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Part III Practising leadership in Telenor

Chapter 5: Leadership

O fortalecimento das relações militares entre Portugal e a RFA concreti- zou-se aquando da visita a Lisboa de Franz Josef Strauss, Ministro da Defesa alemão. Durante esta visita foi assinada, em 16 de Janeiro, pelos Ministros da Defesa dos dois países uma «Convenção Administrativa», que defi niu os termos gerais da colaboração militar que se seguiu ao longo de toda a década de 1960. A «Convenção Administrativa» aplicava-se principalmente à utilização recíproca de instalações militares; armazenagem de reservas de guerra alemãs em Portugal; produção e aquisição de materiais de guerra de interesse comum; e apoio mútuo administrativo32. Estava também pre-

vista a “entrega gratuita” pelo Ministério Federal da Defesa ao Ministério da Defesa Nacional português de “elementos de informação específi cos de novos estudos de materiais, informações técnicas e comerciais” de interesse para ambos os países. Como facilmente se perceberá, este texto defi niu os campos em que a cooperação militar luso-alemã incidiria, tornando-se a base de mais de vinte acordos assinados entre os dois países nos anos

32 Memorial sobre as relações militares luso-alemãs, 19 de Janeiro de 1968 – AHD-MNE,

seguintes, e estabeleceu os parâmetros formais pelos quais se regulariam as relações entre Portugal e a República Federal33.

Para além da assinatura da Convenção Administrativa, a visita do Mi- nistro Strauss proporcionou também o esclarecimento de vários assuntos, nas conversações que manteve com o seu homólogo português, Júlio Botelho Moniz. Na conversa com Moniz, Strauss salientou que existiam três bases pelas quais era natural que houvesse cooperação entre a Alemanha e Portugal: a “tradicional amizade” existente entre as duas nações, a desi- gualdade da balança comercial, desfavorável a Portugal (situação para a qual tinha sido “alertado” pelos Ministérios dos Negócios Estrangeiros e da Economia de Bona, de modo a “ajudar Portugal”) e, fi nalmente, os resultados “tão satisfatórios” da primeira encomenda, que estimulavam o interesse da Alemanha em “ampliar essa ajuda”34.

De acordo com as declarações do ministro alemão, os objectivos principais do governo federal seriam o estabelecimento, em Portugal, de “stocks logísticos”, para armazenagem das suas reservas de guerra, “para cerca de 20 dias”, à semelhança com o que tinha sido já acordado com os governos da Holanda, Bélgica e França, com quem tinham assinado acordos bilaterais, tal como desejavam fazer com o governo português. Um outro interesse alemão seria a autorização para a “utilização não permanente” de bases “navais ou aéreas portuguesas”, com direito de reciprocidade nas bases alemãs. Estas bases serviriam para “voos de treino a longa distância” e treinos de pilotos. Por fi m, o ministro mostrou-se igualmente interessado na possibilidade de utilização, em tempo de paz, mas principalmente, em tempo de guerra, das instalações de reparação portuguesas, nomeadamente as Ofi cinas Gerais de Manutenção Aeronáutica (OGMA)35.

33 Convention Administrative entre le Ministre Fédéral de la Défense de la Republique Fédérale

Allemande et le Ministre de la Défense Nationale de la Republique Portuguaise, 16 de Janeiro de

1960 – AOS/CO/PC 78-J.

34 Relato das conversações entre SS. EE. os Ministros da Alemanha e de Portugal, 16 de

Janeiro de 1960 – AOS/CO/GR-10.

35 Relato das conversações entre SS. EE. os Ministros da Alemanha e de Portugal, 16 de

Para além destes pedidos, que seriam satisfeitos a longo prazo, o Mi- nistro Strauss enumerou as encomendas de armamento que considerava necessárias, para serem produzidas nos estabelecimentos fabris portugue- ses, às quais juntou um pedido: a utilização das reservas portuguesas para uso da República Federal, em caso de ruptura dos seus stocks em tempo de guerra, com o compromisso de que em tempo de paz, as fábricas portuguesas estariam “ocupadas com encomendas satisfatórias”, o que permitiria o funcionamento das mesmas permanentemente. Este facto tornar-se-ia muitíssimo importante após o defl agrar da guerra colonial, pois signifi cava que o governo português apenas teria que custear os artigos que produzisse e não os custos de manutenção dos estabelecimentos, ou seja, tornava a produção de armamento e de munições muito mais barata para o Estado português.

O ministro alemão ofereceu-se ainda para o auxílio na “modernização do equipamento das forças portuguesas” e na escolha de aviões e navios, dos quais o Ministério Federal da Defesa possuía “desenhos muito modernos”, fi cando todos “à disposição” do governo português. O Ministério da Defesa alemão ofereceu-se ainda para a disponibilização de viaturas automóveis, e para o auxílio técnico e táctico às forças nacionais, possibilitando a frequência de cursos por especialistas portugueses, “quer do Governo, quer da indústria particular”, nas Escolas e Unidades alemãs. Por fi m, Strauss admitiu a coope- ração entre os Ministérios da Defesa de ambos os países “nas necessidades comuns” de equipamento, de modo que fossem obtidas “quantidades im- portantes de que resultariam condições de preço mais favoráveis”36.

Franz Josef Strauss terminou a última reunião de trabalho com o ministro português garantindo o “empréstimo, até a sua completa inutilização, de três aviões fabricados na Alemanha DO-27”, como forma de agradecimento pelo salvamento de um marinheiro alemão, durante o qual se perdera um avião de salvamento português37. Em carta enviada a Botelho Moniz a 28

36 Idem. 37 Idem.

de Janeiro de 1960, Strauss agradecia a hospitalidade com que fora rece- bido, e assegurava que todas as instalações que lhe tinham sido mostradas patenteavam o “alto nível de efi cácia dos esforços portugueses para defesa comum do mundo livre” e fortaleciam ainda mais a sua convicção do valor da cooperação luso-alemã38.

Durante estas conversações secretas foi também constituída a Comis- são Mista Luso-Alemã (CMLA), com a delegação portuguesa chefi ada pelo Almirante Sousa Uva e a delegação alemã pelo Coronel Becker. A Comissão tornou-se o elo de ligação entre os dois governos para a negociação do fornecimento de material e passou a funcionar na dependência directa do Ministro da Defesa Nacional pelo despacho ministerial de 17 de Junho de 196339.

As declarações públicas de Strauss em relação aos trabalhos e conver- sações realizados durante a sua estada em Portugal foram importantes e tiveram um impacto muito positivo nas relações luso-alemãs. A visita de Strauss foi acompanhada por vários jornais alemães que, assim como os jornais portugueses, salientaram o desenvolvimento da cooperação luso- -alemã ao nível militar. Deste modo, e numa notícia de 7 de Janeiro de 1960, alguns dias antes do ministro alemão partir para Portugal, o jornal

Handesblatt referia que o interesse alemão não era só na Fábrica do Braço

de Prata, mas também nas Fábricas de Fazenda da “tão necessitada zona da Beira Baixa, nomeadamente da Covilhã”, sendo que se esperava que Strauss facultasse “à indústria necessitada de Portugal” uma parte das encomendas a conceder pelo ministério de 100.000 sobretudos e 250.000 uniformes e fatos de campanha40. A cooperação militar foi vista, quer pelos jornais

nacionais, quer pela imprensa alemã, de um modo favorável, realçando

38 AOS/CO/PC-78J.

39 Memorial sobre as relações militares luso-alemãs, 19 de Janeiro de 1968 – AHD-MNE,

PEA, Proc. n.º 332,30, Maço 337.

40 Handesblatt, 7 de Janeiro de 1960 – AHD-MNE, PEA, Maço 422. Não conseguimos no

entanto apurar se estas encomendas se realizaram efectivamente, uma vez que não existe mais nenhum registo referente ao assunto.

a contribuição das encomendas para a diminuição do défi ce da balança comercial portuguesa em relação à RFA e relacionando esta aproximação da Alemanha com o aumento da importância estratégica de Portugal – “o abandono das bases do Mediterrâneo pelos americanos fará deslocar o centro militar no Ocidente ainda mais do que agora para Península Ibéri- ca”41. A percepção da importância de Portugal a nível estratégico era clara

por parte dos jornais alemães e portugueses, e era essa importância que justifi cava o interesse em manter as boas relações luso-germânicas.

Na segunda reunião da Comissão Mista Luso-Alemã42, realizada em

Bona, nos dias 29 e 30 de Março de 1960, foram discutidos os primeiros pedidos concretos por parte das autoridades alemãs. Destes faziam parte o estabelecimento, em caso de emergência, de assistência hospitalar para as Forças Armadas Alemãs, “através de 9.000 camas distribuídas por nove hospi- tais de reserva”; a constituição em Portugal continental de uma “grande base aérea para reparação de aviões e facilidades de instrução de voo rasante”; e, por último, o estabelecimento de entrepostos de mercadorias destinadas à RFA, que em caso de guerra não pudessem ir directamente para o seu destino. Face a tais pedidos, e depois de consultados os ministros do Exér- cito, da Marinha e o Subsecretário de Estado da Aeronáutica, as conclusões da delegação portuguesa à CMLA foram extremamente favoráveis para o cumprimento dos pedidos alemães. Em relação às instalações hospitalares, e uma vez que não existiam infra-estruturas já construídas que pudessem ser cedidas, seria necessária a sua edifi cação, provavelmente com construções pré-fabricadas. Relativamente à base aérea, considerava o Almirante Sousa Uva que tal concessão tinha “inconvenientes, mas também vantagens”. O inconveniente maior seria a criação de mais um alvo em território nacional (porventura a acrescentar à base americana das Lajes), passível de “aguçar o desejo do adversário em atacar Portugal”, mas as vantagens acabariam

41 Die Welt, 11 de Janeiro de 1960 – AHD-MNE, PEA, Maço 422.

42 A primeira reunião aconteceu em Lisboa, na sequência da visita do ministro

por compensar. Por um lado, porque obrigava o envolvimento dos alemães na defesa da base, o que iria “contribuir para uma defesa anti-aérea mais efi ciente do território nacional continental” e, por outro, porque signifi cava igualmente um modo de melhorar a defesa de todo o bloco ocidental. A escolha recaiu então sobre a Base Aérea n.º 11 de Beja, porque, para além de ser aquela cuja transformação seria mais económica, também era um factor importante para a Força Aérea Portuguesa ter uma base nacional ao sul do Tejo. A proximidade da base de um aglomerado urbano importante (Beja), constituía outro aspecto favorável, uma vez que se podia concentrar aí todo o pessoal alemão destacado para a base e, principalmente, porque respondia “plenamente” ao pedido alemão43.

No que dizia respeito à utilização de facilidades portuárias, o Almi- rante Sousa Uva concluía que o porto de Setúbal, por ser o mais próximo de Beja, e por razões de “interesse nacional”, seria o mais indicado para tal pedido. De facto, estava já previsto o melhoramento daquele porto por parte do governo português e, uma vez que a Alemanha só necessitaria dele em tempo de guerra, “seria vantajoso conseguir uma substancial melhoria do porto juntando aos recursos nacionais (…) aqueles que as autoridades alemãs, pelo interesse da sua utilização (…), directa ou indirectamente nos facilitassem”. Assim, a Península de Tróia foi o local indicado para o estabelecimento do entreposto alemão, porque deixava a margem norte disponível para “iniciativas” que pudessem “benefi ciar a economia nacional”, e porque era fácil e relativamente pouco dispendioso para as autoridades alemãs construir as vias de comunicação (estradas e caminho-de-ferro) necessárias para a ligação com a Base de Beja e com o resto das vias nacionais44.

43 Carta do Presidente da Delegação Portuguesa à CMLA, Almirante Sousa Uva, para o

Presidente do Conselho de Ministros, Dr. Oliveira Salazar, 23 de Maio de 1960 – AHD-MNE, PEA,

Proc. n.º 332,30, Maço 337.

44 Carta do Presidente da Delegação Portuguesa à CMLA, Almirante Sousa Uva, para o

Presidente do Conselho de Ministros, Dr. Oliveira Salazar, 23 de Maio de 1960 – AHD-MNE, PEA,

As relações militares entre Portugal e a Alemanha Federal conheceram mais um desenvolvimento concreto quando o ministro português da Defesa Nacional retribuiu a visita do seu homólogo alemão em Julho de 1960. Entre os dias 4 e 11 de Julho, Botelho Moniz esteve em Bona e aproveitou a ocasião para desenvolver novas conversações com Franz Josef Strauss, das quais resultou um acordo relativo às conclusões da Comissão Mista Luso-Alemã descritas anteriormente. Assim, em relação à Base de Beja, o ministro português comprometia-se a fornecer os terrenos necessários, a assistência administrativa e técnica ao nível de pessoal e material, sendo o seu congénere alemão quem suportaria todas as fases da construção, com meios fi nanceiros e técnicos. De igual modo, no respeitante à utilização pelos alemães do porto de Setúbal, estes comprometiam-se a “emprestar” o material de dragagem necessário para suportar todas as fases de cons- trução das suas instalações, enquanto ao ministério português caberia a cedência dos terrenos e a dragagem propriamente dita do canal fl uvial de acesso ao porto. A concretização destes projectos então acordados seria da responsabilidade do governo português, mas estando reservado o di- reito aos alemães de intervir e decidir no que dissesse respeito a assuntos técnicos e fi nanceiros. As discussões necessárias teriam lugar no seio da CMLA, podendo os respectivos Ministros da Defesa intervir45.

Como podemos verifi car, os contactos estabelecidos entre os dois países durante a visita de Strauss a Lisboa em Janeiro de 1960 foram marcantes, uma vez que daí nasceram os meios institucionais pelos quais as relações militares se regeram, mas marcaram também o desencadear de uma cola- boração e cooperação fundamentais para ambas as nações. Os objectivos dos dois países eram muito específi cos: a RFA, como vimos, pretendia obter a utilização de instalações militares e “redes de apoio logístico na retaguar- da”46, particularmente importantes em caso de guerra com a União Soviética

45 Procès verbal, 11 de Julho de 1960 – AOS/CO/PC-78M.

46 António Telo, “A Europa e a Questão Alemã: uma visão de longo prazo” in Política

ou qualquer um dos seus países satélite; Portugal, por seu lado, esperava a renovação da sua antiquada indústria de defesa e a possibilidade de se rearmar com equipamento moderno que pudesse ser usado em África47.

Assim, até 1968 foram assinados contratos com organizações milita- res germânicas referentes ao fabrico de material de guerra em Portugal, principalmente munições, granadas e petardos. O fabrico das famosas es- pingardas automáticas G-3 (“a arma que fez a guerra de África”48) é um dos

exemplos possíveis demonstradores de como as encomendas alemãs foram importantes para Portugal, mas mais à frente neste trabalho exporemos as realidades desta colaboração durante a década de sessenta.

3.2. A Concretização das Facilidades para a República Federal