• No results found

Os entrevistados, ao experimentarem suas limitações diante das circunstâncias apresentadas, entram em relacionamento com o ponto central da tradição de Morro Vermelho – Nossa Senhora de Nazareth – de forma decisiva, ou seja, apropriando-se daquilo que lhes é passado através da verificação da resposta que a Padroeira dá aos dramas e situações triviais da vida cotidiana. A convicção acerca da presença da Santa, alcançada no relacionamento que os entrevistados estabelecem com Ela, é mediada por suas necessidades e está apoiada na confiança de que Ela responde.

A fidelidade experimentada na relação com Nossa Senhora não apenas permite uma compreensão daquilo que mais necessitam, revelando aquilo que mais desejam – justiça, bondade e amar –, como instaura uma maneira de olhar para a própria vida e de conviver impregnadas por essa consciência nova. Instaura-se, portanto, a noção do “nós”; na qual os entrevistados tomam mais consciência de si mesmos, dos outros e do valor da Padroeira para ambos.

Há, ainda, nos depoimentos, um segundo momento que, apoiado nessa certeza, gera uma unidade não apenas na maneira como os entrevistados vivem e convivem, mas, sobretudo na forma como realizam a festa.

Capítulo 05 – Experiência-tipo do pertencer

142

5.2.1. Construção da festa: o chamado

O primeiro aspecto que constitui a construção da festa é a consciência da forma como Nossa Senhora toma iniciativa para com cada um dos entrevistados, em momentos específicos de suas vidas. Dessa maneira, o empenho com a festa tem sua origem na experiência do Seu chamado através das circunstâncias.

O chamado acontece durante a observação e a co-participação de atividades cotidianas da comunidade, nas quais os entrevistados se percebem convidados por Nossa Senhora a se envolverem cada vez mais. Ser chamado é ser atraído pela Padroeira a construir a festa, o que pode ser reconhecido através do desejo de participar daquele momento.

A participação não é considerada como fruto de um esforço, mas deriva do reconhecimento comum de que é Ela quem os chama, é Ela quem os atrai a ponto de não deixá-los parados na comunidade. A atração caracteriza-se como algo externo que desperta um interesse; e a participação propriamente dita sinaliza um movimento pessoal, uma decisão, guiada por algo que lhes corresponde.

A resposta a esse chamado é vivida na certeza de que a festa acontece porque a Padroeira quer e a aprecia. Dessa maneira, o acontecimento dessa festividade, bem como a participação dos entrevistados, estão alicerçados no reconhecimento da Sua presença, principal motivo pelo qual a festa é realizada anualmente.

O fato de que as dificuldades apareçam não lança dúvidas sobre a realização da festa, embora pudesse ser tomado como motivo para o cancelamento da celebração ou para o impedimento da romaria. Ao contrário, as dificuldades são entendidas como sinais da Sua presença, ou seja, como manifestações que comunicam a Sua vontade e, principalmente, a Sua disposição para a efetivação da festividade.

143

O chamado, manifestação da vontade e do apreço de Nossa Senhora pela festa, gera um comprometimento caracterizado pela doação irrestrita dos entrevistados; uma vez que se encontram apoiados na gratidão pelas graças e milagres que Ela realiza em suas vidas2.

A resposta ao chamado acontece através da construção da festa, que é a tarefa à qual os entrevistados são convidados a participar.

5.2.2. Construção da festa: a tarefa, expressão concreta do chamado

A tarefa é o âmbito mais concreto da resposta ao chamado de Nossa Senhora aos entrevistados. Ela se caracteriza, sobretudo, pelo tipo de serviço que realizarão nos momentos que antecedem a festa, assim como durante a sua realização propriamente dita.

Ao relatarem o trabalho nesse momento de festividade, os entrevistados não se atêm ao serviço enquanto um cargo ou função realizado mediante um esforço persistente. Ao contrário, impactam-se e são atraídos pela maneira como as pessoas exercem seus trabalhos no momento da festa. Seguindo essa inclinação afetiva, através da convivência com as pessoas da comunidade, os entrevistados, gradativamente, compreendem o significado daquele empenho, o que desperta interesse em participar efetivamente das atividades festivas.

Dessa forma, a necessidade em dar continuidade à tarefa do pai, o impacto com a solicitude irrestrita dos familiares são aspectos de uma consciência inicial acerca da importância da dedicação daquelas pessoas; aspectos estes que acenam e desvelam, principalmente, o valor pessoal daquele trabalho, bem como a sua importância na construção da festa.

2 Paceli descreve o chamado de forma muito peculiar. O trabalho na festa ocorria, primordialmente, pela sua livre iniciativa em relação à proposta que lhe era realizada. Assim, responder ao chamado, isto é, a esse ato de querença de Nossa Senhora implica: a escuta, que se destaca pelo reconhecimento consciente de um desejo em contribuir com aquele momento de festividade; a espera, que se evidencia pelo perseverar no desejo, não o desconsiderando; e, por fim, a adesão, salientada pelo posicionamento de aceitação do chamado quando este é realizado de forma clara (referindo-se especificamente ao momento em que foi convidado a realizar algum tipo de tarefa na festa). Esse empenho, realizado sistematicamente na festa, tem como principal conseqüência o aumento da familiaridade com a forma como Deus olha para tudo e para todos.

Capítulo 05 – Experiência-tipo do pertencer

144

Seguindo essas pessoas, os entrevistados verificam a intercessão constante de Nossa Senhora na própria vida, mas, também, na vida daqueles que participam da festa como espectadores, através das graças e dos milagres que Ela faz acontecer em resposta às súplicas que Lhe são feitas. Impulsionados pela gratidão à Padroeira, emerge o envolvimento comprometido com a festa da Padroeira.

Receber e assumir a tarefa implica a realização de certas atividades que são imprescindíveis para o acontecimento da festa. Assim, trabalhar com a consciência da importância da contribuição que se oferece como fogueteiro, festeira ou carregando o andor de Nossa Senhora, evidencia o valor inestimável que os entrevistados encontram em si, por meio do relacionamento com Nossa Senhora – a justiça, a bondade e o amor.

Nesse sentido, vem à tona o que a festa pode oferecer através da finalidade do próprio empenho pessoal dos depoentes: conservar a festa através da disponibilidade e da apropriação de uma tarefa que é recebida pela geração antecedente, servindo como instrumento à vontade e à ação da Padroeira que concede as graças àqueles que A procuram; trabalhar nessas celebrações, com o coração tomado pela bondade de Nossa Senhora, como uma forma de contribuir para que o melhor das pessoas possa vir à tona; empenhar-se com o desejo de que o mundo possa conhecer o que significa o amor de Nossa Senhora e como este permite uma transformação benéfica para a vida, através de própria vida mudada por esse olhar misericordioso de Deus. Estas são todas facetas que estimulam a participação dos entrevistados, transfigurando-se em uma responsabilidade pessoal, um comprometimento com a comunidade, ou seja, em um dever. Enfim, a maturidade desse comprometimento também se expressa pela preocupação dos entrevistados com a continuidade daquela atividade no futuro.

A aceitação da tarefa oferecida pela tradição, a apreensão e a apropriação do significado desse trabalho, mediante o próprio envolvimento na festa, o fazer determinado

145

pela clareza da finalidade daquele momento e da ação da Padroeira e, por fim, o desejo de que aquele trabalho permaneça no tempo, permeiam o empenho responsável com as atividades às quais são chamados.

5.2.3. Realizando a tarefa, faz-se memória do relacionamento com Nossa Senhora de Nazareth: lugar da pertença

O reconhecimento da tarefa concreta que os entrevistados devem realizar, bem como a finalidade e as limitações que a sua atuação evidenciam, são aspectos que se apresentam de forma paradoxal, carregados de tensão: assumir a tarefa transmitida pelo pai, com a responsabilidade de dar continuidade ao que lhe foi passado, aparece permeado pela preocupação inquietante de que aquele momento não pode acabar; fazer a festa da melhor maneira possível, momento no qual uma mudança para melhor pode ocorrer para alguém, tendo consciência de que ainda não se sabe fazê-la; olhar o mundo com os olhos de Deus, fruto do trabalho feito na festa, atravessado pelo desassossego que representa esse modo de viver e conviver em locais que não se guiam por esse tipo de orientação.

Essa aparente desarmonia entre o impulso para trabalhar na festa e a incapacidade de realizá-la plenamente coloca os entrevistados em uma posição de vertigem: “num pode acabar”.

A intranqüilidade gerada por esse paradoxo é redimensionada pelo vir à tona da memória de uma certeza atingida na verificação da tradição recebida: tudo o que se pede a Nossa Senhora, alcança-se; testemunho de graças e milagres, fruto de um “poder do alto”; gratidão por ter um lugar sustentado por Deus e por Nossa Senhora, no qual se sente acolhido e amado, podendo se expressar integralmente.

Diante da memória do que lhes aconteceu, a certeza experimentada no relacionamento com Nossa Senhora de Nazareth, os entrevistados são impelidos a olharem de uma forma diferente para aquela circunstância que suscita certa aflição, pelo seu estado

Capítulo 05 – Experiência-tipo do pertencer

146

aparentemente insolúvel, retomando a tarefa a ser realizada, no presente, com uma maior clareza de seu significado.

Dessa maneira, diante da iminência de uma mudança climática que poderia atrapalhar o andamento das celebrações e solenidades, a memória dos fatos que sinalizam o apreço que Nossa Senhora tem pela festa, evidenciado pelo fato de que Ela nunca “montou dificuldades” para que esse momento acontecesse, fundamenta-se o pedido de Biló para afastar a chuva daquela região.

Assim como para Beatriz que, desejando realizar a festa da melhor maneira possível, consciente de que não consegue fazê-la sozinha, é tomada pela convicção de que fazer a festa é uma ocasião para pedir à Padroeira a própria conversão pessoal, a transformação da vida e do coração, testemunhada em outros momentos, estimulando-a e mobilizando-a ao trabalho coletivo com um objetivo comum.

Surpreendendo-se grato por ter nascido em um lugar sustentado pelo amor de Nossa Senhora e de Deus, Paceli é provocado a se reaproximar continuamente da Santa, no momento da festa, amparado pela memória das graças e dos milagres, frutos do amor incondicional da Padroeira. Assim, ele retoma a consciência de sua própria história, renovando o desejo de gerar formas do amor, de ser exemplo, mesmo em realidades muito diversas a de Morro Vermelho.

Enfrentando as dificuldades que os entrevistados experimentam, durante a realização da festa, eles são interpelados e tomados pelas lembranças de fatos passados, que trazem à consciência a evidência daquela certeza pessoal, alcançada no relacionamento com a Padroeira. Através da memória da Sua presença, eles re-experimentam uma intensidade e um sentido para a vida que os impulsiona a repropôr a festa continuamente.

A memória dos fatos que carregam a evidência do relacionamento com Nossa Senhora de Nazareth, bem como a certeza de Sua companhia correspondente, para os entrevistados, é o lugar que desencadeia a experiência de pertença a Morro Vermelho, uma vez que, na relação com a

147

Padroeira, ao fazer a festa, eles reconhecem quem são, olhando para a sua própria história, e para a sua tarefa na vida, através da reproposta do chamado feito pela Santa.

5.2.4. A resposta ao chamado é uma manifestação de gratidão: expressão da pertença a Morro Vermelho, como concepção de si mesmos

Realizando a festa, os entrevistados fazem memória da maneira como Nossa Senhora se instaurou em suas vidas, culminando na construção desse momento, através da forma singular com a qual eles são chamados continuamente pela Santa: na vontade de fazer a festa, porque essa é a Sua vontade, no desejo de imitá-La em sua bondade e fazê-La amada, na aspiração a olhar o mundo com os olhos de Deus, ou seja, com os olhos da Misericórdia.

Através do conhecimento, da convivência e da verificação da tradição, bem como do relacionamento pessoal que os entrevistados estabelecem com Nossa Senhora de Nazareth, emerge a gratidão pela mudança que Ela introduz em suas vidas, fazendo-os tomar consciência de si; uma consciência de si manifesta pelo dar-se conta das necessidades mais profundas desveladas pela Virgem – justiça, bondade, amor. Estas podem ser consideradas como o conteúdo do chamado feito pela Padroeira e da contribuição original de cada um dos depoentes para a perpetuação dessa tradição em Morro Vermelho.

A gratidão pela Santa, enfim, estende-se à história da qual fazem parte. Da mesma forma, respondendo ao Seu chamado, à tarefa que lhes é revelada no relacionamento com a Padroeira, entende-se também a única proposta que eles têm para oferecer, na festa e em todos os âmbitos da vida.

Enfim, essa gratidão à Santa, pela companhia constante e fiel, e a resposta ao chamado para construir a festa, por meio da realização de uma tarefa que lhes é revelada pela Padroeira, constitui-se na expressão da experiência de pertencer a Morro Vermelho, assim como foi descrita pelos entrevistados.