Como o próprio Walter Pinto assume em entrevista dada à Série Depoimentos do SNT, ele começou no teatro por acaso (1977, p.163). Pinto, ao contrário do pai, não era um homem de teatro, era formado em contabilidades. E quando assumiu seu posto, a empresa não estava em sua melhor época, engodos causados por pessoas que ajudavam seu pai a tocar a empresa a deixaram com pouco dinheiro. Walter Pinto resolveu então que assumiria a companhia e também dirigiria os espetáculos90.
Para seu primeiro espetáculo, É disso que eu gosto, convidou nomes como Oscarito e Aracy Cortes para compor o elenco, vindo a estrear no dia 31 de dezembro de 1939. Pinto afirma que com o dinheiro angariado pelo sucesso dessa Revista, ele conseguiu saldar as dívidas anteriores e começar propriamente dito a sua vida de empresário teatral (1977, p.164). Tomou gosto pelo negócio e segundo
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“Resolvi então assumir tudo e dirigir. Ora, naquele tempo eu não tinha nenhuma prática de teatro. Eu nem assistia teatro pois meu pai sempre me proibia por causa das mulheres que haviam lá dentro. Depois meu irmão não permitia que eu assistisse aos ensaios gerais. Por isso quando eu decidi fazer uma peça para estrear convidei o Floriano Faissal para dirigir. O Floriano disse que só aceitava o cargo com carta branca, com poder absoluto dentro da companhia. Eu achei aquilo uma coisa meio absurda porque não admitia que um empregado pudesse mandar mais do que o patrão. Não pode, eu disse, quem tem que mandar aqui sou eu! Diante disso ele se retirou [...]. Aí, resolvi tocar prá frente sozinho.” (1977, p.163)
Filomena Chiaradia (2011, p.193), “tornou-se referência para o teatro de revista das décadas de 1940 e 1950”.
Antunes (2002, p.99) afirma que para suprir a deficiência de não ser um homem de teatro, “Walter Pinto viajou para as principais praças do exterior, estudou teatro e as novas técnicas que enriqueciam as encenações modernas”. Walter Pinto quando questionado por Orlando Miranda de como havia sido seu processo de formação autodidata em teatro, respondeu: “Comprei e tenho até hoje uma biblioteca de teatro com obras em francês e inglês onde estudei plano de teatro, de ballet, cenografia, luz” (1977, p.169). Seu conhecimento como contador auxiliou a organização das finanças, e deu-lhe um pensamento empreendedor que lhe fez planejar as temporadas com base nos custos e nos lucros. Antunes aponta ainda que Walter Pinto “modernizou a companhia e o funcionamento do teatro e profissionalizou todos os setores de criação e de produção dos espetáculos, transformando-se rapidamente em um empresário bem-sucedido” (2002, p.99).
Walter Pinto resolveu fazer, o que ele mesmo chama (1977, p.164) de expurgo. Seus artistas, e mesmo que estes fizessem um bom trabalho, tinham ainda de demonstrar um bom caráter, do contrário estavam fora da companhia. Pinto (1977, p.164) diz que começou a estudar psicologia do público, por isso o expurgo. Resolveu mexer no grupo de coristas. “Ora, o público, em sã consciência, estava cansado de ver aquelas girls que já faziam até parte do mobiliário do teatro. Eu coloquei coristas que marcavam bem” (1977, p.164).
Prezava também pela beleza. Não só das coristas, mas também dos cenários e figurinos. Ao trocar as coristas, Walter Pinto teve de gastar mais para a contratação de novas, e mais bonitas substitutas, e por isso teve de aumentar o preço das entradas. Buscava o profissionalismo ao máximo.
[...] fiz do meu teatro uma oficina de trabalho onde era exigido o maior respeito. Qualquer transgressão à moral era punida com suspensão ou com expulsão imediata do elenco. [...] O que eu queria realmente eram pessoas com consciência profissional e não aventureiras. Contratei profissionais na Europa, Argentina. (1977, p.166)
Walter procurou sempre ter participação ativa nos espetáculos. Não contentava-se em ficar por traz da administração e contabilidade. Responsabilizava- se por trazer inovações técnicas, ambicionando colocar seus espetáculos no mesmo patamar que os das famosas Folies Bergere de Paris. E como aponta Paiva (apud Chiaradia.2011, p.193), “Walter ainda quis provar sapiência, assinando como autor de libretos, responsável pela iluminação e a chefia do maquinário, da mobilidade coreográfica, bem como peça direção artística e direção geral”.
E o elenco do Teatro Recreio era à época, de dar inveja. Tinha Oscarito, Manoel Vieira, Margot Louro, Zaira Cavalcanti, Aracy Cortes, Pedro Dias, Dercy Gonçalves, além é claro do corpo de girls selecionado por Walter Pinto. E com Pinto à frente da direção artística, envolvido no processo de criação e produção, a Revista foi se transformando num espetáculo de luz, cor, luxo no figurino e modernidade no cenário. A companhia de Walter Pinto foi a primeira a utilizar iluminação através de luz negra no Brasil (Antunes. 2002, p.109).
As inovações técnicas, a proximidade com as folies e as féeries, ou seja, o apego que Walter Pinto tinha ao aspecto visual do espetáculo rendeu-lhe críticas. Aponta-se, como o faz, por exemplo, Neyde Veneziano, que “o luxo abafa o texto que vai, aos poucos, se desviando para o teatro de variedades” (1996, p.15). O empresário estava, no entanto, alerta ao comportamento do público, buscando antecipar o que poderia virar a ser uma demanda de mercado. Houve o que Filomena Chiaradia chama de um “desequilíbrio de elementos provocado pela predominância de um fator sobre outro (a visualidade sobre à textualidade” (2011, p.196), é preciso lembrar, no entanto, que Walter Pinto estava experimentando novas tecnologias e uma nova forma de produção teatral, ficando sujeito a erros e principalmente, a condenações futuras.
De qualquer forma, desde que assumiu a direção da companhia no teatro Recreio, e estreou com o espetáculo É disso que eu gosto, em 1939, até Diabo que a carregue, seu último espetáculo, de 1963, Walter Pinto reinou absoluto por vinte anos, até o gênero esgotar-se.