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Em sua Contribuição para a crítica de mim mesmo, de 1915, Croce traçou seu itinerário intelectual, as influências que o formaram, apontando os nomes decisivos de Giambattista Vico, de Georg Wilhelm Friedrich Hegel, de Francesco de Sanctis, de Karl Marx e de Antonio Labriola. Outros nomes são citados por Croce como Giovanni Gentile e Giosué Carducci (1835-1907), que também lhe teriam influenciado. É frequente encontrar juízos sobre a obra de Croce, que a veem como marcada pela decisiva influência de Vico e De Sanctis, que é como o próprio Croce indicou. Arnaldo Momigliano achou necessário refazer o quadro geral das influências intelectuais sobre Croce afirmando que o lugar de Marx entre essas influências é maior que Croce quer admitir. Diz Momigliano: “Marx – e não Francesco de Sanctis – foi quem conduziu Croce ao redescobrimento de Hegel e Maquiavel e, talvez, inclusive do napolitano Vico”[217]. Croce buscou minimizar a influência de Labriola sobre sua formação, ao mesmo tempo em que disse: “Aproximei-me mais diretamente de Hegel graças à amizade e a colaboração com Gentile [...]”[218].

Uma apreciação equilibrada sobre as fontes formativas do pensamento de Croce tem que partir da compreensão do conjunto de sua obra, isto é, do que efetivamente ele tem de característico. É a partir daí que será possível aferir a importância relativa dos elementos que o formam. De fato, Croce deve ser visto tanto como um filósofo sistemático quanto deve ser considerado, como fez Gramsci, como: 1) teórico de estética e da crítica literária e artística; 2) como crítico de filosofia de práxis e como teórico de historiografia; 3) como moralista e mestre de vida, “construtor de princípios de conduta

que se abstraem de qualquer confissão religiosa, mostrando, aliás, como se pode viver sem religião”[219].

Tanto Gramsci quanto Momigliano têm razão quando sublinham que a presença de Marx é maior na obra de Croce do que ele parece querer admitir. Contudo, se em grande medida o pensamento de Croce busca oferecer respostas alternativas às de Marx, sua obra tem uma genuína preocupação sistemática que, ao longo de sua elaboração, convergiu para se constituir uma Filosofia do Espírito em quatro grandes blocos: 1) Estética; 2) Lógica; 3) Filosofia da Prática: ética e economia; 4) História.

Se for assim, então toda a obra ensaística, as monografias, as obras historiográficas de Croce devem ser vistas como elementos intermediários de um silogismo dialético que perfaz, à sua maneira, o caminho da generalidade, do universal abstrato ao particular, às formas particulares da presentificação do ser; e a partir daí, ao que é possível postular como singularidade, o universal- concreto, que no caso de Croce é a história tomada como realização do Espírito. Nesse sentido, é preciso diferenciar a Filosofia do espírito de Croce, tanto da Filosofia da práxis, que é como Gramsci vê o pensamento de Marx, quanto das Ciências do espírito, corrente de pensamento contemporânea da Filosofia do espírito, com quem tem semelhanças: seja na relação comum que guardam frente ao pensamento de Hegel, seja pelo igual repúdio que têm ao positivismo, seja, enfim, mais decisivamente, por serem expressões fortes do historicismo, que marcou o pensamento ocidental a partir do século XVII e que reúne, entre seus precursores, nomes como os de Vico, Voltaire (1694-1778), Montesquieu (1689-1755), Hume (1711-1776), Gibbon (1737-1794), Burke (1729-1797), Lessing (1729-1782), Winckelmann (1717-1768), Herder (1744-1803), Goethe (1749- 1832) e Ranke (1795-1886), como está no livro clássico de Friedrich Meinecke, O historicismo e

sua gênese[220].

Aos nomes citados por Meinecke devem ser agregados como expoentes do historicismo, entre outros, Wilhelm Dilthey (1833-1911), Georg Simmel (1858-1918), Oswald Spengler (1880-1936), Ernst Troeltsch (1865-1923), Friedrich Meinecke (1862-1954), Wilhelm Windelband (1848-1915) e Heinrich Rickert (1863-1936), além de Max Weber e Werner Sombart (1863-1941)[221]. Um dos princípios fundamentais do historicismo é a distinção entre as ciências histórico-sociais e as ciências naturais, tema inaugurado por Vico e que será decisivo tanto para o pensamento de Dilthey quanto para o de Croce, estabelecendo, assim, de fato, o parentesco entre a Filosofia do espírito e as

Ciências do espírito, ambas tributárias do historicismo. As ciências do espírito, diz Luckács, estão

na base de seu livro Teoria do romance , como também influenciaram Johan Huizinga (1822-1945) e seu extraordinário O outono da Idade Média, de 1919.

Croce chegou à sua Filosofia do espírito a partir de variadas fontes. Foi com Francesco de Sanctis que Croce recebeu a decisiva lição que consistiu em reconhecer na literatura, na história literária, a matéria privilegiada da manifestação do espírito. Disse Francesco Flora:

A revelação dessa consciência filosófica na história literária não foi compreendida pelos coetâneos e contemporâneos de De Sanctis, e seu verdadeiro tempo é o que se inicia na Itália com a especulação filosófica de Benedetto Croce, que descobriu de novo esse pensamento e o fez fecundo[222].

Com Francesco de Sanctis foram retomados os grandes nomes da literatura italiana, mas, sobretudo, foi materializado um método, que, inspirado em Hegel, explicitava os conteúdos

contraditórios da realidade. É isso que está na conhecida afirmação de De Sanctis, de que O

decameron de Boccaccio (1313-1375) é a Anticomédia de Dante (1265-1321). Disse De Sanctis:

Com as mesmas formas e a mesma construção de Dante, Boccaccio chega a um conceito de vida inteiramente oposto: à glorificação da carne, na qual está o repouso e a paz. A divina comédia aqui é retirada do sobrenatural, no qual Dante havia envolvido a humanidade, a si mesmo e a seu tempo, e humanizada, transformada em um castelo real, sede da cultura e do amor[223].

Trata-se, assim, de um trânsito dialético em que a tese, A divina comédia, expressão máxima da civilização feudal, dá lugar a uma antítese, O decameron, que é expressão dos novos tempos, do humanismo, da reivindicação de uma sociedade laica e livre, que caracteriza a emergência da Modernidade, em que surgem tanto o Estado quanto o indivíduo moderno mesmo, como disse Burckhardt[224]. Por quatro séculos O decameron impulsionou a poesia italiana, diz Francesco Flora:

Entre os cantos dessa poesia que chegando ao cume no século XVII se esgotou no XVIII, provocando a urgência de uma literatura mais humana, desenvolveu-se uma nova ciência terrestre e realista, primeiro na política de Maquiavel e nas experiências de Galileu, depois no pensamento de Bruno e Campanella, e por fim no de Giambattista Vico[225].

Para De Sanctis a nova literatura italiana que emergiu com o Risorgimento no século XIX era a síntese da história italiana, o desenlace do movimento dialético inaugurado pela Divina

comédia[226]. Mesmo quem não concorde integralmente com De Sanctis não pode deixar de valorizar a extraordinária visão de conjunto que ele construiu, não pode deixar de admirar a sua notável demonstração da potência heurística do pensamento hegeliano ao fazer da história da literatura italiana, isto é, da história das formas simbólicas de um povo, a encarnação da história da Itália como totalidade concreta. É essa decisiva lição que está na base do pensamento de Croce, lição em tudo apreendida de Francesco de Sanctis. Que o Risorgimento tenha se abastardado no transformismo, que a Revolução Passiva tenha interditado a construção da Itália como liberdade e solidariedade, que tenham sobrevindo os horrores da guerra e do fascismo, tudo isso não invalida o que, na visão de De Sanctis, é o incancelável desejo da plena emancipação humana.

Nesse sentido, a obra de Croce é como a continuação da de De Sanctis, num outro contexto, mais inóspito e exigente. Como De Sanctis, Croce buscou ser educador geral da nação. Se houve hesitações e tropeços no seu caminho, se ele, por certo tempo, aliou-se ao abominável, o central de seu pensamento, como disse Nicolas Tertulian, afirmou sempre os direitos imprescritíveis da humanidade, afirmou sempre a necessidade de superar o mundo dos interesses particulares pela instauração do mundo dos interesses universais[227]. Nesse artigo de Tertulian, este discípulo de Lukács defende Croce da acusação de Lukács do irremediável irracionalismo de seu pensamento. Tertulian mostra que no campo da ética, na teoria da história, e, mais amplamente, na teoria dos valores, “Croce manteve grande fidelidade aos princípios da dialética e da razão dialética. Assim, longe de rejeitar a dialética no âmbito do que estaria “morto” no pensamento de Hegel, Croce fez do princípio da contradição e da “síntese de oposições” o princípio inspirador de seu pensamento”[228]. Foi com Labriola que Croce descobriu Marx, foi com Marx que Croce teria descoberto Hegel, Maquiavel e mesmo Vico, disse Momigliano. Não é preciso aceitar, inteiramente, as teses de Gramsci e Momigliano para reconhecer que Marx está longe de ter sido desimportante no itinerário intelectual e na obra de Croce.

outras figuras. Com Georges Sorel (1847-1922), Croce debateu muito, numa extensa correspondência, temas relativos ao marxismo, à política, ao sindicalismo. Sobre esses mesmos temas Croce discutiu com o grande nome do revisionismo da socialdemocracia alemã, Eduard Bernstein (1850-1932). Sua correspondência com um dos mestres da estilística alemã, Karl Vossler (1872-1949), é copiosa. É preciso, também, reconhecer semelhanças entre algumas de suas teses e as de John Dewey (1859-1952), educador e filósofo do pragmatismo norte-americano. Croce influenciou direta e fortemente ao filósofo inglês R.G. Collingwood (1889-1943). Para H. Stuart Hughes, Croce continuou a tradição de Johan Gustav Droysen (1808-1884) e de Wilhelm Dilthey, de fazer da filosofia a metodologia da história. Grande estudioso, trabalhador infatigável, foi levado por certas escolhas antimodernistas e classizantes a ignorar nomes importantes da cultura contemporânea como Freud (1856-1939) e Max Weber[229]. Também não se pense em unanimidade favorável a Croce, que houve quem o atacasse, como Giuseppe Antonio Borgese (1882-1952), Adriano Tilgher (1887-1941), Giuseppe de Robertis (1888-1963) e Alfredo Gargiulo (1876-1949), não faltando quem, como Agripino Grieco, tenha suspeitado com iconoclasta irreverência de sua proverbial erudição[230].

Sua obra e sua presença marcaram gerações de intelectuais italianos, direta e indiretamente. Nomes como Francisco Flora (1892-1961), como Roberto Longhi (1890-1970), como Fausto Nicolini (1879-1965), como Lionello Venturi (1885-1961) estão entre seus discípulos, como também o são, de alguma forma, Giulio Carlo Argan (1909-1992) e Norberto Bobbio (1909-2004).