Restou demonstrada, na seção 4, a expressiva sensibilidade da demanda por serviços de banda larga aos níveis de renda e escolaridade da família, bem como a menor, embora não desprezível, importância da presença de crianças e adolescentes no domicílio. Outras características demográficas, anteriormente relevantes para explicar a compra de serviços de banda larga, como a idade do chefe da casa e o número de moradores, não mais se mostraram significantes no modelo estimado.
Não obstante, quando se condiciona a análise do comportamento do consumidor ao universo de assinantes de banda larga, para se buscar determinantes da escolha da tecnologia (fixa ou móvel), a influência dessas variáveis demográficas desaparece. A tentativa de se estimar, via método BLP, um modelo que interage atributos dos serviços (preço, velocidade e portabilidade) com influentes variáveis demográficas fracassa e, assim, parece confirmar que existem outros fatores a determinar o padrão de substituição dos "incluídos".
Serviços fixos e móveis de banda larga são percebidos como substitutos no País. Tal constatação começa a se revelar com uma simples tabulação dos dados do Comitê Gestor da Internet no Brasil, que aponta apenas 1% dos domicílios como usuários de ambos os tipos de conexão, e se consolida com as estimativas das elasticidades-preço cruzadas entre os referidos serviços em várias regiões metropolitanas, onde ambas as formas de conexão estão disponíveis para a maioria dos consumidores.
Modelos de escolha discreta são bem adaptáveis à análise da demanda por produtos diferenciados e têm evoluído nos últimos anos no sentido de tratar as diferenças individuais dos decisores e a dificuldade de observação dos diversos atributos dos serviços que influenciam a escolha. Esta pesquisa fez uso de um método conhecido e bastante aplicado na disciplina de Organização Industrial para controle da endogeneidade em regressores e das heterogeneidades individuais.
Apesar de ser mais flexível do que os métodos de estimação de demanda usados até o final da década de 1990, o desempenho do BLP ainda sofre com
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a instabilidade empírica do algoritmo. Para ser útil e eficiente na estimação das elasticidades dos atributos dos serviços, esse método precisa dispor de informações acuradas para construção dos instrumentos indispensáveis à identificação de todos os parâmetros e, sobretudo, de fontes de variabilidade em quantidade e qualidade suficientes. Se há restrições para se observar os mesmos indivíduos no tempo, é preciso aumentar o número de mercados na amostra, cuidando que esse incremento produza variabilidade nos preços ou nas alternativas do conjunto de escolha, sob pena de tornar as estimativas potencialmente muito imprecisas.
Os dados disponíveis a pesquisadores na academia ainda são insatisfatórios para que se realize a estimação de todos os parâmetros estruturais desejáveis. Nesta pesquisa, limitam-nos a avaliar as respostas a tipos de serviço de acesso à internet, pois as bases de dados não nos permitiram descer ao nível da firma. Embora úteis, os resultados desta pesquisa precisarão ser complementados quando houver disponibilidade de bases que relacionem completamente, e com menos ruído, as escolhas individuais e seus fatores determinantes: tecnologia, preço e prestadora do serviço.
Os levantamentos de dados precisam se preocupar em identificar se há mais de uma prestadora de serviço de telecomunicações no domicílio e se houve troca de operadora ou de plano de serviço dentro do período de tempo estudado. Outra melhoria fundamental para os repositórios de informações em telecomunicações é dispor de dados longitudinais. Ao dispor de dados em painel, o pesquisador tem mais alternativas para controlar o efeito de variáveis não observáveis.
Estimativas mais confiáveis sobre o comportamento do consumidor de serviços de acesso à internet em banda larga dependerão, portanto, que as bases de dados evoluam nos seguintes aspectos:
i) Tornar precisa a informação sobre a operadora que fornece cada serviço de telecomunicações, não apenas o acesso à internet, pois a venda casada e o modelo do terminal oferecido podem influenciar a escolha do consumidor;
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ii) Aferir a informação sobre a tecnologia de acesso e sobre os aplicativos mais utilizados, e tornar mais precisa a informação sobre velocidade;
iii) Desagregar a informação sobre a localização dos domicílios, para que não se percam importantes fontes de variabilidade na amostra;
iv) Identificar o tipo de plano de serviço contratado, se limitado ou ilimitado na relação entre o valor devido e a quantidade de tráfego no final do período de faturamento, como forma de controlar essa fonte de endogeneidade nos preços.
Este estudo serviu para reforçar uma tendência que se observa, qualitativamente, no comportamento do consumidor de banda larga: a importância da portabilidade, do acesso móvel à internet. Com a oferta de terminais cada vez mais poderosos e fáceis de usar, as pessoas estão se acostumando a navegar em qualquer lugar, a todo o instante, para resolver problemas ou simplesmente se entreter.
A portabilidade se revelou mais importante do que a velocidade, que será a única fonte de diferenciação dos serviços fixos no futuro, quando a fibra ótica chegar aos domicílios. Se mesmo com conexões de menor qualidade, como as oferecidas pela tecnologia 3G no Brasil, os acessos móveis já começaram a tomar o lugar das tecnologias fixas como principal forma de conexão residencial, como decidirá a parcela ainda excluída da classe C após a entrada do 4G? As empresas terão de combinar as vantagens das tecnologias fixas e móveis para que o consumidor se interesse por manter a assinatura de ambos os serviços. As plataformas terão de se integrar cada vez mais, de forma que a experiência do usuário não seja complicada quando precisar comutar entre diferentes tipos de banda larga ao longo do dia.
Entender e quantificar mais precisamente esse comportamento pode ser de grande valia na regulação setorial e na formatação de políticas públicas. Que tecnologias o governo deveria subsidiar para acelerar a penetração da banda larga no Brasil? Essas primeiras estimativas de elasticidade-preço e a natureza da influência dos aspectos demográficos podem ajudar no planejamento de expansão dos serviços fixos e móveis no Brasil nos próximos anos.
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