5 Resultater
5.3 Responskurver
5.3.5 Lavrespondere og revers-respondere
diferentemente segundo as idades e as personalidades, o relato de vida é um verdadeiro espelho do sujeito enquanto actor, ser social e ser comunicativo (Clapier-Valladon, S., 1983a: 133).
Admitindo uma distinção conceptual entre biografia e au- tobiografia20, poderemos sustentar que o indivíduo, através dos rela-
tos (auto)biográficos redescobre o lado agradável de falar de si e explorar, sem apreensões, mais um passado reconstituído fielmente do que um futuro incerto. Pode mesmo dizer-se que o homem ocidental do séc. XX, que se pretende voltado para um futuro, o homem do computador, o homo oeconomicus et politicus, está a fazer um delicioso regresso à introspecção e parte, com paixão, à descoberta das suas raízes (Clapier-Valladon, S., idem: 130). O passado desmodado está a voltar em força e recolhem-se piedosamente as recordações dos avós, procuram conservar-se os objectos e gestos e reconstituir as genealogias perdidas. Trata-se, possivelmente, de afirmar, através dos relatos (auto)biográficos, uma necessidade pro- funda de conhecimento e expressão de si que o discurso social e as transformações do nosso modo de vida tinham profundamente ocul- tado (ibidem). Numa palavra, a renovação da perspectiva biográfica não é mais que uma investida sobre o ser, sobre esse ser que a nossa
sociedade e as ciências que dela se ocupam, preocupadas pelo futuro e pelo ter, pareciam ter esquecido (Clapier-Valladon, S., idem: 137). Se procurarmos situar a origem remoto-histórica dos rela- tos ou histórias de vida, poderemos evocar, segundo a mesma A. (1983: 103), o precedente mais ilustre do autotestemunho, o De Bello Gallico de Júlio César, fazendo igualmente menção das Confissões de S.to Agostinho e dos relatos de viagens de Marco Pólo. Porém, procurar os pais fundadores dos relatos de vida implicaria ter em conta a polivalência do género biográfico, que, a partir da obra Vidas Paralelas de Plutarco, se desenvolveu, no contexto histórico-literário europeu, segundo diferentes formas.
Numa época contemporânea, por sua vez, é possível detec- tar três grandes impulsos para a produção sistemática de relatos de vida, enquanto método de pesquisa, nomeadamente: a Auto-análise de Freud, a Escola de Chicago e a Tradição Antropológica (Clapier-
Valladon, S., 1983: 105-109). De facto, para Freud, a Auto-análise
converte-se frequentemente em pesquisa de recordações e autobio- grafia, chegando a dar grande relevo à análise minuciosa da sua vida pessoal e de alguns relatos singulares. Quanto à Escola de Chicago, inicia a primeira utilização sistemática da abordagem biográfica em Sociologia, publicando a (auto)biografia do jovem Wladik, imigrante polaco, The Polish Peasant in Europe and America, de Thomas e Znaniecki (1927), obra concretizadora de uma monumental pesquisa; e, por outro lado, após um longo eclipse, continuaram os sociólogos de Chicago a implementar a tradição da Escola na recolha e interpre- tação exploratória do relato biográfico, estendendo a sua influência à Europa, como o atesta a actividade de Znaniecki na Polónia. No referente à Tradição Antropológica, encontramos as suas repercus- sões sobre as abordagens biográficas logo desde a (auto)biografia sobre o índio Winnebago, de Paul Radin -1920, passando por F. Boas e pela etnologia francesa. Logo que ultrapassado o eclipse de 1940 a 1960, recheado das querelas entre a metodologia qualitativa e a quantitativa, surge o rejuvenescimento, que se inicia com Les Enfants de Sanchez (Oscar Lewis -1961), (auto)biografia de uma família mexicana, impondo-se novamente um entusiasmo generalizado pela abordagem biográfica.
Muito coincidente com a presente análise histórica, suma- riamente apresentada na pista de S. Clapier-Valladon, encontra-se a posição de M. Huberman (1989: 9-10), que considera como fontes constitutivas da tela de fundo do estudo biográfico em geral e do estudo biográfico do ensino em particular:
- A literatura psicodinâmica (Freud, Henry Murray, G. Allport, Erikson, Robert White, Vaillant, Gould e Levinson); - a Literatura Sociológica - Escola de Chicago (Park, Mead,
Cooley, Thomas, Blumer);
- os Estudos da Série “Life-span Developmental Psychology”, publicados a partir dos anos 70.
São de salientar, entre nós, os contributos de J. A. Gonçal-
ves (1990: 63-102) para uma sistematização da visão histórica da
abordagem biográfica, que, embora concordante com as observações precedentes, as corrobora e complementa pelo estudo minucioso sobre a tradição greco-latina21 e os quatro períodos da história
recente, que referimos:
a) Dos anos 20 a 1940, pode considerar-se a abordagem biográfica pela óptica da Psicologia, da Sociologia e da Antropologia, em que, respectivamente, se evidenciam os contributos das correntes Psicanalítica22 e da dos Ciclos de
vida”23, as aportações sociológicas da “Escola de Chica-
go”24 e da “Tradição Polaca”25, os trabalhos do antropólogo
Paul Radin (1926 -Crashing Thunder, autobiografia do índio Winnebago)26.
b) O período do hiato dos anos 40 a 60 caracteriza-se pelo “eclipse” da abordagem biográfica, provocado, em última análise, por factores contextuais (por ex., o não reconheci- mento de um estatuto científico ao vivido por parte dos investigadores)27, enquanto os métodos quantitativos se
tornam “triunfantes”.
c) O período dos anos 60-70: a redescoberta, traz consigo o renascimento da abordagem biográfica, quer como método utilizado, quer como objecto de aprofundamento epistemológico, tanto num contexto americano28, como
europeu29.
d) O período da actualidade, em que o relato de vida se converte em objecto de estudo de várias áreas disciplinares: historiadores, sociólogos, etnólogos, responsáveis pela formação, que renovam o seu interesse pelos documentos pessoais e pelo “testemunho do vivido quotidiano”. Hoje, apesar de uma certa indefinição, quer epistemológica, quer metodológica, o “método biográfico” continua a afirmar- se30.
Poder-se-ia sustentar que um dos elementos unificadores e presentes nas perspectivas impulsionadoras do uso do relato biográ- fico ou história de vida, reside no facto de este constituir, antes de mais, uma “linguagem, ...um dizer e, como toda a linguagem, pintura de uma realidade” (Clapier-Valladon, S., 1983a: 134), pois a forma de viver de cada um, indivíduo ou grupo social, exprime-se na sua linguagem específica. E, “a palavra faz parte do universo daquele que fala, visto que pelas palavras ele expressa a sua concepção do mundo” (ibidem). Por outras palavras, os relatos biográficos, e con- cretamente a autobiografia, consistiriam numa reconstrução (Diamond, P., 1991: 93) que envolve uma consciente e reflexiva elaboração de grande parte da vida do autor, incluindo experiências pessoais e profissionais, ao mesmo tempo que fornece uma interpre- tação dos episódios vitais e da relação que o autor tem com eles.
Na esfera do ensino em especial, a biografia dos professo- res, para além da dimensão comunicativa e da conceptualização do seu mundo, ela revela significativamente o seu processo de socializa- ção, isto é, aquilo que os influenciou e aquilo que eles foram capazes de influenciar (Musgrave, P.,1984: 207). Efectivamente, enquanto desenvolvem “histórias de vida”, os professores podem ser envolvi- dos num trabalho que iluminará e avaliará as condições e compreen- são das suas vidas profissionais, dirá I. Goodson (1988: 114).
Admitindo-se vários géneros31 de relatos de vida, e sejam
quais forem os nomes e nuances que se lhes atribuam, verificamos, contudo, que a essencialidade da abordagem biográfica reside na assunção do homem enquanto “universal singular” (Clapier-
Valladon, S. et Poirier, J., 1984: 73) e no “paradoxo epistemológico”
que tal dimensão possa representar (Nóvoa, A., 1988a: 14-15). De facto, para Nóvoa (ibidem), é “este paradoxo epistemológico funda- mental do método biográfico”, que consiste na união do mais pessoal com o mais universal, que impulsionou “ a utilização recente das abordagens (auto)biográficas..., no quadro da investigação na área das Ciências Sociais e Humanas, num esforço de produção de um outro conhecimento sobre o homem social e sobre o seu comporta- mento”. A este propósito, é significativa a referência que Nóvoa salienta de F. Ferrarotti:
O homem é o universal singular.
Se nós somos, se todo o indivíduo é, a reapropriação singular do universal social e histórico que o rodeia, então podemos conhecer o social a partir da especificidade irredutível de uma práxis individual
Eis-nos no âmago do paradoxo epistemológico que nos propõe o método biográfico.
(Ferrarotti, F.,1988, pp. 26-27, cit. por A. Nóvoa, 1988a: 15)
É forçoso reconhecer, todavia, que o salto epistemológico operado do sujeito singular para o universal social pressupõe um profundo autoconhecimento do sujeito, quer num sentido declarativo -o eu como objecto do conhecimento, quer num sentido comportamental -o eu como actor em situações específicas. Ora, refere Ben-Peretz (1992: 211), “é interessante verificar como as ocorrências autobiográ- ficas relatadas pelos professores abrangem ambos os tipos de conhe- cimento”. E A. Nóvoa (1988a: 15) situando-se na linha de E. Morin, vai mais longe, ao sustentar que é na dualidade consciência sujeito - consciência objecto do conhecimento que se situa o fulcro das abordagens (auto)biográficas. Efectivamente, discorre Nóvoa (ibidem), uma grande parte das potencialidades daquelas abordagens têm a sua génese nesse seu duplo estatuto de instrumento de investigação e de formação, o que, por outras palavras, significa que “é na encruzilhada dos caminhos individuais e da universalidade do homem, é no
encontro dos percursos da subjectividade com uma reflexão objecti- va, que as abordagens (auto)biográficas conquistam toda a sua dimen- são inovadora, não podendo deixar de interpelar todos quantos, de uma maneira ou de outra, se dedicam à tarefa de contribuir para a formação de outros homens”.
Não poderemos omitir que, na dimensão da singularidade específica de cada ser humano, as narrativas ou histórias de vida permitem a identificação do sujeito consigo mesmo, com o seu passado, com a sua “história”. As histórias de vida, seja qual for a sua especificidade (educação, estudos sociais, história propriamente dita, literatura crítica, antropologia, arte, dramaturgia, linguística, filmogragrafia, teologia, flosofia, etc.), todas têm como ideia essen- cial que “o humano é um ser de histórias”, que os humanos se compreendem contando histórias sobre eles próprios e sobre os outros e escutando as histórias que os outros têm para contar de si (Tochon,