A investigação científica constitui o meio por excelência para adquirir novos conhecimentos, de forma a encontrar respostas para questões precisas. A investigação consiste em descrever, em explicar, em predizer e em verificar factos, acontecimentos ou fenómenos, num processo racional que visa a aquisição de conhecimentos (Fortin, Côté e Filion, 2009). Assim sendo, justifica-se a realização de um estudo de investigação sempre que se verifique a necessidade que construir novo conhecimento, nas áreas ou temáticas onde ele é deficitário.
Segundo (Quivy e Campenhoudt, 2005, p. 90), “na prática, construir a
sua problemática [da investigação] equivale a formular os principais pontos de referência teóricos da sua investigação, a pergunta que estrutura finalmente o trabalho, os conceitos fundamentais e as ideias gerais que inspirarão a análise”.
Tendo isso em mente, relembramos que ficou patente no capítulo 1.6 que a pesquisa bibliográfica revelou uma ausência de artigos científicos ou livros que abordem a prescrição de CR por EEER dirigida à pessoa com DPOC, o que justifica a realização do presente estudo na perspetiva da produção de novo conhecimento.
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No entanto, nem tudo o que não existe é pertinente ser estudado, pois é fundamental orientar a investigação para “estudos que promovam a
clarificação e explicitação das necessidades das populações em cuidados de Enfermagem gerais e especializados e os benefícios resultantes de respostas concretas, assentes nos processos de conceção dos enfermeiros”
(OE, 2006, p. 3).
Sendo a DPOC uma das doenças crónicas cuja prevalência se prevê aumentar nos próximos anos (ONDR, 2011; GOLD, 2013), passível de ser estabilizada através de estratégias farmacológicas e não-farmacológicas (DGS, 2009; GOLD, 2013), facilmente se demonstra a pertinência deste estudo, dado que pretende explorar conhecimento novo relacionado com a doença e com as pessoas portadoras da mesma.
A DPOC acarreta alterações pulmonares e extrapulmonares, que levam à dispneia e à diminuição da capacidade muscular esquelética, as quais se interligam numa espiral de mútua potenciação (Cordeiro e Menoita, 2012), o que leva ao sedentarismo, incapacidade funcional e DALYs (GOLD, 2013). As exacerbações associadas à DPOC são a principal causa de internamento por esta doença e são responsáveis pela maior parte dos custos diretos e indiretos que lhe estão associados (ONDR, 2012).
DPOC é ainda “uma patologia crónica que afeta os clientes na sua
qualidade de vida, provocando limitações funcionais que levam à diminuição progressiva da capacidade de realizar as atividades do quotidiano” (Alves, 2012, p. 37), o que implica um profundo impacte no
autocuidado. Depreende-se assim que a pessoa com DPOC é um foco por excelência para a enfermagem, não devido ao seu contexto biomédico, mas pelas alterações que imputa na pessoa e pelo processo de adaptação que lhe está inerente (Meleis, 2010).
As estratégias não-farmacológicas de controlo da DPOC incluem os programas de RFR (DGS, 2009; GOLD, 2013). Embora a RFR inclua a CR, que consiste em exercícios auto e hetero-gerados de manipulação mecânica da caixa torácica (Heitor et.al., 1988; Cordeiro e Menoita, 2012), a estratégia GOLD não inclui a CR nas suas orientações por fraca evidência científica da sua eficácia (ONDR, 2011), ainda que a CR seja prescrita e utilizada
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amplamente pelos EEER (Cordeiro e Menoita, 2012) e da qual resulte diminuição da sensação de falta de ar e aumento da qualidade de vida (Osiadło e Dzierzega, 2007), a prevenção/resolução de problemas ventilatórios (Rodrigues et.al., 2012) e o aumento da permeabilidade das vias aéreas e da eficácia do expetorar (Olazabal, 2003, cit. por Cordeiro e Menoita, 2012).
Pelo supra-descrito se depreende que a prescrição de CR pelos EEER é pertinente na abordagem da pessoa com DPOC e que não há produção científica sobre essa temática, o que justifica a realização de estudos que colmatem esta lacuna ao nível da evidência científica, dos quais é exemplo a presente investigação.
Consideramos assim justificado o presente estudo, dado que “justificar
a investigação, é demonstrar que ele [o tema] responde às preocupações actuais, que pode ser útil para a prática profissional e contribuir para o avanço dos conhecimentos” (Fortin, Cöté e Filion, 2009, p. 80).
Dado que a temática em causa envolve cuidados de enfermagem, é incontornável abordar a linguagem que lhe está inerente. A OE determina que os enfermeiros documentem o seu processo de diagnóstico e de intervenção com recurso à taxonomia CIPE® (OE, 2004); também a DGS (2011) determina a utilização da taxonomia CIPE® no seu Programa Nacional de Acreditação em Saúde; por seu lado, o Ministério da Saúde demanda a organização dos sistemas de informação com recurso ao Sistema de Apoio à Prática da Enfermagem (SAPE®), onde é essencial que os enfermeiros coloquem em uso o conhecimento próprio da profissão.
Nesse contexto, parece-nos lógico que qualquer investigação que incida na vertente prática dos cuidados contemple a utilização da taxonomia CIPE®; é, no entanto, pertinente referir que a versão da CIPE® generalizada na prática clínica nacional de enfermagem é a Beta-2, sendo a versão 2.0 a mais recente traduzida para português.
Em resumo, a DPOC é um foco de atenção para a Enfermagem, passível de ser controlada através de estratégias não-farmacológicas tal como a CR, a qual é amplamente utilizada pelos EEER, mas sem que haja evidência científica relevante da sua eficácia ou do seu processo de prescrição e
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individualização; os cuidados prestados pelos EEER devem ser descritos através da taxonomia CIPE®, se possível através da sua versão mais recente (2.0).
Posto isto, definimos que o nosso objeto de estudo seriam os dados valorizados pelos EEER na prescrição de CR a pessoas com DPOC, enquanto base do seu processo de tomada de decisão / juízo clínico diagnóstico, o qual é incontornável na adequação e individualização da CR para que se produzam os melhores ganhos em saúde; relembramos que de acordo com o capítulo 1.4, o nosso objeto de estudo contempla os modelos analítico- racional e de processamento da informação de tomada de decisão apenas pelas suas características facilitadoras na consecução deste estudo.
Face ao objeto de estudo, surgiu a seguinte questão de partida, a qual norteia o nosso estudo:
Numa pessoa com DPOC, quais os dados que são valorizados pelo EEER para a prescrição de cinesiterapia respiratória?
Com a intenção de delimitar o estudo a partir da sua finalidade, foram traçados os seguintes objetivos:
a) Organizar um enquadramento teórico que contextualize a evidência científica sobre o objeto em estudo;
b) Identificar os dados valorizados pelos EEER para a prescrição de CR a uma pessoa portadora de DPOC;
c) Perceber os focos de atenção da prática disciplinar especializada que os EEER valorizam no processo de prescrição de CR;
d) Perceber a relação entre os dados do estudo e a CIPE® 2.0.