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K LASSIFISERING AV KONFLIKTEN

A erva do rato tem como inspiração dois contos de Machado de Assis, Um esqueleto (1885) e A causa secreta (1896), cujo escritor era admirador confesso de histórias de horror, bem como leitor assumido de Edgar Allan Poe e também tradutor do seu famoso conto O corvo.

Os contos fornecem os elementos perturbadores que também aparecem no filme: o rato, o esqueleto, a própria personagem d’Ele (portadora de qualidades insanas), e, inclusive, algumas descrições dos sons que situam as ações de suas personagens, com inúmeras citações do silêncio. Podemos observá-las quase sempre atreladas a sentimentos como melancolia, solidão, medo e terror, conforme os comentários dos narradores nos deixam saber.

As personagens do marido, em ambos os contos, são caracterizadas por seus aspectos incomuns que despertam a curiosidade e resultam em um resquício incômodo, que vai ganhando contornos sombrios conforme acompanhamos seus feitos. Efeitos de sadismo e de repugnância beiram o horrível e a insanidade através dos contornos de Dr. Belém e Fortunato (os maridos), cujas personagens retomam a representação do mal (senão do diabólico) como, por exemplo, a referência a Mefistófeles feita por Dr. Belém em Um esqueleto.

A abertura de Um esqueleto se dá à beira mar, onde doze amigos conversam despretensiosamente, como nos diz o narrador. A história narrada por um dos convivas vai ganhando tons de suspense na medida em que o narrador vai descrevendo a personagem do Dr. Belém que, morbidamente, mantinha o esqueleto de sua primeira esposa armazenado — fato que instiga a curiosidade pelos que ouvem a sua história.

- Desculpem-me este silêncio, não me posso lembrar daquele homem sem que uma lágrima teime em rebentar-me dos olhos. Era um excêntrico, talvez não fosse, não era decerto um homem completamente bom; mas era meu amigo; não direi o único mas o maior que já tive na vida. / Como era natural estas palavras de Alberto alteraram a disposição de espírito do auditório. O narrador ainda esteve silencioso alguns minutos. De repente sacudiu a cabeça como se expelisse lembranças importunas do passado, e disse: - Para lhes mostrar a

excentricidade do Dr. Belém basta contar-lhes a história do esqueleto. / A palavra esqueleto aguçou a curiosidade dos convivas; (...) todos esperavam ansiosamente o esqueleto do Dr. Belém. Batia justamente meia-noite; a noite, como disse, era escura; o mar batia funebremente na praia. Estava-se em pleno Hoffman110. Alberto começou a narração 111.

No decorrer do conto, várias vezes os silêncios que despontam no convívio de Alberto com Dr. Belém são mencionados, juntos da presença de sua esposa (viva), a melancólica e frágil dona Marcelina:

O doutor tinha os olhos fitos no esqueleto e uma lágrima lhe caía lentamente pela face. Estivemos todos calados durante cerca de dez minutos. O doutor rompeu o silêncio. (...) O doutor era, sim, um homem singular e excêntrico; doudo lhe chamavam os que, por se pretenderem mais espertos que o vulgo, repeliam os contos da superstição. Estivemos calados algum tempo e dessa vez foi ainda ele que interrompeu o silêncio 112.

Ao final do conto, o desfecho confirma a estranheza da personagem do marido ao passo que o narrador confessa não se tratar de uma história real, desarmando a atmosfera que havia sido montada segundo as expectativas que conduziam o teor “horrível” e “insano” do conto, rompendo ironicamente com tais expectativas:

- Mas é um doudo esse teu Dr. Belém! Exclamou um dos convivas rompendo o silêncio de terror em que ficara o auditório.- Ele doudo? Disse Alberto. Um doudo seria efetivamente se porventura esse homem tivesse existido. Mas o Dr. Belém não existiu nunca, eu quis apenas fazer apetite para tomar chá. Mandem vir o chá. É inútil dizer o efeito desta declaração113

Já no caso de A causa secreta, é em torno da personagem de Fortunato que circunda em maior grau o efeito de suspense no conto. Casado com d. Maria Luísa e amigo do médico Garcia, o marido é novamente a figura que acrescenta asco à história, conforme seus atos vão extrapolando em excentricidade enquanto suas ações lhe confirmam um efeito “horroroso”.

110 Ernst Theodor Hoffmann, escritor alemão do período romântico, famoso por sua literatura fantástica. 111 Trecho extraído do conto “Um Esqueleto” de Machado de Assis. Grifo nosso.

112 Idem. Grifo nosso

113 Trecho de “A causa secreta” de Machado de Assis. Grifo nosso.

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Neste conto é evidente o isolamento que separa casal protagonista conforme os comentários do narrador: Garcia, à segunda vez que lá foi, percebeu que entre eles havia alguma dissonância de caracteres, pouca ou nenhuma afinidade moral, e da parte da mulher para com o marido uns modos que transcendiam o respeito e confinavam na

resignação e no temor.114 Este isolamento das personagens também é sensível e presente

em A erva do rato, sendo o efeito do silêncio um dos elementos-chave para a construção de um sentimento de solidão entre o casal conforme discutiremos mais adiante. Em outra passagem, o narrador reforça este sentimento ao comentar a personagem da esposa:

A comunhão dos interesses apertou os laços de intimidade. Garcia tornou-se familiar na casa; ali jantava quase todos os dias, ali observava a pessoa e a vida de Maria Luísa, cuja solidão moral era evidente. E a solidão como que lhe duplicava o encanto. Garcia começou a sentir que alguma coisa o agitava, quando ela aparecia, quando falava, quando trabalhava, calada, ao canto da janela, ou tocava ao piano umas músicas tristes. Manso e manso, entrou-lhe o amor no coração 115.

Uma das causas desta distância entre Fortunato e sua esposa são as qualidades que beiram a loucura e ao sadismo, conforme suas ações revelam. Sua insanidade atinge o clímax em uma descrição de tortura, quando nos é narrada a consternação das demais personagens frente ao investimento repulsivo que a personagem do marido toma contra um rato que havia invadido a sua casa:

Viu Fortunado sentado à mesa, que havia no centro do gabinete, e sobre a qual pusera um prato com espírito de vinho. O líquido flamejava. Entre o polegar e o índice da mão esquerda segurava um barbante, de cuja ponta pendia o rato atado pela cauda. Na direita tinha uma tesoura. No momento em que o Garcia entrou, Fortunato cortava ao rato uma das patas; em seguida desceu o infeliz até a chama, rápido, para não matá-lo, e dispôs-se a fazer o mesmo à terceira, pois já lhe havia cortado a primeira. Garcia estancou horrorizado: Mate-o logo! – Já vai. E com um sorriso único, reflexo de alma satisfeita, alguma coisa que traduzia uma delícia íntima das sensações supremas, Fortunato cortou a terceira pata ao rato, e fez pela terceira vez o mesmo movimento até a chama. O miserável estorcia-se, guichando, ensangüentado, chamuscado, e não acabava de morrer. (...) Faltava cortar a última pata; Fortunato a cortou muito devagar, acompanhando a tesoura com os olhos; a pata caiu, e ele ficou olhando para o rato meio cadáver. Ao descê-lo pela quarta vez, até a chama,

114 Idem. Grifo nosso. 115 Idem. Grifo nosso.

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deu ainda mais rapidez ao gesto, para salvar, se pudesse, alguns farrapos de vida. (...) Garcia, defronte, conseguia dominar a repugnância para fixar a cara do homem. Nem raiva, nem ódio; tão somente um vasto prazer; quieto e profundo, como diria a outro a audição de uma bela sonata ou a vista de uma estátua divina, alguma coisa parecida com a pura sensação estética. (...) “Castiga sem raiva”, pensou o médico [Garcia], “pela necessidade de achar uma sensação de prazer. Que só a dor alheia pode dar: é o segredo deste homem” 116.

Como se vê nos exemplos dados acima, os efeitos que cercam as personagens do marido no conto, bem como a descrição dos narradores sobre a atmosfera que compõe suas ações, despertam sensações que beiram o suspense e nos remetem à própria definição de “horror-artístico” — conforme a noção proposta por Noel Carroll que explicitaremos logo mais, uma vez que os contos apresentam elementos que este autor considera fundamentais ao gênero de Horror.

Ainda, reconhecemos em A erva do rato uma “atmosfera perturbadora” fornecida por meio das “pistas genéricas” encontradas no filme que embasa nossa abordagem da relação entre a trilha sonora e os gêneros cinematográficos. Nesse sentido, passamos ao debate acerca do gênero do Horror no cinema com especial atenção e destaque para a representação do silêncio devido às noções que circundam este efeito e que remontam à solidão, ao vazio, e ao macabro/sinistro.