Leite (2002) afirma que há uma aproximação natural entre a literatura e a Psicologia e a Psicanálise, no sentido de enfatizar papel da leitura do símbolo literário ocidental na formação do profissional de Psicologia. A literatura tem uma íntima relação com o conhecimento psicológico, até porque os autores se apropriam do conhecimento da Psicologia para definir seus personagens, as relações, os conflitos, o drama e a trama etc.
Segundo Barthes (2004), o escritor, na produção do seu texto, sabe mais que aquilo que escreve; o texto, uma vez pensado, não pertence mais ao mundo do escritor. Uma vez produzido, o texto o autor vai dando lugar ao leitor. O autor, ao dar lugar ao leitor, também sai de sua prisão solitária.
Para Kallas (2010), mesmo se um poeta estivesse encerrado em uma prisão minúscula, tendo à sua frente apenas muros, ainda assim tiraria o seu material poético de recordações de sua infância ou de um tempo retido na memória. Tudo a ser escrito pelo escritor já se encontra dentro dele, basta um mergulho no seu imaginário criativo. O fascínio e o deslumbramento é o olhar da solidão, a solidão essencial à criação poética.
Para Castelo Branco (1994), o tempo da escrita é um tempo da experiência, sempre presente. Infinitos segundos se sucedem rumo ao futuro e só se recuperam em um passado representado, em um continuum de um tempo sem tempo, no qual o passado anseia o presente e o futuro se determina como aquilo que será lembrado, em um lugar absurdo de um presente que sempre se esvai.
Blanchot (1987) afirma que um vazio do passado e um vazio do futuro que se fazem presentes nessa “solidão profética” de um tempo que é para sempre agora, início sem fim, tempo de escrita. A deusa-mãe da Poesia e da Memória entrega Eros aos braços de Thanatos, entrega à vida aos braços da morte, berço-tumba pulsional, morte essa que, na escrita, faz-se presente e torna-se uma promessa de imortalidade.
O poeta constrói a forma das palavras, não para se pintar ou descrever, mas para se descobrir os sentidos das ideias retidas no imaginário como descreve Blanchot nos cantos das sereias (2005). O mundo que o artista cria é produzido de forma singular, um processo peculiar do artista, pois, ao criar, ele se liberta ou expressa à luta constante com a ansiedade relativa ao resultado final de seu esforço. No mito popular, o artista é um sonhador que ignora realidades, na verdade, ele não é um sonhador, mas um artesão dos desejos. O artista não está distante da realidade, mas busca expressar sua verdade psíquica. O artista aspira a localizar seu conflito e resolvê-lo em sua criação. Portanto, a intenção do artista é despertar no público
uma resposta emocional que, nele, produzirá o ímpeto de criar. O escritor usa sua arte para sublimar suas dores.
O desejo do artista é expressar em forma de obra de arte o que sente nas profundezas de seu mundo interno. Como uma voz vinda de outro lugar na descrição de Blanchot (2002). A percepção interna do sentimento mais profundo é que leva o artista a precisar recriar algo que seja sentido como um mundo completamente novo e o que todo artista faz é criar um mundo. Por mais alegre e serena que seja a obra, ela comunica ao receptor uma tensão que subjaz ao processo criativo.
Para Johanson (2004), os desejos dos artistas expressos na obra de arte são desejos reprimidos, inaceitáveis à consciência, e uma obra de arte pode dar origem a inúmeras emoções. As obras de arte incluem não só a poesia, ou a pintura, mas também em particular a música, mesmo com a ausência de um conteúdo verbalizável, ou seja, apenas instrumental.
A liberdade é o alcance do esforço de mudança sem garantias. O ato livre, tal como a obra de arte, é o produto final que pode não ser concluído. A criação dá-se com a determinação interna, que supera a hesitação e faz com que o artista tome conhecimento de sua experiência por intermédio de sua obra e, até mesmo para ele, essa experiência não será de todo revelada, ressalta Johanson (2004).
A obra é o produto final que se desprende do artista e que será dado a conhecer, como um ser único e autônomo, a posteriori, com o seu desprendimento. A obra de arte é, nesse sentido, já que não há como prevê-la; até mesmo o artista só a conhece plenamente quando ela está pronta. O jogo da criação se realiza no interior de um campo de hesitação. Para o autor, a hesitação não é senão o risco de lançar-se em um movimento que não tem mais razão de seguir nessa ou naquela direção, mas que só será reencontrado depois de realizado, conforme Johanson (2004). O da obra literária é fruto de uma cultura, ou de elementos culturais que são expressos por meio da linguagem do autor, conforme cita Coli (2000); a obra é constituída, em última análise, por elementos culturais mais profundamente necessários que os próprios elementos materiais.
O objeto artístico mantém uma relação tão complexa com a cultura que se mostra inesgotável e inapreensível. A cultura que se mostra aos olhos da literatura sempre influi na visão de mundo do autor e do leitor e Janson (2001) diz que uma obra de arte influi sempre na visão de mundo do homem. A arte resiste à análise mais minuciosa e à passagem do tempo. Isso não quer dizer que todos sejam sensíveis a ela, pois as próprias limitações humanas, em matéria de personalidade, de experiência, de compreensão, impedem-no, por vezes, de apreciá-la e estudá-la.
A condensação do sonho é semelhante à metáfora poética, e a metonímia, deslizamento dos significantes, ao deslocamento das imagens oníricas ao vagar do desejo, em outra aproximação entre o texto poético e o texto onírico. Nesse ensaio de Freud (1909), “O poeta e o fantasiar”, talvez a literatura seja o lado visível do inconsciente.
Assim, quando cria, o artista trabalha com formas, e também com o potencial expressivo e significativo dessas formas. O artista, consciente desse potencial, busca de modo intencional, as configurações formais que transmitam, de modo o mais preciso possível, os conteúdos, as significações que tem em mente.
A fruição da arte pressupõe um esforço diante da cultura. A arte, no entanto, exige um conjunto de relações e de referências mais complexas, pois as regras do jogo artístico evoluem com o tempo, envelhecem, transformam-se nas mãos de cada artista segundo Coli, 2002 e Bérgson (2002).
A atitude do artista, como artista, isto é, a atitude do distraído, desligado em certo grau e em relação a certo sentido da ação prática, segue na direção oposta ao que é habitual para o espírito, ao contrário do que naturalmente requer a consciência, a saber, um máximo de concentração e, ao mesmo tempo, um mínimo de amplitude. A relação das obras de arte com o seu conteúdo de verdade são, portanto, vivenciada em um estado de extrema tensão (BERGSON, 2002, p.32).
Para Birman (1977) o autor emerge do intervalo vazio entre dois significantes, no clarão que acende o desejo. Lugar do sujeito do inconsciente, um dos destinos sublimatórios da pulsão.
O melhor de mim são os personagens que me tomam, diz o Eu; direi a voz deles, nas suas próprias e na minha. Essa condição de exilado do texto, esse estranhamento que pode nos causar a leitura de nosso próprio escrito, nos leva à surpreendente pergunta: Será que fui Eu quem escreveu Isso? (BIRMAN, 1977, p. 34)
Sábato (2003) pergunta: Quem é esse escritor que perambula pelas páginas em branco, buscando na memória um motivo, um desejo, uma provocação do inconsciente? É um poeta, um prosador, um utopista, um ilusionista, um romancista, um construtor de palavras, um trágico, um dramaturgo, um biógrafo, um professor? Talvez tudo isso, talvez mais além, vivendo em um mundo que transcende o cotidiano, em um mundo e sonhos utópicos, e em uma realidade de dimensões atemporais. Sua tarefa é escrever para alguém, para o outro, não qualquer escrita, mas, sim, aquela produzida a partir de um sentido para gerar um produto literário para o leitor que também busca um sentido na leitura. Discorrer e refletir sobre o trabalho do escritor literário que vive em um mundo recluso, na solidão e muitas vezes sendo
vítima de um preconceito de que vive em um mundo recluso e é pouco afeito ao trabalho segundo Sábato (2003).
De acordo com Amorim (2008), o quadro de leitores no Brasil indica uma realidade pouco animadora. Enquanto nos países de primeiro mundo, como Estados Unidos e França, há uma média de leitura de até sete livros por pessoa ao ano, no Brasil, essa média baixa para 1,8 livros por pessoa ao ano e, mesmo assim, aí estão incluídos os livros técnicos e acadêmicos. As pesquisas mostram que esse número cai drasticamente, quando os alunos deixam as salas de aula. A produção de livros no Brasil, no período de 1998 a 2004, estava em torno de trezentos milhões de livros por ano, mas 99,3% desse total eram livros acadêmicos, e somente 0,7% obras literárias, o que indica que esse sombrio panorama pede mudanças. Infelizmente, não temos uma cultura nem incentivo para a leitura, em especial para obras literárias (EL FAR, 2006).
Escrever livros, em especial de literatura, no Brasil, exige dos escritores, além do talento literário, da técnica, algo mais, que o faz superar todos os desafios que são parte da História do livro e do escritor.
O escritor vive angústias em seu processo criativo e busca transformar em desafios criativos (FREUD, 1907-1908), transformar o sofrimento em prazer e o faz por meio da sublimação, por meio de uma travessia poética, de uma ponte que liga o imaginário do escritor com o imaginário do leitor.
O escritor constrói uma travessia entre a subjetividade do escritor construída em um mundo solitário, que permeia os desejos de produzir e de deixar registrados nas palavras seus sonhos, seus devaneios. Freud abordou esse aspecto em “Escritores criativos e devaneio” (texto de 1907-1908), no qual queria saber de que fontes esse estranho ser, o escritor criativo, retira seu material, e como consegue impressionar-nos e despertar-nos emoções das quais talvez nem nos julgássemos capazes. O interesse intensifica-se ainda mais pelo fato de que, ao ser interrogado, o escritor não nos oferece uma explicação, ou pelo menos nenhuma satisfatória; e de forma alguma ele é enfraquecido por sabermos que nem a mais clara compreensão interna (insight) dos determinantes de sua escolha de material e da natureza da arte de criação imaginativa em nada irá contribuir para nos tornar escritores criativos.