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O evento das Diretas tem vultuosidade. A partir dele, há uma abertura na visão da memória petista. As massas ganham as ruas. O velho regime militar se enfraquece. O PT aparece como uma força política viável. Vimos que o PT alagoano foi organizado, em seus primeiros passos, por sindicalistas e estudantes, funcionários públicos e intelectuais. Depois, as portas se abririam para que o Partido assumisse sua forma atual. As Diretas ocupam, na memória de todas as nossas fontes, uma força impressionante. É a partir das Diretas que o PT assume espaço político, enfim.

Esse espaço político se amplifica com as Eleições de 1989. O PT é alçado pelos temas nacionais. Ganha relevância, peso político na cidade. Aumenta seu número de filiados, obtém parlamentares, ganha militância das bases do PCdoB. A partir daí, o Partido se estrutura como a direção das esquerdas em Alagoas.

Em contraste, os tempos de legalização do Partido são vistos como terríveis. Despolitização, escassez econômica. Mas também são os tempos do "PT das origens" evocado por Alice Anabuki, do classismo. São tempos que Tutmés Airan caracteriza como "puristas". Tempos em que não há alianças, há uma visão "muito fechada".

Vimos como, para Ricardo Coelho, a explicação para esse momento do PT, sem enraizamentos, estaria na ausência de uma classe trabalhadora organizada. Operação de enquadramento de memória. Vários outros intelectuais e dirigentes construirão esta explicação. Neste raciocínio, a razão da inexpressividade do PT em Alagoas, segundo vários de seus dirigentes, como Paulo Fernando dos Santos (Paulão), ex-dirigente sindical e deputado federal, estaria na própria constituição econômica do Estado de Alagoas. Sem uma classe operária forte, a grande base social do PT, o estado não veria o Partido ter o mesmo desempenho que em outros estados de maior industrialização. Da mesma forma, a ausência de distribuição de renda não poderia construir uma classe média forte, a outra parte da fundamental base social que constitui o PT na maior parte dos estados.

Sem essa classe operária, o que seria o PT? Sindicatos, principalmente de funcionários públicos, depois da fundação da CUT. Os mandatos parlamentares, a partir do crescimento eleitoral nos anos 1990, que se dá com o paulatino abandono do espírito de Sion e a aproximação do que será, em 2002, o espírito do Anhembi.

São os tempos de adaptação ao Pemedebismo. Tempos em que o PT passa a entrar na Cultura Política de blindagem do sistema político, conduzida pelo "centrão" e pelo PMDB. São tempos de adaptação à ordem.

Assim, a memória política do PT alagoano é contraditória, como toda identidade política. Há o resgate das Diretas Já! com brilho nos olhos, a lembrança das grandes caminhadas com admiração. Mas a história do Partido no estado parece significativa apenas quando das eleições e do crescimento eleitoral. Alice Anabuki se afasta do PT de Alagoas nesse período e, quando volta ao Estado, não mais se considera da agremiação. Os demais vivem todo esse processo. Narram a monotonia do PT antes das Diretas, mas a trajetória que vislumbram é a de um fortalecimento político que só será questionado no cenário atual, de Impeachment e ódio ao governo Dilma.

O PT em Alagoas será um PT de Movimento Estudantil, de sindicalismo de classe média e oposições sindicais. Mais à frente, um PT de sindicalismo de servidorismo público e parlamentares. Essas serão as bases em que o Partido estará assentado em Alagoas. Não há os batalhões pesados da classe operária. Não há fortes setores produtivos em caráter significativo, mas sim residual. Este é o PT de Alagoas.

À luz de todas as informações que temos, podemos retomar a citação do dirigente político Paulão, utilizada na introdução deste trabalho:

Você não consegue ter uma esquerda forte se não tem bases sociais forte, uma classe média e uma classe trabalhadora fortes, se não tem uma distribuição de renda razoável." Explica o deputado ao questionar: "Como foi criado Alagoas? Alagoas foi separado de Pernambuco, que vivenciava a luta contra a escravidão, os ventos da revolução francesa, a visão industrial da Inglaterra, da Holanda, da França. E quem cria Alagoas? A elite pernambucana atrasada, que pega as melhores terras de Pernambuco e cria o Estado. Nosso problema é de nascedouro, vem de formação.226

Essa interpretação que condena o PT a um apagamento político devido à formação do Estado de Alagoas encontra-se, após a exposição de todos os argumentos que levantamos até aqui, em uma posição inválida. Vimos que as lideranças políticas do Estado apostaram na construção de candidaturas e lideranças alicerçadas nos movimentos urbanos de classe média. Vimos também a auto-crítica de dirigentes sobre a não aproximação com os movimentos do

campo, tão fortes e tão constitutivos no Estado. Vimos também a crítica de Ricardo Coelho e Alice Anabuki sobre a carência na formação política, um problema apontado por Lincoln Secco como uma dificuldade nacional do Partido. Mais ainda, vimos desde o começo que o PT teve que disputar seu espaço com o PCB, o PCdoB e com a organização do MDB e posterior PMDB no Estado. O tempo todo houve disputa política para a construição da organização e vemos agora que sem essa disputa não se entende a identidade política das esquerdas no Estado. Não obstante todas estas questões, ainda há a crítica feita por Ricardo Coelho, corroborada em alguns outros momentos da dissertação por outros depoimentos, de que o PT foi pensado como um Partido para o Sudeste, pouco ligado às questões próprias do Nordeste e de Alagoas. Como vemos, são muitas as questões e problemáticas que podem se resumir às escolhas e decisões tomadas pelas lideranças do PT dentro de uma conjuntura dada pela existência de outras organizações e pela força política do setor do agro-negócio. Mais do que a interpretação determinista e conservadora dada pelo dirigente petista, pensamos que esta interpretação é mais adequada para se visualizar historicamente o PT, inclusive abrindo espaço para que trabalhos futuros explorem ainda mais detidamente os problemas, visto que este trabalho, dado o pioneirismo, apenas faz apontamentos iniciais e amplos.

É nesse cenário que concluímos nossa dissertação, como uma contribuição a uma história que não é só a das vozes que ecoaram nesse trabalho, nem é só a daqueles que construíram o PT. É parte da história de Alagoas e do nosso Brasil, parte da vida de uma organização política que surgiu carregando o sonho e as esperanças de milhares de pessoas. É a história de pulsões que ainda se fazem presentes na nossa sociedade

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