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3. Teori

3.2 Ledelse

Tendo em vista o panorama geral dos dados estatísticos da violência contra mulheres e as evidências do movimento feminista para os estudos de gênero, pode-se inferir que há uma relação intrínseca entre o tema da violência conjugal e as implicações da estrutura do patriarcado nas relações de gênero. Saffioti (2003) afirma que as estruturas patriarcais de poder estão presentes em todas as instituições sociais. Para a autora, nada ocorre fora destas estruturas patriarcais. Este modelo colocou o homem (e o que se refere ao masculino) no vértice da hierarquia e lhe conferiu valores superestimados socialmente, como domínio do espaço público, legitimidade da força bruta e referência como ser racional7 e objetivo, conforme modelo da ciência positivista.

Segundo Johnson (1997), a assimetria entre os gêneros nasceu quando da descoberta da participação masculina no ato da fecundação, isto entre os anos 5000 aC e 4500 aC. Até então, as mulheres eram consideradas seres mágicos por serem capazes de se auto- fecundarem. A imprescindibilidade do homem na procriação abriu caminho para a construção

7 Irônico é, contudo, o fato de ser justamente o homem, referente histórico e atual da racionalidade, o grande

agressor mundial (de acordo com estatísticas) da violência em geral, notadamente da violência contra mulheres na forma doméstica, familiar e sexual, o que é tido pelo senso comum como extremamente irracional. Outro tanto paradoxal é a desculpa usual de que isto se dá em face deste homem ter “perdido a cabeça, ou a razão”, na maioria das vezes, responsabilizando a mulher de ter sido a causa para tanto.

do domínio sobre as mulheres e deu início ao projeto de dominação-exploração (JOHNSON, 1997 apud SAFFIOTI, 2003, p.36).

A construção da diferença entre os sexos, apresentada na seção 2, foi configurada pelas virtualidades do organismo, sendo a figura da mulher mais aproximada ao pólo da natureza/sentimento, enquanto o homem se aproximaria do pólo da civilização/razão. O século XIX, no qual a supremacia do homem na esfera pública era dominante, contribuiu para a cisão do espaço público e empurrou a mulher e tudo que estaria vinculada à sua representação (emoção, subjetividade etc.) para a esfera doméstica. A partir da leitura do sexo, os gêneros foram socialmente divididos entre as demandas da reprodução e da produção. Aqui se afirma a heteronormatividade compulsória, cuja única relação legítima seria entre um homem e uma mulher a partir do sacramentado religioso e, ainda, capaz de assegurar o controle do nascimento, do patrimônio e da sexualidade, fazendo funcionar o eixo da assimetria e a subordinação de mulheres e crianças, tema que será aprofundado no capítulo 4.

Almeida (1998) fez uma análise aprofundada de vinte e nove processos-crimes de homicídios e tentativas de homicídios ocorridos entre os cônjuges em quatro tribunais do Júri do Rio de Janeiro e colocou em evidência os paradigmas do patriarcado e as questões de gênero que estão fortemente presentes nas relações afetivas estabelecidas entre vítimas, réus, juristas e policiais. Segundo a autora, o “objeto da violência é formado por seres que

corporificam as relações sociais” (ALMEIDA, 1998, p.18). Estes, complementa, não são seres abstratos, mas seres concretos que trazem consigo os marcos de inteligibilidade dos gêneros pautados na estrutura patriarcal.

A violência conjugal é uma das formas de manifestação da violência de gênero, e está calcada no mesmo solo moral e político de outros atos violentos de gênero. Este tipo de violência “visa à preservação da organização social de gênero, fundada na hierarquia e

desigualdade de lugares sociais sexuados que subalternizam o gênero feminino” (ALMEIDA, 1998, p. 18).

Vista por este prisma, a violência conjugal pode ser compreendida como uma produção e reprodução do patriarcado, o que Segato (2003) intitulou de patriarcado simbólico. O ato violento – físico ou psicológico – evidencia a construção social a partir da codificação de um marco de inteligibilidade fundacional, que será discutido mais adiante.

Hirigoyen (2006) afirma que a naturalização dos papéis de gênero na cultura dificulta o processo de detecção por parte das mulheres das agressões sofridas. Muitas tomam como natural o comportamento agressivo de seus parceiros, não percebendo os primeiros sinais de

violência no casal. Os sinais iniciais ocorrem de maneira sutil e habitual antecedendo a agressão física, fundamentados no solo moral e justificados como brincadeiras naturais. (SEGATO, 2003).

Essa prática naturalizada, automatizada da construção sociocultural de gênero, garante o cenário propício à ação rotineira das violências contra mulheres. Como exemplo, podemos destacar as situações das mulheres na República Democrática do Congo, especialmente na cidade de Goma, onde estupros coletivos chegam a destruir o canal vaginal de muitas mulheres e meninas (fístulas). Outro exemplo é o problema do femicídio8 na cidade de Juárez, no México, na qual mulheres são alvos de homicídios em massa – com requintes de crueldade e violência sexual, por grupos de narcotraficantes.

Para algumas autoras (ALMEIDA, 1998, MOURA, 2007 & SEGATO, 2003), o fenômeno da violência contra mulheres não pode permanecer circunscrito à esfera doméstica, pois esta nomenclatura desqualifica e minimiza a complexidade do fenômeno. "Nossa

tendência é achar que quando acontece um crime na rua, entendemos que é violência; mas quando está circunscrito à esfera do privado, temos dificuldade de reconhecer”.9

A esse respeito nos diz Faleiros (1998): “A chamada violência doméstica é

equivocadamente definida pelo „locus‟ onde se realiza: a casa. Em realidade ela é o resultado de relações de poder” (FALEIROS, 1998, p. 13).

Ao partir da análise das relações de poder, entendemos que as dinâmicas psíquicas estão entrelaçadas com aspectos socioculturais. Desta forma, reforça Segato (2003, p. 13), não se trata de entender as violações contra mulheres como, simplesmente, conseqüências psicopatológicas individuais ou o resultado automático da dominação masculina, mas se trata de um mandato de violação. Esse mandato refere-se ao imperativo social e cultural que torna possível a reprodução do gênero a partir de um eixo marcado por posições diferenciais e hierárquicas, bem como todas as demais ordens de status – racial, de classe, entre nações e regiões - que também viabilizam as violações.

No que se refere à violência contra mulheres por parceiros íntimos, pode-se dizer que há uma estrutura patriarcal operante, capaz de desencadear uma cadeia pré-discursiva que antecede o significado atribuído culturalmente sobre as “diferenças sexuais”. Para Segato

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Femicídio ou feminicídio é um extermínio em massa de mulheres, similar ao genocídio - mas ao invés de um massacre de uma gente, é um holocausto de um gênero (também se propõe a terminologia generocídio), pelo fato de serem mulheres. Algumas personalidades e autoras de renome como Rita Laura Segato têm rodado o mundo em seminários, advogando a urgência da tipificação deste crime contra mulheres e contra a humanidade em convenção internacional. Caso contrário quedar-se-ão inominados, e, conseqüentemente, impunes, os crimes em larga escala contra mulheres. Alguns relatórios mundiais e o livro de Amartya Sen estimam que “100 milhões de mulheres estejam faltando no mundo”, em especial, na China e na Índia, ou seja, um femicídio.

(2003), o patriarcado é, ao mesmo tempo, “norma e projeto de auto-reprodução”, isto é, ele não apenas produz sua disseminação massiva a partir de valores morais socialmente justificados, como garante sua naturalização a partir da reprodução automatizada dos hábitos. A violência está tão enraizada que se chega a acreditar que a violência de gênero é algo normal, natural. No entanto, o que se percebe nessas ações de violência é a auto-reprodução de um sistema que, além de ser violento em relação às mulheres, é também violento em relação aos homens que, obedientes ao mandato de violação para confirmação da masculinidade, violam-se a si mesmos em um verdadeiro gesto suicida. (SEGATO, 2009).

Ainda em Segato (2003), o patriarcado simbólico é justamente essa “violência invisível” que mantém a reprodução das hierarquias de gênero e o controle massivo da sociedade em parâmetros arbitrários e desiguais, em especial entre homens e mulheres. O controle do patriarcado é garantido pela rigidez discursiva, ou seja, pela inteligibilidade dos gêneros, como já apresentado anteriormente, em que os significantes são disciplinados e organizados por categorias que atendem à demanda do modelo patriarcal, inculcando não somente as reproduções de gênero, mas construindo subjetividades engajadas na reprodução do patriarcado. A conseqüência dessa rigidez é o engessamento das relações sociais e afetivas e a permanência de padrões hegemônicos heterossexuais, sexistas, androcêntricos em todas as esferas do saber, conviver e relacionar-se.

A autora ressalta que é preciso evocar as realidades pessoais e sociais através do contato com as próprias vivências. A atenção a essa escuta pode auxiliar as Ciências Humanas a re-pensar a multiplicidade de fatores envolvidos no fenômeno da violência conjugal e ampliar o campo da terapia, que continua reduzido à escuta individualizada e descontextualizada. O ponto de convergência entre os fatores ora abordados nesta investigação será articular as concepções socioculturais com a experiência subjetiva narrada pelas Margaridas. Para o seu desenvolvimento, seguir-se-á o modelo metodológico da pesquisa qualitativa feminista, como descrita a seguir.

3 CAMINHOS DA APROXIMAÇÃO: MÉTODO

Essa pesquisa procurou dar movimento às falas das Margaridas, forma como chamamos as participantes da pesquisa, contribuindo para a criação de um espaço de compartilhamento engajado com questões políticas, sociais e históricas que permeiam a ocorrência e recorrência da violência contra mulheres. A proposta feminista, fio condutor dessa pesquisa, foi seguida no sentido de ouvir a voz das mulheres – subvertendo o lugar de objeto e de hierarquia entre pesquisadora e pesquisadas – valorizando suas idéias e experiências (GERGEN, 1993). Segundo Jaggar (1997, p. 158), “o positivismo estipulou que

um conhecimento fidedigno só podia ser estabelecido por métodos que neutralizassem os valores e as emoções dos cientistas individuais” e é justamente sobre esse argumento que recai a maior crítica da autora.

A crítica feminista à pretensa neutralidade do modelo positivista aponta neste os seguintes elementos: na “descontextualização da matéria do campo em que está inserido, a

teoria e prática neutras em valor, a independência dos fatos em relação ao cientista e a superioridade do cientista em relação às outras pessoas”; e afirma que “a presunção da

superioridade do examinador e do objeto de pesquisa subjugado repetem os padrões tradicionais de relacionamento entre os gêneros na cultura” (GERGEN, 1993, p. 117 apud HUBBARD, 1993).

Em face da emergência de um modelo alternativo de se fazer ciência e de pesquisar

para o objeto e não sobre o objeto, foi possível, neste estudo, o uso das emoções de forma

positiva, tal como proposto por Jaggar (1997).

Associada à escolha do método qualitativo, modelo de pesquisa considerado o mais adequado para desenvolver esta investigação – uma vez que consentiu o acesso aos conteúdos subjetivos de forma mais aprofundada, tal como descrita por Turato (2003), Bauer e Gaskell (2002) – a pesquisa qualitativa feminista (OLESEN, 2006) favoreceu a expressão livre não apenas do relato das experiências conjugais violentas, mas contribuiu para a constituição de um espaço de apoio mútuo, de compartilhamento e reflexões sobre a interface das experiências subjetivas com a produção de papéis estereotipados de gênero difundidos na sociedade. Re-significar contextualizando foi uma experiência positiva para todas nós mulheres que ingressamos na pesquisa.

Richardson (2007, p. 90) define pesquisa qualitativa da seguinte forma: “pode ser caracterizada como uma tentativa de uma compreensão detalhada dos significados e

características situacionais apresentadas pelos entrevistados, em lugar da produção de medidas quantitativas de características ou comportamentos”.

A idéia de assumir um método qualitativo e feminista partiu de quatro principais eixos: a necessidade de promover um trabalho experimental que incluísse as emoções em favor da pesquisa e da relação entre pesquisadora e pesquisadas (pesquisadora e pesquisadas posicionadas em virtude da história e do contexto), rompendo com a idéia de neutralidade e hierarquia; a preocupação de saber como apresentar as vozes – neste caso as narrativas – de forma que elas fossem ouvidas sem medo de apresentar os problemas alimentados pelo contexto social, político e histórico; assumir o caráter complexo e mutável das relações e, por último, assumir o compromisso de preparar o uso da pesquisa para propostas de justiça social para as mulheres em contextos específicos de situação de violência conjugal (OLESEN, 2006).

Guiei-me, assim, por um método que teve como critério o respeito pelas narrativas das mulheres como seres agentes e não como meros objetos de pesquisa. Aqui aparece, portanto, a voz dessas mulheres, sua dor e sofrimento, mas também sua luta, confiadas a mim e a todas as integrantes que participaram do grupo e participaram da pesquisa ao longo dos dez encontros. Acredito que o relato das experiências narradas pelas mulheres é atravessado pelas emoções, questões sócio-culturais e interlocução das subjetividades de todas as pessoas envolvidas durante o processo, inclusive eu como pesquisadora. Não foi uma tarefa fácil a de ouvi-las e a de persistir na investigação, uma vez que me coloco ética e politicamente nessa luta.

Procurei trazer tanto para análise das narrativas quanto para a ação terapêutica em psicologia uma base teórico-metodológica pautada na epistemologia feminista, já que esta realiza uma análise crítica dos pressupostos iluministas da ciência positivista, sustentada na autoridade da razão ou na autoridade do psicólogo sobre o paciente.

A fim de aprofundar esse debate e de justificar a escolha metodológica, coloco-me ao lado da crítica feita à ciência positivista, já que estou interessada em escutar os fenômenos, e não em descrevê-los e generalizá-los em categorias de “verdades observáveis”, como já discutido anteriormente. Um dos equívocos do cientista ou do intelectual, segundo Foucault, é colocar-se no lugar de representante das falas dos grupos, e a esse respeito diz: “o intelectual

dizia a verdade àqueles que ainda não a viam e em nome daqueles que não podiam dizê-la: consciência e eloqüência” (FOUCAULT, 2006, p. 71). Esse método de falar sobre o outro de forma distante, imparcial e experimental não permite o vislumbre da complexidade e da subjetividade sem que seja pelas lentes da assimetria, ou seja, de alguém que assumindo um

lugar de poder fala sobre o outro. Esse mecanismo está muito impregnado no suposto saber médico ou religioso.

Deleuze, ao dialogar com Foucault, em “Microfísica do Poder”, afirma que a ação do intelectual está em revezar uma multiplicidade de componentes ao mesmo tempo entre a teoria e a prática, asseverando que assim fez Foucault quando criou condições para que os presos pudessem falar por si mesmos (FOUCAULT, 2006, p. 70). A possibilidade de fala é o único instrumento legítimo para se produzir conhecimento. O rompimento de silêncios ou a possibilidade de visualizar resistências estão relacionados com a possibilidade da fala, não é sem razão que a maior ferramenta dos sistemas opressivos reside no silenciamento.

Ainda sobre o papel da investigadora no processo de pesquisa, apóio-me em Foucault ao falar da intelectual: “não é se colocar um pouco na frente ou um pouco de lado para dizer

a muda verdade de todos; é antes o de lutar contra as formas de poder exatamente onde ele é, ao mesmo tempo, o objeto e o instrumento: na ordem do saber, da „verdade‟, da „consciência‟, do discurso” (FOUCAULT, 1979, p.71). A ciência serviu como instrumento de

poder, descrevendo, criando papéis sociais e categorizando os sujeitos. O mesmo aconteceu com as mulheres: foram “invisibilizadas”, observadas, classificadas e categorizadas. Criaram- se sintomas para nosografar as nuances das diversas experiências da mulher,10 mas pouco se fez para ouvir o contra-discurso produzido por elas mesmas.

Não pretendi realizar uma pesquisa com neutralidade das emoções, uma vez que os problemas de cunho sexista – entre eles o de violência conjugal – sofridos pelas mulheres repercutem em mim, na medida em que me identifico como mulher e me posiciono na assertiva de que o pessoal é também político, tal como expressou a máxima cunhada pelo movimento feminista da década de 60. O objeto de estudo eleito diz do meu lugar politizado e da minha implicação na consolidação de um saber a partir de uma perspectiva crítica feminista de gênero (SARDENBERG, 2002). O crime contra mulheres emite uma mensagem que deve ser escutada e não perseguida, conforme salienta Segato (2003). Há um sujeito que fala, há um discurso que se inscreve como identidade e subjetividade.

Ao estudar esse fenômeno na psicologia, pretendi contribuir para a desestabilização das bases teóricas e metodológicas tradicionais asseguradas pelo viés androcêntrico, no sentido de reverter o ocultamento dos efeitos das construções normativas na produção de teorias psicológicas. E, ainda, contribuir para a reflexão crítica de que muitas das experiências de mulheres decorrem de um processo de opressão e subordinação estrutural, que inclui,

dentre outras categorias, especificidades de gênero. O acesso à epistemologia feminista permitiu-me reconhecer a especificidade histórica e a construção cultural desses corpos e dessas relações nas situações de violência.

Busco, ainda, apresentar como as emoções, principalmente quando compartilhadas em grupo, podem ser úteis à consolidação de um espaço de confiança e transformação individual e social, dando mobilidade à experiência subjetiva e às categorias de gênero engessadas socialmente. A perspectiva de gênero feminista é inserida nesta pesquisa também como instrumento de análise do impacto da ideologia patriarcal na estruturação do pensamento e da permanência das mulheres na situação de violência. O efeito do gênero está no e sobre o conhecimento (FLAX, 1990 apud SARDENBERG, 2002, p. 93).

O principal objetivo da pesquisa foi favorecer a expressão da experiência vivida pelas mulheres e apontar uma nova possibilidade de investigação a partir da perspectiva feminista, associando à intervenção na área de psicologia um olhar com referência na análise crítica da teoria feminista. Essa experiência foi motivada por outras leituras já explicitadas, e especialmente pelas contribuições do psicólogo americano Michael White (2002), que apresenta um olhar crítico sobre concepções teóricas e práticas em psicologia, propondo uma metodologia baseada no enfoque narrativo, que será definida na seção 3.6.

Opto, assim, pelo método narrativo, na medida em que este é capaz de assegurar que as narrativas das mulheres sejam valorizadas sem uma cadeia pré-conceitual ou um conjunto de significados dados a priori. Qualquer que seja a modalidade de se fazer clínica em psicologia, há sempre um conjunto de significados a priori para conduzir a terapia. Os significados são dados não pelo acolhimento e escuta da experiência do sujeito em terapia, mas por um modelo teórico e prático através do qual se codifica e traduz as queixas em sintomas. Esse modelo, embora se pretenda de uma neutralidade universal, revela, se bem analisado, seus pressupostos calcados na configuração social e política de seu tempo, que é, entre outras coisas, patriarcal e androcêntrica.

Para finalizar e a fim de justificar o porquê de dar movimento às falas, explicitado no primeiro parágrafo, diz Pereira (2005, p. 19): “Nosso olhar habitual, científico, fixa a

realidade em contornos definidos, mediado pelos conceitos e, com isso, perde a riqueza do seu movimento.”