subserviência se sofisticou e foi incorporado as sociedades modernas dentro das reorganizações estruturantes na elaboração dos“Estados Democráticos”.
Fica evidente essa realidade quando investigamos em que sentido vão os direcionamentos das ações sociais perpetuando a condição de sujeição e não de superação da classe trabalhadora, inferiorizada.
Essa prática ideológica se concretiza nos centros urbanos e no campo, mesmo compreendendo as complexidades e importâncias da discussão do meio urbano, iremosnos delimitar ao campo por ser o lugar e foco desse estudo.
Como já vimos em outros tópicos acima, toda a construção dos modelos de produção agrários no Brasil se deu permeando interesses liberais que influenciaram todas as épocas na história, datando da invasão territorial de Portugal no nosso litoral até a atualidade no século XXI. Todos os esforços de manterem cativos os povos tradicionais em diferentes épocas desaguam na sua permanente instabilidade junto a pobreza, ao adoecimento e a fome.
Pensando no universo do campo e em suas complexidades socioeconômicas e psicossociais, Beserra(2017), nos demonstra algumas das diferenças que compõem o mosaico intrínseco das relações de trabalho e renda com suas construções subjetivas definindo as multidimensões do dia a dia camponês. Através da:
relação com a Terra por meio da sua propriedade jurídica produz os pequenos proprietários, que, por sua vez, não compõem um conjunto homogêneo. Dentro dessa categoria podemos encontrar uma diversidade extraordinária de possibilidades:
a) os que possuem mais ou menos terras;
b) os que vivem em condições melhores ou piores; c) os que se utilizam ou não de empréstimos bancários;
d) os que moram mais próximos ou mais distantes dos centros urbanos e complementam ou não as atividades agrícolas com atividades urbanas; e) os cujos filhos migram para os grandes centros do país e da ajuda desses
filhos depende a continuidade da sua condição de camponês pequeno proprietário;
f) os cujas as terras são tão exíguas que os obrigam ao assalariamento em propriedades próximas e/ou ao arrendamento de mais parcelas de terra necessárias à subsistência de toda a família, etc. (BESERRA, 2017, p.19)
É importante compreendermos estas situações acima descritas pela autora, quando localiza a realidade econômica das famílias agricultoras no campo, pois, através desta demonstração podemos ter um olhar mais geral, implicando na dimensão e no estado que se encontram as famílias camponesas na atualidade.
Nos últimos anos o campo tem sido palco intenso de pesquisas e estudos promovidos por diversos agentes sociais públicos e privados que buscam produzir propostas e sugestões de superações das dificuldades com base nos princípios de cada agência.
Deve-se ter atenção nas informações divulgadas por tais agências, pois, nesse momento se evidenciam suas reais intenções e a que interesses servem, se ao povo ou ao capital.
No século XIX, auge da revolução industrial na Inglaterra, na perspectiva da economia política e análises sobre a organização no desenvolvimento da produção capitalista, Marx (2012) sistematiza “o modelo agrícola da época e o controle de todos os bens da sociedade por meio das teorias da mercadoria, do valor, da mais-valia, da acumulação e da reprodução ampliada do capital”, entretanto:
[…] ao estudar a forma como o capital se desenvolvia e organizava a produção na agricultura, concluiu que havia particularidades e especificidades relacionadas com a natureza, o ciclo da produção, o limite físico da unidade de produção e a dispersão dos produtores capitalistas. Assim, a teoria que explicava o funcionamento do capital dentro de uma fábrica, não era suficiente para explicar a realidade do capital na produção agrícola. Ele percebeu, portanto, que havia muitas diferenças entre a atuação do capital na indústria, no comércio e na agricultura. (CALDART et al., 2012, p. 667)
Assim, entendemos que a indústria e o comércio tem a sua lógica e funcionamento semelhantes sobre as taxas médias de lucro por ramo de atividade sobre seus produtos, porém, na agricultura, a lógica da produção agrícola não se encaixa nas mesmas características, não se atendo apenas ao produto, mas, também sobre todas as terras na produção de todos os produtos agrícolas colocados no mercado.
Diante dessa ideia e na concepção da inserção produtiva na geração de trabalho e renda é fundamental que compreendamos suas particularidades e independências nos processos ao propor um estudo que se debruça sobre a atuação coletiva de grupos familiares e suas produções agrícolas.
Principalmente, quando a real intenção do Estado é o uso de políticas públicas emergenciais de retenção de pobre no campoe não a superação dos desafios territoriais pela melhoria de vida da classe trabalhadora do semiárido. Outro ponto deve ser observado, o enfrentamento da lógica neoliberal intrínseca na sociedade civil executada como projeto popular.
Baseado nas análises sobre o capital e a produção perpassando pelas inter- relações entre educação do campo, juventude, família e trabalho que a autora acima explana, podemos dizer que a inserção produtiva, também, chamada de geração de trabalho e renda faz parte das ações do projeto popular desenvolvido, pretendendo criar ações que assegurem as necessidades das famílias em situação de vulnerabilidade social.
Para isso, no auxílio as famílias, o Estado atua através do Centro de Referência e Assistência Social (CRAS), pelo Serviço de Proteção e Atendimento Integral à Família (PAIF).
As políticas públicas existem pela falta do Estado em não garantir a estruturação com qualidade dos serviços públicos essenciais para a classe trabalhadora e a crítica a essas políticas públicas é cabida desde sua concepção a execução, onde, ao longo da história governantes se utilizam de programas nacionais para controle social e benefício pessoal.
Com o discurso de progresso e desenvolvimento junto a falta de clareza política,podemos observar na atualidade, uma gigantesca onda conservadora e reacionária de proporções globais associada aos movimentos totalitários que deu início na Europa nos anos 30. O fascismo e o nazismo se utilizaram do poder da mídia atravésda propaganda para controle e doutrinação da população na aceitação e convencimento dos seus projetos diante da opinião pública.
Os líderes de tais movimentos justificaram suas cruéis atrocidades, em meio a aplausos e apoio social que recebiam, dissimulavam por meio da eloquência, da oratória e da persuasão ao custo da morte de milhares de seres humanos, alterando para sempre a vida de outros milhões.
Quando o capital precisa avançar, ou seja, ampliar seus lucros, ele se ajusta, se readéqua, se metamorfoseia. Trata-se de aumentar sua dominação política e jurídica comprando a classe política de um país que cria uma crise econômica e desestabilidade financeiraorquestrando o caos social através dos veículos de comunicação que condensam e deturpam informações para manipular a opinião pública e a população em massa.
Foi o que vimos com o impeachment da Presidenta Dilma Rousseff que permaneceu no poder até onde foi útil para as elites e oligarquias econômicas, a partir do momento que ela não era mais necessária, trataram de substituí-la por seu vice, que prontamente vem atendendo a todas solicitações imperialistas, agindo contra a sociedade brasileira, entregando as riquezas do país, financiado pelo capital estrangeiro.
A primeira ação do governo é a restrição de investimentos e cortes nas políticas públicas no atendimento dos serviços essenciais como o seu congelamento por vinte anos. Seguido de medidas que vão na retirada de direitos trabalhistas com a desculpa de reajuste orçamentário, logo atrás, vêm as privatizações, as concessões e as
vendas de terras indiscriminadas para estrangeiros para a exploração das riquezas naturais com reserva de capital humano.
Outros pontos atingidos por essas quadrilhas dos mais altos escalões do governo são as leis em suas formas como a Constituição Federal, leis orgânicas dos municípios e estados, os estatutos de proteção e conservação da vida humana e ambiental, a transição da concepção dos serviços públicos como direito para uma relação mercantil e comercial tratando seu público alvo como clientela.
Mesmo a população mantendo toda a estrutura do Estado e pagando caro por todas as demandas e ingerências, nesse movimento a classe trabalhadora é desqualificada e tratada como inferior.
Saberes tradicionais egrupos étnicos são descaracterizados, suas diferenças desrespeitadas, o trabalho escravo é justificado. A classe trabalhadora é explorada e subjugada até o fim de suas forçaseresponsabilizada pelo sofrimento que passam.
Atualmente, a propaganda ainda fascina, ergue governos e os destronam e mais uma vez vemos o povo cheio de informação, porém, sem clareza, agem feito ovelhas arrebanhadas, assustados, acuados e esgotados de sofrerem tantas violências.Buscam extravasar fazendo justiça com as próprias mãos, não compreendendo quem são seus reais inimigos, pois os admiram.
A propaganda é um aparelho ideológico da burguesia, essa afirmação se concretiza quando as informações veiculadas são dissimulações para ludibriar ou confundir a opinião pública.
Isto é, quando a mídia se utiliza de seu acesso e poder de convencimento para inculcar uma ideia que condicione a população a atender seus interesses subliminares, manipulando a população que pensa agir conscientemente, transformando assim, sua importância e responsabilidade social em um cruel e massivo jogo de alienação.
Mas não queremos embarcar nessa discussão da propaganda, conscientização versus alienação, porém, vejo relevância para o/a leitor/a entender a potência do poder que é investido diariamente dentro de nossas casas através de um aparelho ingênuo e indefeso como a televisão.
Como as propagandas do agronegócio, do sucesso dos serviços públicos, da diminuição da miséria e sempre muitos produtos para preencher o vazio emocional e psicológico que sentimos, estão convivendo conosco em nossos momentos mais íntimos e disputando nossa atenção com nossos entes queridos.
Também, alertamos para as ações do governo junto a população camponesa que traz um discurso inovador, mas cheio de velhas práticas avançando no paternalismo exercendo um controle bondoso sobre a população através de suas instituições.
Há contradição nas instituições educacionais que funcionam como braços do governo fortalecendo a reprodução das desigualdades sociais, mesmo quando formam profissionais críticos e reflexivos, interessados e empenhados em contribuírem com as transformações das realidades as quais estão inseridos.
Toda a educação reflete a dimensão do trabalho mecânico, pois, todos os investimentos das células sociais, por mais distintas que sejam, estão engajadas na preparação do indivíduo voltados para a execução de uma tarefa. A crítica que cabe é que tipo de formação e para qual trabalho estamos sendo formados, já que:
[…] a brutalização do trabalho pelo capital, no processo de constituição do modo de produção capitalista, desde cedo foi o que impulsionou as críticas radicais ao novo modo de produção, à visão social do mundo e ao poder político que iam se afirmando. Também desencadeou as lutas pelos direitos, por condições dignas de vida e pela possibilidade de afirmação das identidades, as lutas dos movimentos reivindicatórios, de contestação e de busca pelo poder político do século XX. (CALDART et al., 2012, p. 280)
A concepção dialética do trabalho como princípio educativo para a formação integral dos sujeitos está na superação do capital referente a exploração humana. O fato é o entendimento que se tem diante das instituições e organizações, nacionais ou internacionais, que se dedicam a diminuição das desigualdades, entretanto, seu objetivo se perde quando seus resultados se expressam unicamente nos lucros, não conseguindo acompanhar as contradições promovidas pelo trabalho, fortalecendo seu processo de negação.
O ser humano tem seu caráter fundamental humano construído no trabalho, por isso, não podemos dissocia-lo da educaçãoque em princípio, deveria ter sua relação baseada na humanização reafirmando seu princípio formativo mediatizado pelas diversas realidades contribuindo com as manifestações concretas nas reelaborações sociais. Segundo Caldartapud Gramsci (2012), “tal interiorização é fundamental para não formar pessoas que se comportem como mamíferos de luxo, vale dizer pessoas que acham natural viver do trabalho dos outros, explorando-os”.
Lucidez política e coerência ética é o que se busca nas relações sociais junto ao Estado rumo a superação das desigualdades, pois, o que for diferente disso pode se configurar em oportunismo, populismo ou paternalismo. Afirma Nunes apud Galeano
(2012), “cada vez resta mais gente à beira do caminho, sem trabalho no campo, onde o latifúndio reina com suas gigantescas terras improdutivas, e sem trabalho na cidade, onde reinam as máquinas: o sistema vomita homens”.
A práxis22 proporciona reflexões necessárias para o desvelamento da realidade, como Nunes afirma acima. Esse fenômeno fortalece as mudanças através da percepção das contradições, implicando diretamente na forma de subsistência da população camponesa. Toda a inserção produtiva se dá através do ingresso no mercado de trabalho se efetivando pela geração de trabalho e renda que estão ligados diretamente no ganho de importâncias por pessoa física ou jurídica a qual houve esforço físico ou intelectual, gerando remuneração pelo trabalho ou serviço prestado, onde, esse valor financeiro deve ser sujeito a obrigações tributárias ou não.
Diferentemente da classe burguesa que vive da exploração do trabalho de seus empregados, a classe trabalhadora só tem sua força de trabalho para vender. Viver do próprio trabalho é uma exigência social. É sobre os rumos dessa formação profissional dos/as filhos/as do proletariado que surgem as críticas, pois, um educador/a não pode ter seus princípios e valores fundamentados no senso comum com foco na futilidade e na superficialidade das relações.
Atualmente a agricultura familiar é responsável por 70% dos alimentos consumidos no Brasil, abastece 4,3 milhões de estabelecimentos comerciais, absorve 74% da mão-de-obra no campo e é responsável por 33% do valor bruto da produção agropecuária em todo o território nacional.
Toda essa explanação é para promover uma reflexão: a intencionalidade histórica da desvalorização da agricultura familiar e suas implicações de dependência junto ao Estado que controla e impede seu crescimento e autonomia, repercutindo diretamente nas manifestações materiais e concretas da juventude.
Concluo esse capítulo ressaltando a importância de ações que fortaleçam a segurança social na perspectiva da superação dos problemas, onde, não tem como fugir do confronto ideológico ou da negação das contradições proporcionada por reflexões que conduzam a qualidade de vida das famílias camponesas por meio de sua participação nas articulações dialogadas com o Estado e a sociedade civil.
22 A práxis refere-se em geral à atividade livre, universal, criativa por meio da qual o homem cria, faz,