O objetivo do projeto “Saúde Verde” é a complementação e geração de renda para os moradores da comunidade do Manejo, além de buscar a sensibilização quanto a importância da conservação e utilização de espaços comuns que podem ser aproveitados para atividade que visem o bem estar social, econômico e cultural (Redação do projeto Saúde Verde). De acordo com o projeto, se os moradores estiverem envolvidos será possível a criação de espaços de discussão e programas pedagógicos de forma que possa formar um cidadão qualificado para buscar soluções para os problemas cotidianos da comunidade.
De acordo com o documento41 de apresentação do projeto, a proposta de uma horta dedicada ao cultivo de plantas medicinais e aromáticas foi decisão dos próprios moradores da comunidade de Manejo. Entretanto, não consta na redação se foram consultadas as lideranças da comunidade ou demais moradores.
Ainda de acordo com o documento do projeto, o Instituto Cidade, junto à ASCOMA, já realiza desde 2005, com apoio da câmara municipal de Lima Duarte e o Projeto de extensão Escola e Cidadania da Universidade Federal de Juiz de Fora, atividades com o objetivo de qualificar o indivíduo para a cidadania e otimizar as organizações comunitárias (Redação do Projeto “Saúde Verde”).
Uma das atividades realizadas foi o diagnóstico socioeconômico e cultural que permitiu conhecer a região, descobrir e aproveitar as suas potencialidades, desenvolver projetos e criar alternativa de renda e uso de plantas medicinais (fitoterapia) com fins terapêuticos, e experiências de pessoas que se beneficiavam, mesmo que de maneira rudimentar, da comercialização desses produtos. No entanto, tais iniciativas ocorreram de maneira isolada e sem a devida orientação, as pessoas acabavam desistindo da atividade assim que surgiam os primeiros contratempos, principalmente nas áreas técnicas, tributária e sanitária (Projeto Saúde Verde, 2005).
Segundo o diagnóstico citado acima, outro dado é a falta de interesse dos jovens em adquirir esses conhecimentos e o desprezo pela cultura local, priorizando os valores “de fora”, o que compromete, segundo o texto, as próximas gerações e coloca em risco a extinção dos conhecimentos da própria identidade cultural da região (Redação do
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Projeto “Saúde Verde”). Esses dados foram as justificativas do projeto, que apresentou o seguinte objetivo:
• Desenvolver um programa de cultivo de plantas medicinais e aromáticas através de uma horta (medicinal) comunitária junto à comunidade do distrito do Manejo, visando à geração de renda e qualificação do cidadão para integrar-se à vida da comunidade. Tais atividades de cultivo serão realizadas no terreno da igreja, que dispõe de espaço adequado para cultivo, e no galpão da associação de moradores será feito o beneficiamento e outras ações.
Os objetivos específicos do projeto são:
• Cultivar no espaço da horta, plantas e ervas medicinais e aromáticas, visando gerar renda através da comercialização;
• Promover a educação ambiental e alimentar;
• Promover o desenvolvimento humano e social das pessoas envolvidas;
• Estimular a criatividade, a auto-estima, a organização, e a autonomia das pessoas envolvidas no processo, buscando a sua emancipação; • Desenvolver programas pedagógicos de formação cívica;
• Capacitar as pessoas envolvidas para o desenvolvimento autônomo de atividades sustentáveis a partir da experiência do projeto.
Diante do exposto, verifica-se que o projeto “Saúde Verde” foi desenvolvido com o intuito de gerar renda para a população do Manejo bem como servir de estímulo ao consumo de alimentos saudáveis. Todavia, verificou-se por meio de entrevista com moradores que o projeto não alcançou resultado satisfatório, dos 50% que conheciam algum projeto que não obteve êxito 32% referiam-se ao projeto “Saúde Verde”.
Edgar Morin (2006) argumenta que não existem fenômenos de causa única. Sendo assim, ao analisar o projeto “Saúde Verde” e os relatos da comunidade sobre o mesmo, verifica-se que o problema não está relacionado apenas ao desenvolvimento do projeto ou à falta de participação da comunidade, ou mesmo falhas na execução e acompanhamento como foi apontado por 70% das lideranças. O projeto “Saúde Verde”
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possui um conjunto de pontos de ruptura em seu desenvolvimento, desde a elaboração do projeto até a sua execução.
É importante ressaltar nessa análise, os objetivos do projeto, o público beneficiário bem como o contexto em que foi desenvolvido. Como se apresentou anteriormente, um dos objetivos principais do projeto é a geração ou incremento de renda dos moradores da comunidade do Manejo. Se fosse analisada a pertinência do projeto quanto aos objetivos, seria possível afirmar que o projeto é altamente pertinente, uma vez que a presente pesquisa constatou a falta de trabalho/emprego como um dos maiores problemas da comunidade do Manejo (Figura 14). Por meio desta constatação, pode-se inferir também que a organização fez diagnósticos prévios à elaboração para conhecer os pontos fracos da comunidade e assim atuar na amenização de tais deficiências. Mesmo assim, verificou-se que o projeto “Saúde Verde” não alcançou as expectativas dos moradores da comunidade, uma vez que 32% o apontaram como um projeto que não obteve êxito.
Pode-se inferir que um dos fatores que facilitou a criação do projeto foi o conhecimento que a organização possuía da região, além disso, a organização já desenvolvia trabalhos em parceria com a câmara dos vereadores do município. Outros fatores que facilitaram o desenvolvimento do projeto foi o financiamento que, por sua vez, foi alcançado por meio de um edital que contemplava a temática trabalhada pela organização e o fácil acesso à comunidade (margem da BR 207).
De outro lado, pôde-se observar durante a pesquisa que um dos fatores que dificultou o desenvolvimento do projeto foi a escolha do local para o cultivo das plantas. O terreno cedido pela igreja situa-se próximo ao córrego que passa dentro da comunidade. O que seria uma escolha estratégica se tornou um problema. O local para o cultivo das plantas medicinais, verduras e legumes deveria, por exigência técnica de cultivo, ter acesso à água para irrigação. Contudo, um dos problemas que afetou o desenvolvimento do projeto foi a falta de rede de esgoto na comunidade. Como mencionado anteriormente, 62% do esgoto da comunidade é jogada no córrego, o que consequentemente influenciou negativamente o desempenho do projeto.
Vale ressaltar novamente que 40% dos moradores entrevistados apontam a falta de infra-estrutura como um dos maiores problemas da comunidade. Tal índice é
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reforçado, principalmente, pela falta de rede de esgoto e água tratada (problema apontado na maioria das entrevistas).
Tal constatação pode ser validada pela declaração do presidente da organização responsável pelo desenvolvimento do projeto. “(...) O projeto se inviabilizou por problemas técnicos. A área escolhida para o plantio estava perto da valeta de esgoto. (...) O problema da água criou um mal estar na comunidade, ajudou a inviabilizar o projeto e desmotivou as pessoas” (Entrevista dada pelo presidente do Instituto Cidade, 2007).
Diante do exposto, verifica-se que a estratégia adotada, apesar de utilizar diagnósticos participativos, não conseguiria atingir o desenvolvimento esperado pela comunidade42. De acordo com Sen (2000), o desenvolvimento é a capacidade das pessoas terem liberdade, opções para fazerem escolhas e poder para decidir sobre os aspectos que interferem no seu dia-a-dia. No entanto, a comunidade não teve opção e nem poder para decidir, restando a ela se enquadrar dentro do que as organizações podem oferecer. Sendo assim, a estratégia adotada pela organização segue um caráter tutorial de intervenção na medida em que a participação deixa de ser um processo de auxílio ao empoderamento da população e passa a ser mecanismo de legitimação do processo de intervenção baseado no cumprimento das agendas e objetivos específicos, deixando de lado os interesses43 locais.
Finalmente, é importante elevar a importância de uma análise mais profunda nos processos de intervenção para compreender suas possíveis falhas e distorções. De acordo com Mariotti (2000), é preciso entender que os fatos podem ser ao mesmo tempo causa e efeito, necessitando de uma análise sob a perspectiva sistêmica. No presente caso, a falta de infra-estrutura da comunidade, principalmente no que diz respeito à falta de rede de esgoto, pode ter sido a causa da falha no projeto “Saúde Verde” ao mesmo tempo em que pode ter sido o efeito de outros projetos mal concebidos ou executados de maneira incompleta.