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Além do Movimento mais amplo, ocorrido em nível mundial, que ponderava acerca das relações existentes entre Ciência-Tecnologia-Sociedade, na década de 1960, na América Latina surgiu uma corrente de pensamento que refletia sobre as implicações sociais do processo de industrialização ocorrido nos países sul- americanos. (STRIEDER, 2012).

O processo de industrialização nesta parte do globo ocorreu de forma tardia em relação à chamada Primeira Revolução Industrial ocorrida nos países desenvolvidos, no final do século XVIII e início do século XIX, inicialmente na Inglaterra, expandindo-se depois para a Europa, Japão e Estados Unidos.

A dependência econômica mantida pela América Latina proveniente da comercialização de matérias-primas, o processo de industrialização não se firmou de imediato, tornando os países latino-americanos retardatários em comparação com outras regiões do Globo. Outro fator importante reside no fato de que esta dependência se dava também à medida que os países latino-americanos eram importadores de produtos industrializados dos países desenvolvidos.

Com o declínio da produção industrial dos países desenvolvidos, impulsionado pela Primeira Grande Guerra e pela Grande Depressão de 1929, a situação começou a mudar. Os países latino americanos se viram diante da necessidade de reformular sua relação com os países desenvolvidos e, por meio de um processo lento e complexo. Com a Primeira Guerra Mundial, o volume de exportação de países como EUA entram em declínio, forçando os países da América Latina a produzirem seus próprios bens de consumo. Com a Crise de 1929, o capital

dos países latino-americanos diminui, uma vez que seus produtos primários não puderam mais ser comprados pelos países que antes os industrializava e os revendia. Historicamente, essa situação foi mais bem percebida no Brasil, Argentina e México. Esse cenário foi intensificado pela Segunda Guerra Mundial.

Passado esse período de tensão em nível mundial, o reestabelecimento de relações econômicas dos países desenvolvidos com a América Latina foi intensificado de modo acelerado, trazendo consigo consequências de ordem social e política. Esse reestabelecimento deu-se também em países africanos e asiáticos por meio do ideal de expansão de grupos empresariais dos países ricos. O processo de expansão ocorreu com a estratégia de dispersão de multinacionais para regiões específicas do mundo, aproveitando as especificidades e fragilidades dessas regiões como a grande disponibilidade de matérias-primas, mão de obra barata e com grande abundância, leis ambientais e sindicatos trabalhistas frágeis, infraestrutura proporcionada pelos países que receberam as empresas, além do fator preponderante que é o imenso mercado consumidor.

Contudo, esse processo acelerado, como já citado, ocasionou problemas específicos como a obsolescência das tecnologias de produção empregadas pelas nações da América Latina em comparação com aquelas apresentadas pela insurgência de uma atividade industrial intensa por parte dos países desenvolvidos. Essa obsolescência acabou por tornar os produtos lá produzidos pouco competitivos em comparação com os dos concorrentes estrangeiros. É necessário pontuar que a responsabilidade de implantar um processo de nascimento de indústrias para atender às necessidades locais da América se deu por parte do Governo local por meio de manobras econômicas como proteção do mercado interno e incentivo direto e indireto à exportação. Mas isso não foi o suficiente. (DAGNINO, THOMAS, DAVYT, 2003).

Aqui se delineia um dos principais pontos de discussão do Pensamento Latino Americano sobre Ciência, Tecnologia e Sociedade (PLACTS). Para reverter a situação acima levantada, os governos latinos começaram a importar tecnologia dos países avançados para resistir às demandas mercantis de qualidade, quantidade e competitividade dos seus produtos. Tem-se aqui o início da dependência dos países latino-americanos em relação à C&T dos países desenvolvidos. (DAGNINO; THOMAS; DAVYT, 2003; STRIEDER, 2012).

Nesse sentido, os países latino-americanos não promoveram políticas de desenvolvimento científico e tecnológico que atendesse às necessidades regionais. Esses países, simplesmente, passaram a acreditar que seria possível um desenvolvimento tecnológico baseado somente na transferência de tecnologias vindas dos países desenvolvidos (DAGNINO, 2003).

A lógica de importar a C&T estrangeira acabou por impregnar na região a ideia de que o desenvolvimento da ciência e tecnologia dos países desenvolvidos seria decisivo para proporcionar às nações periféricas o desenvolvimento econômico e social. (DAGNINO, THOMAS, DAVYT, 2003). Ou seja, tem-se aqui a tentativa de implementar uma política baseada no modelo linear de desenvolvimento.

Dessa forma, há o delineamento de um movimento de intelectuais que passaram a analisar criticamente as nuances destas situações até aqui levantadas. Apesar de ser desencadeado na década de 1960, ou seja, em concomitância com as reflexões que culminaram com o Movimento CTS, o PLACTS não se ocupa somente de discutir os impactos da C&T na sociedade. Para o PLACTS, o ponto de maior consideração reside na busca de mecanismos que possam levar à consolidação de uma política de C&T que garanta uma mudança social para a região mediante reflexões críticas relacionadas ao modelo linear de desenvolvimento outrora implementado na América Latina. (DAGNINO, THOMAS, DAVYD, 2003; STRIEDER, 2012).

Essa criação de uma política de C&T citada anteriormente não está relacionada diretamente com a participação pública na Ciência, mas ela se articularia de forma clara e coerente com a identidade dos países latino-americanos. Essa política de C&T deveria estabelecer diretrizes que possibilitariam o acesso ao conhecimento como demanda social, para possibilitar assim o avanço da Ciência e da Tecnologia. (DAGNINO, 2003; STRIEDER, 2012).

Pelo fato de o Brasil se localizar na América Latina e pela importância do PLACTS no contexto de discussões sobre as interações entre Ciência-Tecnologia- Sociedade, é oportuno resgatar, neste trabalho, essa vertente que originou-se fora do cenário europeu e dos EUA.