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Uma ciência não escapa à ideologia quando oblitera as condições de seu aparecimento ou de sua produção. Um saber é engajadamente ideológico quando recalca não apenas as circunstâncias de sua produção, mas também todo e qualquer outro saber possível em torno de seu campo. Assim o que dizer dos manuais de história do Brasil que passam por cima, atropeladamente, do Quilombo de Palmares? O que dizer da literatura histórica brasileira que esquece o saber negro de nossa formação social?

Muniz Sodré

Parto do princípio de que cada uma das paneleiras congueiras se constitui a partir da continuidade ancestral que está fincada em Goiabeiras Velha. Em outras palavras, cada uma delas, individualmente, mas sobretudo, coletivamente, congrega a continuidade da comunidade. Em cada panela confeccionada e em cada momento de ensaio ou apresentação da Banda de Congo Panela de Barro, elas estabelecem a arquê (arkhé), que sustenta todas as suas singularidades. É este o princípio da perspectiva do vivido-concebido, afirmar a ancestralidade e a espiritualidade como possibilidade de recriação de valores, experiências e linguagens coletivas capazes de redimensionar o continuum civilizatório que sustenta, dá a vida e possibilita a continuidade das mulheres paneleiras e congueiras. Nesse sentido, essa perspectiva metodológica é capaz de legitimar a arkhé civilizatória africana e ameríndia de Goiabeiras Velha. Uma vez que

Tendo como referência teórico-metodológica a arkhé africana, adquirimos a compreensão de que a dinâmica espaço-temporal histórica e existencial que estrutura e desenvolve as pulsões de sociabilidade própria das comunalidades tradicionais, caracteriza-se pela infinitude. Portanto, a abordagem sobre contemporaneidade não se esgota, há muito o que se pensar e sentir sobre essa experiência (LUZ, 1999, p. 68).

Ao adotar a abordagem etnográfica para construir este trabalho acadêmico, busquei abarcar a dinâmica dos princípios ético-estéticos que envolvem as paneleiras congueiras de Goiabeiras Velha, entendendo que, por meio da abordagem etnográfica, pode-se estabelecer um enfoque analítico-descritivo sobre a territorialidade de Goiabeiras Velha e os tambores do congo que ressoam na Banda de Congo Panela de Barro.

formação artística, a EICTV implementou a filosofia de ensinar não por meio de professores profissionais, mas de cineastas ativos, capazes de transmitir conhecimento garantido pela prática, a experiência crua, atualização constante. Desde 2011, dirige a Escola de pós-graduação o guatemalteco Rafael Rosal.

37 Essa abordagem metodológica explora aspectos da pesquisa qualitativa explorando a narrativa “desde dentro para desde fora” de todo o universo vivido-concebido pelos tambores do congo e pelas panelas de barro. Possibilita uma abordagem para a diversidade, dialoga com diferentes maneiras de interpretar o mundo, permite “interpretar e viver as relações entre as pessoas, seus grupos, entre elas e o ambiente em que transitam, modificam, de interpretar a si mesma e suas realizações” (SILVA, 2003, p. 182-183).

A perspectiva “desde dentro para desde fora” e do “vivido e concebido” promove a compreensão ética sobre procedimentos da pesquisa, amplia conhecimentos que permitem ao universo pesquisado estar em constante reflexão, além de em todo tempo instigar a reestruturação do processo de questionamento da pesquisadora. Em outras palavras, como indica Juana Elbein, essa abordagem metodológica nos permite agilizar, revisar, modificar e até mesmo rejeitar teorias acadêmicas que, em muitos casos em nome da chamada neutralidade, não permitem aos/às pesquisadores/as ver criticamente as ideologias que deformam o complexo sistema civilizatório como fonte de sabedoria (LUZ, 1998).

Essa perspectiva metodológica é capaz de possibilitar um olhar e um sentir permeado de emoções, afetividade e sentimentos. Dessa forma, o respeito às experiências de vida, à cultura, ao saber e à visão de mundo da comunidade está norteado pelos valores ancestrais que pude vivenciar e partilhar e que conduziram a pesquisa (SOUZA, 2005).

Observo que a metodologia “desde fora” está limitada a análise e críticas de quadros de referência científicos, enquanto a metodologia ‘desde dentro’ estabelece entre a pesquisadora e o grupo social um nível “bipessoal, intergrupal, em que o universo simbólico e os elementos que o integram só podem ser absorvidos num contexto dinâmico, ancorado na realidade própria do grupo social que constitui o núcleo da pesquisa” (LUZ, 2000, p. 21-22). A compreensão metodológica do vivido-concebido avança “o valor constituinte de uma linguagem que introduz o indivíduo na ordem coletiva” (SODRÉ, 1988, p. 47) e nos orienta que é possível transcender “da porteira para dentro”.

A concepção do vivido-concebido traduz o respeito às experiências de vida, à cultura, ao saber e à visão de mundo. A pesquisa foi guiada por valores ancestrais e suas significações, os saberes da educação, dos processos civilizatórios e comunicação, em diferentes circunstâncias, das mulheres que participam da Banda de Congo Panela de Barro. Nesta pesquisa, os depoimentos constituem valores documental, histórico e simbólico, proclamam a realidade material de uma determinada cultura, além de proporcionarem a leitura das

38 transformações ocorridas, conhecendo um pouco mais as inúmeras facetas da realidade que compartilham.

Com essa compreensão, busquei o aporte do filme “Assédio” como elemento capaz de intermediar a narrativa e a escuta. Parti do entendimento de que a construção metodológica de uma pesquisa como esta ocorre mediante a convivência, observação, aproximação, interação e sedução, etapas essenciais para realização das entrevistas que foram gravadas em áudio e vídeo. O aporte técnico do vídeo encontra a narrativa como método de pesquisa mais apropriado, uma vez que a Entrevista Narrativa não se guia por esquema de perguntas respostas. “O Pressuposto subjacente é que a perspectiva do entrevistado se revela melhor nas histórias onde o informante está usando sua própria linguagem espontânea na narração dos acontecimentos” (JOVCHELOVITCH; BAUER, p. 95-96).

Ao escutar histórias de amor e tantas outras de dor, busquei construir um filme documentário a fim de me apropriar da linguagem cinematográfica como um dos aportes para produção final deste trabalho. As histórias narradas pelas mulheres paneleiras e congueiras possibilitaram a construção de uma escrita acadêmica, afinal são essas vozes que se constituíram como um documento escrito, capaz não apenas de transformar o texto oral em texto escrito, mas de possibilitar que essas narrativas se tornem um instrumento pedagógico para a comunidade a que elas pertencem. Para o mundo acadêmico, acredito que essas narrativas possam servir de base para roteirizar um novo olhar do papel feminino no cinema. A memória discursiva dessas mulheres é o que orientou as indagações da pesquisadora.

O cinema pode se concretizar como um instrumento capaz de favorecer as narrativas sobre os amores e os afetos, uma vez que, como afirma Coutinho (2005), o cinema pode interagir com as histórias de vida:

A história que um filme conta é a história do filme, mas também a que cada espectador assiste. A história de cada um, espectadores e personagens, é parte da história de todos; em meio a uma enormidade de fios, se entrelaçam novos enredos em muitos plots, sejam eles reais ou ficcionais. Desvelar o que isto representa para a formação, para a educação e para a aprendizagem deste homem [e desta mulher] contemporâneo[a] é um desafio para todos [e todas], educadores ou não. A linguagem audiovisual atua em uma esfera que conjuga espaço e tempo, locação e deslocamento, o passado, presente e futuro em permanente transformação (COUTINHO, 2005).

Esta pesquisa buscou construir um diálogo sobre o cinema, o amor e o afeto, numa visão sociopolítica, para formar experiências de educação com grupo de mulheres negras, paneleiras e congueiras.

39 Caracterizar o repertório de ancestralidade africana que estrutura a identidade das mulheres negras, paneleiras e congueiras; compreender e analisar a ética socioeducativa fincada na ancestralidade africana mediante discussão de aspectos da vida privada – intimidades, amores, sonhos, desejo – entrelaçou os objetivos deste trabalho, e ademais, pude observar e analisar a interação do cinema com o cotidiano dessas mulheres, suas histórias de vida, e o “papel educativo” que cada uma delas estabelece com a comunidade a que pertencem; construir imagens fílmicas das histórias de amor, memórias, lembranças e sonhos; refletir sobre a visão do amor, paixão e desejo que têm essas mulheres.

Para Charles Affron (1982), o principal componente do cinema é o sentimento, que ajuda a contar histórias e, principalmente, envolve quem está assistindo. Assistir ao filme num cineclube improvisado no terraço da casa de Jamilda me possibilitou compreender diversos sentimentos e valores nos quais, embora eu já tivesse visto o filme inúmeras vezes, eu jamais tinha pensado. “Na poética feminina negra a afetividade caminha junto com a dor”, escreve Esmeralda Ribeiro, ao dissertar sobre “A relação afetiva entre o homem e a mulher na poesia”. Para ela, “A porta da emoção precisa ser aberta”. Pois bem, o que faço neste trabalho é tentar abrir outras portas.

Acredito na educação como recurso primordial para a construção do ideal amoroso. Para isso, recorro a Jurandir Freire Costa: 1) O amor é um sentimento natural e universal; 2) O amor é incontrolável e surdo à voz da razão; e 3) O amor é condição sine qua non da felicidade.

Em outras palavras, a concepção do amor que tentei construir abarca as mulheres negras no mundo, ou seja, o amor também se define a partir de nossas identidades, de nossos corpos, memórias, territórios e territorialidades. A família, as experiências individuais e/ou coletivas sustentarão ou não os pilares e o credo amoroso; da mesma forma, sustentarão a frustração de quem, por algum motivo, não consegue alcançá-lo. Uma pesquisa que se constitui com o apoio político-metodológico “desde dentro para desde fora” na dimensão do “vivido-concebido” permite edificar informações a partir das observações do universo simbólico da comunidade envolvida.

A compreensão metodológica do vivido-concebido avança “o valor constituinte de uma linguagem que introduz o indivíduo na ordem coletiva” (SODRÉ, 1988, p. 47) e me orienta que é possível transcender da porteira para dentro29, pois é nesse processo, “que os

29 “Da porteira pra dentro, da porteira pra fora”, com essa metáfora da territorialidade da tradição nagô, Mãe

40 integrantes da comunidade compartilham conhecimentos, sentimentos e emoções comuns, que se estabelecem e se fortalecem os vínculos de aliança e se estruturam identidades” (LUZ, 1992, p. 59).

O encontro com a metodologia do “vivido-concebido”, “desde dentro, para desde fora”, busca construir um trabalho acadêmico com emoção, uma vez que, por essa abordagem, pode-se estabelecer um enfoque analítico-descritivo sobre a territorialidade e a comunalidade características da população e do patrimônio imaterial afro-brasileiro. O encontro com desde dentro, para desde fora, dá “continuidade à memória legada pelos ancestrais, à circulação de força que propicia a harmonia cósmica, e à linguagem onde se expressa essa forma de ser” (LUZ, 1992, p. 61). “A perspectiva do desde dentro para desde fora oferece espaço para o devir. Nem tudo está pensado e planejado; cabe o imprevisível, que nos fornece elementos para entender o todo; o que parece insignificante e sem sentido ganha significado e importância” (SOUZA, 2006, p. 25).

Este trecho do livro “Os Nagô e a Morte”, de Juana Elbein dos Santos (1988), traduz os aspectos emocionais que queremos enfatizar ao explicitar a metodologia:

A convivência, passiva como observadora no começo, e ativa à medida que se foi desenvolvendo progressivamente a rede de relações interpessoais e a minha consequente localização no grupo, foi-me iniciando no conhecimento “desde dentro”, obrigando-me a agilizar, revisar, modificar e, às vezes, rejeitar, mesmo inteiramente, teorias e métodos inaplicáveis ou desprovidos de eficácia para a compreensão consciente e objetiva dos fatos (SANTOS, 1988, p. 16-17).

A perspectiva “desde dentro para desde fora” e “vivido-concebido” promove a compreensão ética sobre procedimentos da pesquisa. Elabora espaços que percorrem e tecem os vínculos sociais (LUZ, 1992):

O pesquisador deverá debruçar-se criticamente sobre as ideologias que deformam a população africano-brasileira e a identificam como incapaz, ignorante, primitiva, pagã, selvagem, incivilizada... Se o outro é colocado como objeto, como podemos conhecê-lo como sujeito? A deformação que da comunidade religiosa com a sociedade envolvente, de valores distintos, na dinâmica da pluralidade sociocultural brasileira. “Mãe Senhora dinamizou a diplomacia com a sociedade envolvente, atraindo inúmeros artistas, intelectuais de projeção política, que vieram a reforçar a legitimação da comunidade num contexto histórico marcado pela adversidade e pela luta de afirmação de sua identidade civilizatória própria” (LUZ, Marco. Disponível em < http://www.iar.unicamp.br/docentes/inaicyra/trajetoria.htm>. Acesso em: 10 out. 2013).

41 existe é que não se trata de estudar essa população como objeto de ciência, e sim a sua cultura e seu complexo sistema civilizatório como fonte de sabedoria (LUZ, 1998, p. 157).

Essa perspectiva metodológica, fincada nos valores ancestrais, é capaz de possibilitar um olhar e um sentir permeados de emoções, afetividade e sentimentos. Dessa forma, o respeito às experiências de vida, à cultura, ao saber e à visão de mundo da comunidade está norteado pelos valores da territorialidade e da comunalidade.

“Desde dentro para desde fora”, constituindo a dimensão do “vivido concebido”, possibilita edificar um conjunto de informações e emoções trazidas pela comunidade. Legitima-se o universo simbólico pleno de erudição da comunalidade. “Não se trata de estudar essa população como objeto de ciências, e sim a sua cultura e o seu complexo sistema civilizatório como fonte de sabedoria”, como escreveu Luz (1998, p. 157). A compreensão dessa possibilidade como metodologia avança “o valor constituinte de uma linguagem que introduz o indivíduo na ordem coletiva” (SODRÉ, 1988, p. 47) e nos orienta que é possível transcender da porteira para dentro.

Construir um trabalho de pesquisa sobre histórias de amor é um exercício de comportamentos e ações, valores e outros sentidos referenciados na cultura ancestral, cujo “reencontro com o passado só se dá na reconstrução da memória por um sistema de valores que coincide com o quadro social presente” (SODRÉ, 2001, p. 85). Essa essência possibilita efetivas práticas pedagógicas coletivas, capazes de construir um conhecimento dinâmico e libertador.

Cada pesquisa constitui a dimensão do “vivido-concebido”, possibilita edificar um conjunto de informações em que as interpretações e análises abrangeram uma “perspectiva do universo simbólico da comunidade envolvida” (SANTOS, 1998, p. 21). É como diz um provérbio africano, da cultura xhosa: “O conhecimento é como um jardim: se não for cultivado, não pode ser colhido”. Nesse sentido, a arkhé civilizatória “ressalta a correspondência entre a ancestralidade e a convivência como formadores de nosso processo identitário, no caso afro-descendente” (SANTOS, 2005, p. 221) e materializa o que chamamos de ethos. Esse, afirma Narcimária Luz (2000), “está presente nas relações e nos valores da comunidade a referência à compreensão da arkhé que funda, estrutura, revitaliza, atualiza e expande a energia mítico-sagrada da comunalidade africano-brasileira” (LUZ, 2000, p. 47).

42 Nessa visão de mundo encontra-se o Eidos, expressão que sintetiza as formas de elaboração e concretização da linguagem, modo de sentir e introjetar valores e linguagens, conhecimento vivido e concebido, emoção e afetividade (LUZ, 2000).

Na perspectiva do vivido-concebido, as paneleiras congueiras de Goiabeiras Velha expandem a continuidade e a ancestralidade fincada no local de origem. Em outras palavras, Marco Aurélio Luz (1992, p. 58) chamou de “... princípios primordiais. É o que se pode denominar de ponto de ancoragem, uma arquê (arkhé), que sustenta suas singularidades”. Esses princípios se renovam a cada panela confeccionada e em cada momento de ensaio ou apresentação da Banda de Congo Panela de Barro: “congrega a comunidade para o estabelecimento das relações entre este mundo e o além, o mundo visível e o mundo invisível, integrado pela circulação de forças expressas no continuum de restituições e renovação, de morte e re-nascimentos” (LUZ, 1992, p. 58).