2. Teoretisk rammeverk
2.6 Ledelse i helseforetakene
E a tua inteira força!143
Da paternidade à maternidade, da Pátria à Mátria, que PE. Antônio Vieira realizou, vai a universalidade originária da Nação-Império, que Portugal assumiu:
As nações todas são mysterios. Cada uma é todo o mundo a sós. Ó mãe de Reis e avó de Impérios, Vella por nós!144
Que outro discurso faria sentido, hoje e aqui, senão o de dar a esta vigília cívica e poética, que aos olhos de uns parecerá de lesa-Pátria e aos olhos de terceiros de lesa-Poesia – há sempre os ultrapuros de um qualquer sinal impuro -, a dignidade de um ato que respeite o que na Poesia e na Pátria é irredutível mas reversível? Pois não é a Pátria, para Pessoa, a própria Língua, que ele pluralmente cantou, como Camões? Dir-se-ia que, de além-túmulo, a voz do Épico outra vez ecoa:
...Vereis um novo exemplo
De amor dos pátrio feitos valerosos Em verso divulgado, numerosos145 Ou ainda:
Vereis mor da pátria, não movido
De prêmio vil mais alto e quase eterno146.
E se Pessoa também não conheceu, em vida senão aquela “apagada e vil tristeza” que ficou inscrita no epílogo de Os Lusíadas, o certo é que profetizou o advento de um Supra-Camões, poeta máximo de uma “Nova Renascença”, de que emergiria o “Supra-Portugal de amanhã”, apesar de a época lhe ser aparentemente adversa:
O atual momento político – escreveria ele em 1912 nas páginas de A Águia – não parece de ordem a gerar gênios supremos, de reles e mesquinho que é. Mas é precisamente por isso que mais concluível se nos afigura o próximo aparecer de um Supra-Camões na nossa terra147.
143 Idem, p. 7.
144 Idem, ibidem.
145 LUÍS DE CAMÕES, Obra Completa, Canto Primeiro, Rio de Janeiro, 1963, p. 12. 146 Idem, ibidem.
Que o poeta dos heterônimos o tenha sido, reescrevendo intertextualmente a obra camoniana, depois de recalcá-la, eis uma das aventuras mais fascinantes da heterotextualidade de Pessoa. Mas a mediadora dessa heterotextualidade é sempre, nas suas várias manifestações arquitextuais, a Pátria, espaço onde se cruzam, atravessando a língua, todos os seus discursos, do mítico ao poético.
Poderíamos destecer da trama poetodramática dos heterônimos, semi-heterônimos e ortônimos, que plural também “ele mesmo” é, esse texto-a-texto de uma Pátria múltipla, matriz de um patriotismo universalista, de que Portugal e os países de expressão portuguesa são lingüística e poeticamente a manifestação. Desfeito o império geopolítico, ficou um “império de Cultura”, que falta cumprir, e de que decorre um “espiritualismo espiritual” – o Quinto Império, na versão portuguesa interpretada por Pessoa – que na língua e na Poesia tem a afloração mais alta:
É um imperialismo de gramáticos? – questiona o poeta. O imperialismo dos gramáticos dura mais e vai mais fundo que o dos generais. É um imperialismo de poetas? Seja. A frade não é ridícula senão para quem defende o antigo imperialismo ridículo. O imperialismo dos poetas dura e domina; o dos políticos passa e esquece, se o não lembrar o poeta que os cante148. De Camões a Pessoa, de Os Lusíadas a Mensagem, há uma continuidade e uma metamorfose: a visão patriótica alargou-se em universalidade ecumênica, o classicismo e a modernidade encetaram o diálogo, a traditio e a revolutio reencontraram-se. Mas, sobretudo, a língua portuguesa enriqueceu-se e diversificou-se entre um Ricardo Reis arcaizante e um Álvaro de Campos futurante, a linguagem poética, retornando com Alberto Caeiro ao seu “grau zero” – ou atingindo nele, como noutros querem, o seu “grau ômega”149 -, foi capaz, de grau em grau, de explodir e proliferar num”excesso de expressão”, ad infinitum.
Perante essa fascinante Via Láctea, que é a língua mátria, a língua pátria de Pessoa, que outra pátria demandar? Ela é, entretanto, para o poeta, uma espécie de Via Sacra, em que várias pátrias na Pátria se religam. Desde o infans, à escuta da língua materna, até ao escolar que conheceu o exílio numa língua estranha (madrasta ou padrasta?); desde o adolescente, aluno aplicado de uma escola técnica comercial, mas exímio cultor de um inglês literário, até ao jovem feito, que trocaria o Curso Superior de Letras por uma profissão de “correspondente estrangeiro”; desde o adulto lúcido, empenhado entretanto em vanguardas poéticas e estéticas, sob o signo de
Orpheu, até ao homem de maturidade, que se compraz numa clássica Athena; desde o cidadão do
simbólico, empenhado numa ação política só de linguagem concebida, até ao director e redactor de uma revista de contabilidade, cujas teorias, são ainda atuais; desde o amoroso por procuração heteronímica, autor de cartas “ridículas”, num português banal, até moribundo, que escreveu as suas últimas palavras em inglês, quase in extremis – o percursor dessa Via Sacra seria longo de seguir. Mas sempre uma obsessão recorrente nela vem ao de cima, pontuando-a como uma paixão irreprimível: a da Pátria amada.
Logo aos sete anos, quando o primeiro heterônimo, estrangeiro de nome – o Chevalier de
Pás – lhe tinha ocorrido, já em Pessoa Pátria e Mátria se entrelaçavam, numa dualidade amorosa
indissolúvel, mas em tensão latente:
Ó terras de Portugal Ó terras onde eu nasci Por muito que goste delas Inda gosto mais de ti150.
148 Sobre Portugal, Introdução ao Problema Nacional, Lisboa, 1979, p. 240. 149 Cf. EDUARDO LOURENÇO, Pessoa Revisitado, Porto, 1973, p. 36.
Anos mais tarde, em plena juventude, dividido então entre o “amor da humanidade” e o amor da Pátria, mais que solicitado por outros amores, Pessoa escreveria em tom exaltante: “Ninguém suspeita do meu amor patriótico, mais intenso do que o de quem quer que eu encontre, de quem quer que eu conheça”151. Esse amor incompreendido fá-lo sofrer, segundo ele, “até ao limite mesmo da loucura”. Mas, como escreverá num dos seus poemas a D. Sebastião, que exprimem o seu “nacionalismo místico”, embora ele se pretenda um “sebastianista racional”,
Sem a loucura que é o homem Mais que a besta sadia,
Cadáver adiado que procria?152
Essa “loucura” traduziu-se, essencialmente, numa sucessão infinda de projetos patrióticos, que conheceram múltiplos avatares. A começar pelo esboço de uma “República de Portugal”, que cedo o obcecou. Implantada que foi de fato a República, com o 5 de Outubro, a sua estréia literária em A Águia, órgão da “Renascença Portuguesa”, fez-se sob a égide do patriotismo, identificado como o “republicanismo”, apesar das reservas que lhe suscitavam o “tri-partido republicano” e os seus próceres.
Os anos passaram. E em 1915, nas vésperas do Orpheu, era ainda e sempre a pátria que o chamava, acima das aventuras paúlicas e interseccionistas, consideradas pouco “sérias” e “insinceras” (ao contrário dos heterônimos, note-se). Assim, em carta a Armando Cortes-Rodrigues, ele confessa:
A idéia patriótica, sempre mais ou menos presente nos meus propósitos, avulta agora em mim; e não penso em fazer arte que não medite fazê-lo para erguer alto o nome português através do que eu consiga realizar. É uma conseqüência de encarar a sério a arte e a vida153.
Essa atitude será, então, elevada pelo Poeta à dimensão da religiosidade, relação que é, aliás, freqüente em Pessoa, embora numa acepção heterodoxa.
A preocupação com Portugal, com o que ele chama o “problema português”, passa agora a ser nele constante e a ter alguma expressão pública. Quer nas páginas de O Jornal, onde paralelamente ao Orpheu colaborou por um momento, até ser dele expulso, pelas suas crônicas paradoxais, quer nas páginas de Acção, em 1919, quando já o parêntesis sidonista, que nele deixará um rasto meramente esotérico, tinha sido politicamente fechado, Pessoa vai, pela via da lógica da contradição ou da contraditoriedade – “terapêutica de libertação” que advoga – encontrado máscaras opostas e diversas para o seu patriotismo multímodo: seja a construção de uma “anarquia portuguesa” que, além de ser uma missão “civilizada” e “moderna”, por combater a “doença da disciplina”, é também “a mais moral e mais patriótica”, seja, ao invés, a “organização de Portugal”, que passa, em seu entender, pela superação quer do “superprogressismo”, quer do “superconservantismo” e implica, antes de mais, uma “transformação profissional”, que permita a “industrialização sistemática do País”: tese avançada para a época e que, como se vê, é precursora de muitas das nossas preocupações atuais, desde o ensino técnico e a formação profissional ao desenvolvimento e modernização tecnológica de que continuamos a carecer.
Pessoa irá mais tarde, com o advento da ditadura militar do 28 de maio, fazer incursões mais ousadas pelo campo do discurso aparentemente político. Nomeadamente em 1928, com O
Interregno, opúsculo escrito em nome do Núcleo de Acção Nacional. À primeira vista, o seu subtítulo
– “Defesa e Justificação da Ditadura Militar em Portugal” – indigita um apoio ao novo regime. Nada de menos exato, como se pode ler neste “Primeiro Aviso” do folheto: