A função sexual humana é constituída pelo desejo sexual, caracteristicamente subjetivo e compreendido pela vontade de fazer sexo e respostas sexuais humanas, tipicamente fisiológicas, da excitação, platô, orgasmo e resolução (MASTERS; JOHNSON, 1966; BRECHER; BRECHER, 1969; ALEXANDER et al., 1993).
Pioneiramente na década de 50, o médico William H. Masters e a psicóloga Virginia E. Johnson conduziram pesquisas em laboratório onde investigaram o comportamento sexual de homens e mulheres, enfatizando o funcionamento sexual e obtendo importantes informações sobre a anatomia e fisiologia da resposta sexual humana (MASTERS; JOHNSON, 1966; BRECHER; BRECHER, 1969).
Masters, refletindo sobre o destacado estudo de Kinsey e colaboradores a respeito do comportamento sexual, percebendo que os pesquisadores não verificaram as respostas fisiológicas à estimulação sexual, bem como abstraindo de sua prática clínica em ginecologia a lacuna existente relacionada à vivência da sexualidade na gestação, às gestações indesejadas mesmo diante da utilização de contraceptivos, aos problemas referentes à infertilidade e, principalmente, deparando-se com muitos casais que compartilhavam frustrações, incapacidades, disfunções e até mesmo a incompatibilidade sexual, formulou como problema de pesquisa que os fundamentos do comportamento sexual não poderiam ser estabelecidos sem, contudo, responder a duas questões: Quais as reações físicas obtidas por homens e mulheres em resposta à estimulação sexual? e Por que homens e mulheres reagem como o fazem em resposta ao estímulo sexual efetivo (MASTERS; JOHNSON, 1966; BRECHER; BRECHER, 1969).
Baseado nos questionamentos formulados, Masters objetivou em sua pesquisa fornecer informações fundamentadas cientificamente para, em segundo momento, prover respostas definitivas aos problemas de disfunção sexual (MASTERS; JOHNSON, 1966).
O pesquisador inicia seus estudos entrevistando 118 prostitutas profissionais e 25 garotos de programa. A escolha por essa população deveu-se à crença de que seria a única fonte de sujeitos dispostos a participar voluntariamente de seus estudos. Seu objetivo, no
entanto, era realizar observações diretas e obter mensurações físicas durante a atividade sexual, objetivando o estudo da sexualidade humana normal. Contudo, Masters considerava as prostitutas participantes atípicas, devido ao seu comportamento sexual diferenciado ao da população em geral, sendo freqüentemente acometidas por patologias na pélvis, o que geraria resultados alterados, não sendo portanto incluída no estudo a coleta obtida com essa população.
Não obstante, as participantes descreveram uma série de métodos para elevar e controlar as tensões sexuais, demonstrando inúmeras técnicas estimulantes, posteriormente integradas ao programa de investigação clínica, sendo aplicadas como terapêutica na disfunção sexual tanto feminina quanto masculina, fundamentando o tratamento posteriormente instituído (MASTERS; JOHNSON, 1966).
O pesquisador, então, encontrou voluntários na comunidade médica de St. Louis e entre os casais de pacientes aos quais assistia dispostos a participar de sua pesquisa, onde observava em laboratório a masturbação e intercurso sexual realizados pelos participantes, sendo que as mulheres ainda realizavam coito artificial e estimulação dos seios. Na busca pelos participantes, selecionou Virginia E. Jonhson, psicóloga, para auxiliá-lo nas entrevistas, o que veio a se tornar essencial em seus estudos (MASTERS; JOHNSON, 1966; BRECHER; BRECHER, 1969).
A pesquisa, de amostragem intencional e não-probabilística, uma vez que hipotetizaram que as respostas sexuais modificariam pouco entre as pessoas, teve um total de 694 participantes, sendo 276 casais heterossexuais, 106 mulheres solteiras e 36 homens solteiros. Entre as mulheres, os pesquisadores adotaram o critério de inclusão de obtenção regular de orgasmos, devido à especial atenção conferida ao estudo deste componente da resposta sexual, restringindo a amostra dessas participantes (BOZON, 2004; MASTERS; JOHNSON, 1966; BRECHER; BRECHER, 1969).
No laboratório, os casais realizavam intercurso sexual, masturbavam-se um ao outro ou engajavam-se em atividade de sexo oral. Entre os participantes solteiros, os homens se masturbavam e as mulheres se masturbavam ou eram estimuladas por um pênis artificial, tendo suas atividades genitais durante a excitabilidade e o orgasmo mensuradas. Os pesquisadores também obtiveram as medidas fisiológicas de batimentos cardíacos, contração muscular e pressão sanguínea (BOZON, 2004; MASTERS; JOHNSON, 1966; BRECHER; BRECHER, 1969).
Os pesquisadores observaram, em um período de 11 anos, cerca de 10.000 ciclos de reações sexuais, sendo mais de 7.500 ciclos femininos e mais de 2.500 masculinos, dos quais
apenas 118 reações femininas não culminaram em orgasmo enquanto houve 220 falhas entre as reações masculinas, justificadas pelos autores como em conseqüência ao fator sociocultural, onde o fracasso sexual compromete principalmente aos homens, sendo que o temor ao fracasso constitui um dos principais fatores que conduzem ao mesmo (BRECHER; BRECHER, 1969; HYDE, 2006).
Como resultado, Masters e Johnson (1966) universalizaram as fases progressivas do ciclo de resposta fisiológica sexual humana: excitação, platô, orgasmo e resolução, constituindo-se no modelo mais amplamente aceito e utilizado no meio acadêmico, apesar das críticas recebidas, tais como os resultados tendenciosos devido à amostragem intencional; obtenção e interpretação dos dados conforme noções preconcebidas, o que explicaria o fato de nem todos os estágios serem apropriados a todos; grande ênfase na separação desnecessária entre algumas fases do comportamento sexual; não consideração dos fatores associados à prontidão subjetiva; e o fato de não oferecerem explicação para padrões dos componentes neurológicos (SIPSKI; ALEXANDER, 2002).
A resposta do corpo humano ao estímulo sexual começa tanto nos homens quanto nas mulheres em decorrência a um estímulo, podendo culminar em orgasmo e termina devolvendo o corpo ao estado inicial de repouso. Apesar das variações em duração e intensidade, um único padrão de resposta sexual foi encontrado entre os homens. No entanto, foram encontrados entre as mulheres três padrões diferentes, para os quais devem-se também considerar as mesmas variações mencionadas na população masculina (MASTERS e JOHNSON, 1966). Os gráficos representando os ciclos de resposta sexuais podem ser visualizados na Figura 2.2.
Figura 2.2. Ciclos de respostas sexuais masculino e feminino.
Ciclo de resposta sexual masculino Ciclo de resposta sexual feminino Fonte: MASTERS; JOHNSON (1966).
A fase de excitação referente à resposta sexual inicial, segundo Masters e Johnson (1966), desenvolve-se diante de qualquer estimulação somatogênica ou psicogênica, bastando ser o estímulo suficiente para aumentar a tensão sexual e estender o ciclo passando-se à fase seguinte, sendo que, quanto mais adequado for o estímulo ao indivíduo, mais a resposta é intensificada, podendo essa fase ser acelerada ou reduzida. Esta fase, juntamente com a fase de resolução, consome a maior parte do tempo despendido ao ciclo de resposta sexual humana. Caso o estímulo cesse, retorna-se ao estado de repouso (MASTERS; JOHNSON, 1966; COLE; COLE, 1994).
No homem, esta fase resulta em ereção peniana devido à vasocongestão e como reação secundária apresenta contração de diversas fibras musculares, músculos e grupos de músculos, sendo que alguns apresentam ereção parcial dos mamilos. Na mulher, por sua vez, ocorre o umedecimento da vagina com fluido lubrificante entre os 10 a 30 segundos após o início da estimulação sexual, tanto por estímulo fisiológico, direto ou indireto, como por estímulo psicogênico, consistindo em uma reação de suor das paredes vaginais. Também se nota a protuberância do clitóris, ereção dos mamilos e aumento do tamanho dos seios. Em ambos, verifica-se aumento dos batimentos cardíacos e da pressão sanguínea, aparecendo o rubor sexual, entre outras modificações dispostas na tabela 2.1 (MASTERS; JOHNSON, 1966).
Se a estimulação sexual efetiva prosseguir, o indivíduo, seja homem ou mulher, entra na fase de platô, estendendo-se desde o término da fase de excitação até o início da fase de orgasmo, onde a tensão sexual é intensificada conduzindo ao orgasmo. Contudo, se a estimulação não for efetiva ou cessar, o corpo mostrará redução gradual dos fenômenos fisiológicos (MASTERS; JOHNSON, 1966; COLE; COLE, 1994).
A duração desta fase dependerá da efetividade do estímulo empregado em combinação com o fator pessoal de dirigir-se ao extremo da tensão sexual. Caso um dos componentes citados seja inadequado, o indivíduo dificilmente alcançará o orgasmo e lentamente passará para a fase de resolução, onde o organismo retorna ao estado inicial. Esta fase caracteriza-se pela intensificação dos processos de vasocongestão e miotonia devido ao incremento da tensão sexual, onde a vasocongestão alcança seu auge, até que seja suficiente para culminar na fase seguinte de orgasmo (MASTERS; JOHNSON, 1966; HYDE, 2006).
A fase de orgasmo, conforme Masters e Johnson (1966), limita-se pelos poucos segundos a partir da liberação da vasocongestão e da miotonia oriundas da estimulação sexual. O clímax involuntário é alcançado a partir de qualquer nível que represente incremento na tensão sexual máxima para a ocasião em particular.
A percepção de orgasmo tem seu foco na pélvis, especificamente concentrado na vagina, clitóris e útero nas mulheres, e no pênis, próstata e vesícula seminal nos homens. Todo o corpo é envolvido na resposta à tensão sexual, fisiologicamente bem definida, embora experimentada subjetivamente conforme os padrões de reação individuais.
Há grande variação na duração e intensidade em relação ao orgasmo entre os sexos, onde as mulheres experimentam contrações rítmicas dos músculos pubococcígeos, enquanto os homens tendem a seguir padrões como de reação ejaculatória durante o orgasmo, com menores variações individuais, sendo conscientes das contrações rítmicas dos músculos perineais. Em ambos os sexos, a contração do esfíncter anal ocorre sincronicamente com contrações do assoalho pélvico.
Por fim, afirmam Masters e Johnson (1966), homens e mulheres passam do alto de suas expressões orgásticas para a última fase do ciclo sexual, ou seja, de resolução. Este período involuntário de diminuição de tensão desenvolve-se como uma reação padrão reversa, que retorna o indivíduo das fases de excitação e platô para um estado de pré-estimulação e relaxamento.
As mulheres têm condições de novamente obter orgasmo a partir de qualquer ponto da fase de resolução, quando submetidas a reestimulação efetiva, facilitando a expressão de múltiplos orgasmos. Os homens, no entanto, passam pelo período refratário, não havendo resposta de excitação sexual por mais que haja estímulos sexuais, sendo a estimulação sexual apenas efetiva e alcançando altos níveis de tensão sexual após este período, que pode durar de minutos a dias dependendo da idade e intensidade da estimulação sexual. As mulheres têm curtos períodos refratários e podem ser multiorgásticas (COLE; COLE, 1994).
A contribuição de Masters e Johnsontornou-se um marco na área, uma vez que, ao mensurar diretamente o comportamento na atividade sexual, alerta aos limites dos dados indiretos, pois nem sempre há percepção acurada do próprio comportamento sexual, sobretudo de detalhes que somente, ou de forma mais precisa, instrumentos de medidas como eletrodos e câmeras conseguem captar.
Tabela 2.1: Resposta Fisiológica Sexual Humana de Masters e Johnson.
CICLO DE RESPOSTA SEXUAL DE MASTERS E JOHNSON
Fases Homem Mulher Ambos
Excitação
Congestão dos corpos cavernosos do pênis, início da elevação testicular e engrossamento da pele escrotal. Em três quintos (3/5) dos indivíduos ocorre ereção dos mamilos.
Alargamento do diâmetro do clitóris, lubrificação vaginal, constrição do terço inferior da vagina combinada com dilatação dos dois terços superiores e início da elevação uterina para dentro da pelve. Ocorre ereção dos mamilos, alargamento areolar e realce da cor associados.
Há tensão da musculatura voluntária, podendo haver contração de alguma musculatura involuntária, aparecendo o rubor sexual na pele. O pulso se acelera e a pressão arterial aumenta. No final da fase de excitação da prontidão sexual ocorre miotonia.
Platô
Ereção completa do pênis, aumento no diâmetro e na cor da glande do pênis, aumento no tamanho testicular acima da linha basal, possibilidade de queda de secreção da glande de Cowper no meato uretral. Se a ereção dos mamilos não ocorreu anteriormente, pode ocorrer nesta fase.
Como resultado da vasocongestão contínua, desenvolve-se plataforma orgástica na vagina, com redução do terço externo da vagina e baloneamento adicional para os dois terços (2/3) superiores, com elevação acentuada do útero, enquanto o corpo e o clitóris se retraem, havendo aumento no tamanho das mamas e dos mamilos. Pode haver secreção das glândulas de Bartholin. Algumas mulheres podem ficar “saciadas” nesta fase e passar direto para fase de resolução.
Ocorre aumento do tônus muscular e da freqüência cardíaca e respiratória, aumento da pressão arterial, podendo ocorrer rubor sexual, vermelhidão no tórax, pescoço e face, caso ainda não tenha aparecido, ou intensificando e se estendendo, caso tenha ocorrido. Aumenta a tensão na musculatura voluntária e involuntária, podendo ocorrer contrações espásticas. Pode haver contração de esfíncter anal.
Orgasmo
Contração das vesículas seminais, ductos deferentes e próstata, resultando em extravasamento do líquido seminal, seguido por ejaculação
concomitantemente ao fechamento do colo da bexiga, havendo somente um orgasmo por ciclo.
Entre 3 e 12 contrações musculares rítmicas da plataforma orgástica (terço externo da vagina e região adjacentes), do útero e trompas uterinas, podendo ocorrer um ou múltiplos orgasmos.
Aumentos adicionais na freqüência cardíaca, pressão arterial e freqüência respiratória, com acentuação do rubor sexual, contrações involuntárias rítmicas na musculatura do períneo.
Resolução
Período refratário pós- ejaculação, durante o qual não ocorre outra ejaculação. Suor na palma das mãos e plantas dos pés.
Em algumas mulheres pode aparecer uma fina camada de suor.
Relaxamento da tensão muscular corporal, retorno da vasoconstrição à normalidade e desaparecimento do rubor. Perspiração geral em conjunto com uma reversão gradual das alterações anatômicas, físicas e fisiológicas mencionadas.
Enquanto Masters e Johnson descreveram a resposta sexual como uma seqüência ordenada de um evento único e inseparável, Kaplan (1977) assegura que a resposta não constitui uma entidade única, sendo, ao contrário, bifásica, composta por dois componentes distintos e relativamente independentes, uma reação vasocongestiva genital – produzindo no homem ereção peniana e, na mulher, lubrificação vaginal e intumescência –, e as contrações musculares clônicas reflexas – constituindo o orgasmo em ambos os sexos –, sugerindo um modelo de resposta sexual de três fases, sendo a primeira de prontidão subjetiva, expressa pelo desejo sexual e as demais, fisiológicas, compreendidas pela excitação e orgasmo A tabela 2.2 demonstra o modelo de resposta sexual de Kaplan (1977).
Tabela 2.2. Modelo de Resposta Sexual de Kaplan (1977)
Desejo
Refere-se à experiência de sensações específicas que motivam o indivíduo a iniciar ou se tornar responsivo à estimulação sexual. Considera-se que esse processo tenha um controle neurofisiológico central, sendo um componente psicológico relativamente independente dos demais possuindo, contudo, inter- relação com a fase de excitação.
Excitação
Caracterizada simplesmente pela vasocongestão genital. Associada com estimulação de vias reflexas periféricas da medula espinhal, a ereção no homem e lubrificação vaginal na mulher faz-se por intermédio do sistema nervoso autônomo parassimpático.
Orgasmo
Consiste em contrações musculares reflexas na pelve. Associada com estimulação de vias reflexas periféricas da medula espinhal, a ejaculação é uma função do sistema nervoso simpático.
Apesar das críticas dirigidas a esse modelo, como não corresponder à realidade considerando que não necessariamente o desejo é precursor à excitação ou ao orgasmo, ou devido à simplificação excessiva das etapas de excitação e orgasmo, como se ocorressem por meio de mecanismos reflexos, é o modelo incorporado pelo Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-IV-TR, 2004; SIPSKI; ALEXANDER, 2002).
Bancroft (1989), igualmente estudando a resposta sexual, abrange seu conceito formulando-o segundo o modelo psicossomático, composto pelo sistema límbico e os centros espinhais medulares, influenciados por mecanismos cognitivos que dependem de fatores
socioculturais, da auto-avaliação das próprias respostas sexuais e estímulos sensoriais (apud CARDOSO, 2004).
Embora a sexualidade, intimidade e função sexual constituam-se em diferentes aspectos, usualmente encontram-se interligados, sendo que a função sexual exerce impacto sobre toda a personalidade e suas alterações, ou seja, as inadequações e disfunções sexuais podem apresentar-se em qualquer fase do ciclo de resposta sexual, em diferentes épocas da vida e em decorrência a diversificados fatores, podendo afetar a personalidade e as relações interpessoais do indivíduo, refletindo negativamente na qualidade de vida e saúde sexuais, aspectos importantes que serão abordados na continuidade deste estudo (MASTERS; JOHNSON, 1966; KAPLAN, 1977; 1982; COLE; COLE, 1994).